domingo, 28 de janeiro de 2018

O mapa dos votos no lulismo

A condenação de Lula pelo TRF-4 e um possível impedimento de sua candidatura abrirão uma disputa por cerca de 53 milhões de eleitores. Adversários precisarão transferir votos principalmente de cidades com até 50 mil habitantes.

Os 53 milhões de votos e seus muitos destinos

Saída de Lula levaria adversários a travar luta por eleitores em cidades de até 50 mil habitantes

Fernanda Krakovics, Marco Grillo e Daniel Lima / O Globo

A condenação em segunda instância do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tornou possível o veto à sua participação na eleição presidencial, fará com que um a cada três eleitores tenha, provavelmente, que optar por outro candidato. É um grupo formado por cerca de 53 milhões de brasileiros, segundo a pesquisa mais recente do Datafolha, divulgada em dezembro de 2017. O cálculo do GLOBO levou em consideração o cenário em que o petista aparece com 36% das intenções de voto, disputando contra seus principais opositores, e a base de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que mostra um colégio eleitoral de 146 milhões de pessoas.

Ao longo dos pouco mais de 13 anos de PT no comando do Palácio do Planalto, o lulismo expandiu as fronteiras do eleitorado clássico do partido desde a fundação até a chegada ao poder, em 2002. Os outros candidatos precisarão conquistar a preferência de um segmento composto, majoritariamente, por moradores de municípios com até 50 mil habitantes. O maior apoio a Lula se dá na faixa que tem renda familiar de até dois salários mínimos e baixa escolaridade. Além disso, a popularidade de Lula no Nordeste é maior do que nas outras regiões.

O recorte das pesquisas de intenção de voto mostra também que as mulheres não brancas e com mais de 44 anos endossam mais a candidatura do petista. Na maior parte dos casos, segundo o Datafolha, são donas de casa e aposentadas que administram baixos orçamentos familiares. Menções ao desemprego como principal problema do país são muito mais frequentes do que no restante da população, assim como a percepção de que a situação econômica, tanto do Brasil quanto a pessoal, piorou nos últimos meses.

Lula deslocou o apoio majoritário ao PT dos grandes centros urbanos para o interior do país, e esse é o cenário no qual vai se travar uma fundamental disputa pelos votos que poderão eleger o próximo presidente do Brasil.

Com base na pesquisa mais recente, divulgada no início de dezembro, o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, afirma que o principal efeito da eventual saída de Lula da disputa é o aumento da crise de representação. Segundo ele, 29% dos eleitores do ex-presidente votariam em branco ou nulo nesse cenário.

— Tudo isso a confirmar, em próxima pesquisa, com o fato concreto da condenação. Essas tendências internas podem ter mudado — ressalta Mauro Paulino.

Ainda tendo como parâmetro o levantamento divulgado em dezembro, o diretor-geral do Datafolha afirma que a pré-candidata da Rede, Marina Silva, seria, depois dos votos brancos e nulos, a principal beneficiada se Lula for impedido de concorrer, herdando 25% de seus votos.

A ex-ministra de Lula apoiou o senador Aécio Neves (PSDB-MG) no segundo turno da eleição em 2014, o que poderia gerar rejeição do eleitorado mais ligado ao PT. No entanto, é ela quem representaria hoje, aos olhos dos eleitores, a candidatura fora da política tradicional.

— A Marina seria a que os eleitores identificam, entre os candidatos, como a mais antipolítica. De certa forma, o voto em Lula e em (Jair) Bolsonaro não deixa de ser um voto de protesto em relação aos políticos tradicionais. Não que eles não sejam políticos tradicionais, mas o principal fator de voto em Lula é o medo de perder mais direitos conquistados, que os eleitores do Lula relacionam à época em que ele estava na Presidência — avalia Paulino
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Para o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), a trajetória de Marina é a que mais se assemelha à de Lula e, por isso, ela herdaria mais votos:

— Ela vem do seringal Bagaço e venceu na vida com todas as dificuldades de quem nasce no interior da Amazônia. O próprio perfil da Marina ajudará nessa eventual transferência (dos votos que seriam de Lula).

“A GRANDE DÚVIDA”
Na corrida pelo espólio do ex-presidente, o précandidato do PDT, Ciro Gomes herdaria 14%, segundo o Datafolha de dezembro. Para Paulino, essa atração deve-se ao fato de Ciro ser nordestino — também já foi governador do Ceará — e pela identificação com Lula, de quem foi ministro. O presidente do PDT, Carlos Lupi, no entanto, está cauteloso.

— A grande dúvida que paira sobre todos nós é como vai ser o comportamento do eleitorado depois dessa condenação. Se isso vai fazer com que haja uma solidariedade dessa base com o Lula, pela injustiça cometida, ou se isso vai fazer com que essa base da sociedade, com medo de perder o voto, de o voto não valer, caminhe para outra direção — prevê Lupi.

Mesmo após a condenação em segunda instância, o PT insiste na candidatura de Lula, embora, nos bastidores, já articule um plano B. O ex-governador da Bahia Jaques Wagner e o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad são os mais cotados para a missão.

— Do ponto de vista jurídico, o PT vai recorrer até a morte e, do ponto de vista político, até pelas circunstâncias, a candidatura do Lula está posta de uma forma irreversível para nós neste momento — afirmou um integrante do PT após participar, na quinta-feira, de reunião ampliada da Executiva Nacional.

A confirmação, em segunda instância, da condenação de Lula ocorreu na última quarta-feira e é relativa ao caso do tríplex no Guarujá (SP), que teria sido reservado ao petista como propina da empreiteira OAS. Os desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) ainda aumentaram a pena, estabelecida pelo juiz Sergio Moro, de nove anos e meio para 12 anos e um mês. A defesa de Lula vai recorrer da decisão. A Lei da Ficha Limpa estabelece que condenados em órgãos colegiados ficam inelegíveis.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pode barrar eventual candidatura de Lula, mas a legislação permite que ele continue em campanha enquanto recorre da decisão.

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