quinta-feira, 9 de setembro de 2021

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

O País não vai se intimidar

O Estado de S. Paulo

O palavrório golpista e as ameaças de Jair Bolsonaro não passam de esperneio, diante da constatação de que encontram firme resistência institucional

O objetivo do presidente Jair Bolsonaro ao convocar as manifestações do 7 de Setembro foi tão somente intimidar os outros Poderes constituídos. Embora tenha jurado respeitar a Constituição quando tomou posse, o presidente avisou que não pretende cumprir ordens do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o que, na prática, significa afrontar o Supremo e a própria Constituição. E ainda desafiou, para delírio de seus adoradores: “Quero dizer aos canalhas que eu nunca serei preso”. Ressalte-se que Bolsonaro não disse que sua conduta não é criminosa. Ele apenas se recusa a se submeter a eventuais medidas judiciais restritivas de liberdade porque não reconhece, liminarmente, a legitimidade do juiz que eventualmente vier a condená-lo.

Felizmente, contudo, a julgar pelo que se vê desde que Bolsonaro assumiu a Presidência, o palavrório golpista e o espetáculo das ameaças aos outros Poderes não passam de esperneio, diante da constatação de que as bravatas bolsonaristas têm encontrado firme resistência institucional.

Em enérgico discurso como resposta ao repto de Bolsonaro, o presidente do Supremo, ministro Luiz Fux, disse que “o STF não tolerará ameaças à autoridade de suas decisões” e que, havendo desobediência por parte de um chefe de Poder, como é Bolsonaro, “além de representar atentado à democracia, configura crime de responsabilidade, a ser analisado pelo Congresso”. Para completar, dirigiu-se aos golpistas bolsonaristas que, incitados pelo presidente, atacam o Supremo: “Este Supremo jamais aceitará ameaças à sua independência nem intimidações ao exercício regular de suas funções”.

Tal disposição indica que, malgrado a tensão causada pelas inúmeras bravatas de Jair Bolsonaro desde que chegou ao Palácio do Planalto, a marcha golpista do presidente continuará a ser obstada pelas instituições que, exercendo sua independência constitucional, se empenham em preservar a normalidade democrática.

São muitos os casos em que o Legislativo e o Judiciário recordaram ao presidente da República seus limites constitucionais. Por exemplo, o Congresso não apenas rejeitou inúmeras medidas provisórias (MPs) editadas desde 2019, como a presidência do Senado, em junho de 2020, devolveu de pronto a MP 979/2020, sobre a nomeação de reitores, em razão de sua evidente inconstitucionalidade.

Merece menção especial o papel do Senado na contenção dos arroubos presidenciais. No mês passado, o presidente da Casa, Rodrigo Pacheco, rejeitou a denúncia de Bolsonaro contra o ministro Alexandre de Moraes, em razão de ausência de justa causa. Ontem, Rodrigo Pacheco mostrou especial prudência com a suspensão das sessões deliberativas desta semana.

No STF, destacam-se três decisões especialmente relevantes para o País. No ano passado, o Supremo rejeitou a tentativa de centralização do Palácio do Planalto e, em uma defesa histórica do princípio federativo, reconheceu a competência de Estados e municípios para editar medidas relativas à saúde pública no enfrentamento da pandemia de covid-19.

Em corajosa defesa do princípio da separação dos Poderes, o STF reconheceu o dever da presidência do Senado de instaurar a CPI da Covid, uma vez que estavam preenchidos os requisitos constitucionais. Os interesses do Palácio do Planalto não poderiam prevalecer sobre a vontade dos parlamentares e, principalmente, sobre a Constituição. Essa decisão do Supremo permitiu que a população conhecesse não apenas a extensão das omissões do Palácio do Planalto, mas também como se deram algumas negociações no Ministério da Saúde.

Destaca-se ainda, no âmbito do Supremo, a manutenção das investigações sobre atos e organizações contrários ao regime democrático. Apesar das várias ameaças bolsonaristas, os trabalhos para apurar eventuais condutas ilícitas estão avançando. Ao investigar, entre outros, o presidente Bolsonaro e seus filhos, o Supremo revela a qualidade, tão valorizada na Operação Lava Jato, de que o sistema de Justiça não deve fazer distinção de pessoas. Bolsonaro pode não gostar, mas todos devem se submeter à mesma lei.

A liderança da USP na AL

O Estado de S. Paulo

A universidade tem conseguido se destacar na comunidade acadêmica e científica mundial

A Universidade de São Paulo (USP) – que é a maior do País, com 5,5 mil professores e quase cem mil alunos – continua se destacando nos rankings internacionais de avaliação de desempenho. A exemplo do que ocorreu no ano passado, ela voltou a ser classificada neste ano pela Times Higher Education, uma respeitada empresa britânica de consultoria no campo da educação, como a melhor instituição de ensino superior da América Latina (AL). 

Dos 13 indicadores agrupados em 5 categorias (ensino, inovação, internacionalização, investimento em pesquisa e citações) na 18.ª edição do World University Rankings, a USP ficou entre as 100 melhores em duas – ensino e pesquisa. No conjunto, ela se manteve no grupo entre 201 e 250 melhores instituições, a mesma posição que alcançou em 2020. Com isso, a USP ficou ao lado da Universidade de Waterloo, do Canadá; da Universidade de Surrey, do Reino Unido; da Universidade de Tel-Aviv, de Israel; e da Universidade da Coreia, da Coreia do Sul. 

Ao todo, a Times Higher Education avaliou 1,6 mil universidades de 99 países. Das dez primeiras posições, nove são universidades americanas. As três instituições mais bem colocadas foram, pela ordem, a Universidade de Oxford, o Instituto de Tecnologia da Califórnia e a Universidade Harvard. Das universidades brasileiras, 59 foram classificadas. A segunda mais bem posicionada no World University Rankings foi a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que ficou no grupo entre 401-500.

Quando uma universidade obtém uma boa classificação num ranking comparativo de desempenho, ela ingressa num círculo virtuoso. Entre outras vantagens, isso abre a porta para que ela tenha acesso a fontes de financiamento para pesquisa em organismos multilaterais, participe de experiências compartilhadas com instituições de ponta, promova intercâmbios acadêmicos, associe-se a redes de publicações e atraia professores consagrados. 

Inversamente, quando uma instituição de ensino superior não consegue sair das últimas posições num ranking internacional, ela passa a enfrentar problemas para obter financiamento, não consegue fazer intercâmbio acadêmico, não tem acesso a parcerias no desenvolvimento de pesquisas científico-tecnológicas e não tem trabalhos de seus professores publicados em revistas internacionais com arbitragem. Em outras palavras, universidades sem reputação acadêmica internacional não conseguem captar os recursos necessários para inovar nem atuar nas fronteiras do conhecimento, o que faz com que suas publicações não sejam catalogadas pela Web of Science. 

É justamente porque tem se empenhado em manter sua reputação que a USP vem conseguindo ampliar cada vez mais suas atividades e se destacar na comunidade acadêmica e científica mundial. Além da posição de destaque no World University Rankings, nos últimos anos ela ficou na segunda posição da The Higher Education Latin America University, um ranking comparativo dedicado apenas às instituições de ensino superior da América Latina. 

Graças aos seus programas de inovação, aos seus projetos de internacionalização e ao aumento dos investimentos em pesquisa e em capital humano, o que tem levado os trabalhos acadêmicos de seu corpo docente a serem cada vez mais citados nas mais conceituadas publicações científicas mundiais, a USP também foi classificada, há cinco meses, em 13.º lugar no ranking das universidades das economias emergentes que avalia instituições de 48 países. Em 2021, ela subiu uma colocação em relação à edição do ano passado. E, no ranking da Quacquarelli Symonds, outra conceituada consultoria internacional, seus cursos de Geografia, Direito, Agricultura, Odontologia, Minas e Estruturas e Engenharia de Petróleo foram classificados entre os 50 melhores do mundo. 

A reiteração do sucesso da USP chega em boa hora. Mostra que a plena autonomia universitária, hoje questionada por autoridades do governo federal, é o fator que cria condições para que a academia possa servir aos melhores interesses do País. 

A desvirtuação das emendas parlamentares

O Estado de S. Paulo

O ‘limbo’ em que estão as emendas de vereadores não reeleitos deixa a comunidade desassistida

As emendas parlamentares, não é de hoje, têm sido constantemente desvirtuadas de seu propósito mais nobre, qual seja, dar um caráter de colaboração entre Poderes à construção do Orçamento público. Previstas na Constituição, as emendas parlamentares são legítimos instrumentos de participação do Poder Legislativo no aprimoramento da proposta orçamentária encaminhada anualmente pelo Poder Executivo, visando à alocação dos recursos públicos em projetos que melhor atendam às necessidades da população.

Em tese, nada há de ilegal ou nem mesmo fisiológico na apresentação de emendas por um parlamentar. Entretanto, na prática, não raro a liberação de emendas ao Orçamento tem sido convertida em moeda de troca para a construção de bases de apoio artificiais ao Poder Executivo ou para enriquecimento ilícito de seus proponentes ou apaniguados. Uma imoral combinação de autoritarismo e patrimonialismo.

Em que pese a natureza impositiva do pagamento das emendas parlamentares no âmbito da União, a anomalia pode ser observada nas três esferas de governo. Em nível federal, o mau uso das emendas parlamentares chegou ao paroxismo de ensejar a construção de um “orçamento secreto”, tal como revelou o Estado em maio deste ano.

Quem mais sofre com a desvirtuação das emendas parlamentares é quem delas mais deveria se beneficiar: a população. Alguns casos na cidade de São Paulo ilustram muito bem como as emendas parlamentares, quando mal ou não empregadas, podem servir a tudo, menos ao interesse público.

O Parque Cora Coralina, na Escola Municipal Desembargador Amorim Lima, na Vila Gomes, zona oeste da capital paulista, precisa de uma reforma para recuperar o solo erodido e tornar o espaço seguro para as crianças, funcionários e professores. Diante da interdição do parque, usado para várias atividades, um grupo de pais de alunos se organizou, preparou um projeto de recuperação durante dois anos e participou de um edital da Prefeitura de São Paulo, batizado Chamada Cívica, para concorrer a recursos indicados por emendas parlamentares. A recuperação do Parque Cora Coralina foi um dos projetos escolhidos entre dezenas de concorrentes, como revelou reportagem do Estado. O grupo de pais conquistou o direito de indicar o destino de uma emenda do então vereador José Police Neto (PSD).

Mas a alegria dos pais dos alunos ao ver seu projeto entre os escolhidos da Chamada Cívica durou pouco. Em 2020, dada a eclosão da pandemia de covid-19, Police Neto retirou as emendas do edital para que a alocação de recursos fosse dedicada ao combate da doença, o que era bastante sensato. Police Neto reapresentou suas emendas, entre as quais a que viabilizaria a recuperação do Parque Cora Coralina, à proposta orçamentária de 2021. O problema é que Police Neto não foi reeleito e as emendas propostas pelo ex-vereador caíram em uma espécie de “limbo”. Até hoje não foram liberadas.

“A comunidade se organizou e venceu um edital. Há, portanto, um compromisso do poder público com aquela organização, e não com o vereador (que apresentou a emenda)”, disse Police Neto ao Estado. Mesmo fora da Câmara Municipal, o ex-vereador informou que tem mantido contato com a Casa Civil da Prefeitura de São Paulo para tentar liberar os recursos.

A Associação Nacional de Prevenção ao Uso e Abuso de Drogas é outra organização da sociedade civil que sofre com o “limbo” das emendas propostas por vereadores que não se reelegeram. A associação contava com R$ 500 mil de uma emenda proposta pelo ex-vereador Masataka Ota (PSB), que não se reelegeu e morreu em fevereiro deste ano.

O “limbo” é uma excrescência jurídica e moral. O Orçamento, ao fim e ao cabo, é uma lei. O vereador que apresentou emendas por fim aprovadas tinha legitimidade para tanto ao tempo da indicação. É dever do Poder Executivo honrar o pagamento. Não é porque um parlamentar perdeu o mandato e, em tese, seu “valor” para o Executivo que suas emendas não devem ser alocadas nos projetos a que se destinam. Os problemas que afligem a comunidade não têm prazo de validade, como um mandato. 

'É crime'

Folha de S. Paulo

Fux diz o óbvio necessário sobre pregação de Bolsonaro; Lira e Aras dissimulam

Coube ao presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Fux, a reação mais enérgica à exibição desabrida de golpismo com a qual Jair Bolsonaro conspurcou o Dia da Independência.

Sem floreios ou meias palavras, o magistrado disse o óbvio necessário —que o descumprimento de decisões judiciais, pregado pelo presidente da República a uma turba fanatizada, “configura crime de responsabilidade a ser analisado pelo Congresso Nacional” se levado a cabo pelo chefe de um Poder.

“A crítica institucional não se confunde —nem se adequa— com narrativas de descredibilização do STF e de seus membros, tal como vêm sendo gravemente difundidas pelo chefe da nação”, apontou Fux.

Com a altivez do presidente da corte contrastaram os pronunciamentos dissimulados do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), e do procurador-geral da República, Augusto Aras, que parecem ter se sentido obrigados a dizer algo diante da infâmia de Bolsonaro, mas nem mesmo tiveram a coragem de nominá-lo.

Mais do que repetir platitudes a respeito da importância do respeito à Constituição, Lira e Aras precisam demonstrar a disposição de agir como exigem seus cargos.

Ao primeiro cabe a responsabilidade de deliberar sobre mais de uma centena de pedidos de impeachment que dormem em sua gaveta. Se os considera sem fundamento, que os rejeite, e a decisão possa ser submetida ao plenário. Inaceitável é que o Legislativo não trate do tema enquanto o presidente da República afronta as instituições.

Já do procurador-geral depende a iniciativa de investigar o chefe de Estado por infrações penais comuns, o que pode incluir desde a negligência no combate à pandemia até a difusão de mentiras para desacreditar as urnas eletrônicas.

Recorde-se que o Tribunal Superior Eleitoral abriu inquérito administrativo sobre uma transmissão pela internet em que Bolsonaro, sem apresentar uma mísera evidência, acusou a instituição de fechar os olhos para alegadas fraudes em pleitos passados.

A apuração pode ser ampliada para alcançar novas suspeitas, como a de que o presidente, ao participar de atos como os do 7 de Setembro, faz campanha eleitoral antecipada ou abusa de seu poder político e econômico. São ilegalidades que, em tese ao menos, podem tornar o mandatário inelegível.

Uma investigação desse tipo teria mais peso com o aval do procurador-geral, mas na Justiça Eleitoral —onde tramita também processo que pode levar à cassação da chapa Bolsonaro-Hamilton Mourão— isso não é indispensável.

Fato é que as instituições se encontram na obrigação de reagir, nos limites e rigores da lei, à escalada de abusos, ameaças e transgressões. O mandatário desmoraliza a cada dia os que com ele procuram contemporizar.

Casuísmo digital

Folha de S. Paulo

MP para restringir remoção de conteúdos nas redes busca insuflar bolsonaristas

As primeiras manifestações de repúdio do mundo político à medida provisória que impede as plataformas da internet de remover conteúdo nocivo das redes sociais sugerem que ela terá vida breve, como tantas outras iniciativas atrabiliárias de Jair Bolsonaro.

Três legendas já protocolaram ações no Supremo Tribunal Federal para que a peça seja declarada inconstitucional. Líderes partidários cogitam devolvê-la ao Executivo, por falta de urgência que a justifique. Espera-se que o façam.

Assinada pelo presidente na véspera das manifestações golpistas do 7 de Setembro, a medida teve a clara intenção de insuflar seus apoiadores mais radicais e não disfarça sua concepção autoritária.

O texto impede plataformas como o Facebook e o Twitter de seguir suas políticas de moderação e as obriga a obedecer as novas regras estabelecidas pelo governo, que só autorizam a remoção de conteúdos classificados como impróprios pela medida provisória.

A lista arbitrária de proibições inclui nudez, apologia a drogas ilícitas e incitação ao crime, por exemplo, mas não impõe restrições à disseminação de notícias falsas e outros comportamentos que as empresas têm desejado coibir.

As novas regras se aplicam a plataformas com mais de 10 milhões de usuários, mas poupam aplicativos emergentes que têm sido cada vez mais usados por militantes para contornar as barreiras encontradas nas redes maiores.

O governo apresentou a MP como um instrumento para defender a liberdade de expressão do poder arbitrário das empresas que administram as plataformas, mas Bolsonaro age em causa própria.

O texto limita as circunstâncias em que as empresas podem suspender contas dos que desrespeitam suas políticas, possibilidade que assombra bolsonaristas.

Alinhavada a portas fechadas, a MP trai o espírito que levou à construção do Marco Civil da Internet, aprovado após amplo debate público há sete anos, e passa por cima do projeto que busca coibir a desinformação nas redes, em tramitação no Congresso.

Não há dúvida sobre a relevância de discutir a conduta nas redes sociais, mas é certo que o ambiente adequado para tal não são gabinetes daqueles que usam a internet para fomentar o ódio e a mentira.

Escalada de Bolsonaro muda pouco reação das instituições

Valor Econômico

STF ganha adesão do Senado contra as investidas antidemocráticas do presidente

As grandes manifestações bolsonaristas no dia 7 de setembro foram o ensaio geral dos planos do presidente Jair Bolsonaro para manter-se no poder, por vias legais ou não. As multidões, convocadas pelo presidente, lhe deram o cenário desejado para que prossiga no ataque às instituições: ações diretas junto ao “povo”, - representado por fanáticos apoiadores - com caráter “plebiscitário”. Para Bolsonaro, basta-lhe um “eu autorizo” da minoria que o segue para avalizar seus propósitos antidemocráticos.

As manifestações do Dia da Independência não foram apenas mais uma delas. Pelas bandeiras e palavras de ordem não houve defesa da democracia, apesar do slogan da “liberdade de expressão”, o que para o presidente da República significa simplesmente fazer o que lhe der na telha, sem restrições legais ou institucionais. Bolsonaro reuniu dezenas de milhares de pessoas para dizer que “canalhas” (do STF) jamais o prenderiam, ameaçar o STF, que deveria conter o ministro Alexandre de Moraes ou “sofrer aquilo que não queremos”. Depois, ao encarar Moraes como indivíduo e não representante da Suprema Corte, disse que “não mais cumprirá” qualquer decisão dele.

Uma coisa é Bolsonaro resmungar em suas lives semanais mambembes contra o Supremo, outra é convocar multidões para riscar do mapa o Judiciário. Houve uma diferença de qualidade no ataque às instituições em relação aos anteriores. Luiz Fux, presidente do STF, mostrou a linha que Bolsonaro cruzou: é crime de responsabilidade descumprir decisões judiciais. A própria incitação e a ofensa a ministro da Corte “são práticas antidemocráticas e ilícitas”, afirmou.

A presença em peso de apoiadores do presidente não foi só um expediente para que um mandatário fraco se sinta fortalecido. A constante agitação civil contra a democracia feita por Bolsonaro, que mais provoca e incita do que governa, é um componente importante, mas não tão vital, da sua tentativa de permanecer no poder. O presidente conta que terá as Forças Armadas ao seu lado, assim como as polícias, de cujas comemorações e formaturas participa com regularidade incomum para um presidente desde que foi eleito. Bolsonaro não é um organizador das massas, sequer tem partido e não vê um como necessário. A força decisiva que busca, ao que parece, não está exatamente, ou apenas, nas ruas.

Após a mudança de grau na escalada de Bolsonaro, a reação das instituições mostrou um quadro de forças que moldarão os embates futuros provocados pelo presidente, que certamente virão. A resistência aos arreganhos autoritários do presidente cresceu, os mercados desabaram no dia seguinte, se disseminou mais a crença de que as reformas estão encerradas, mas o mapa do poder das instituições dispostas a conter Bolsonaro parece ter mudado pouco.

O STF, alvo do ataque mais concentrado do governo até agora, manteve-se firme e disse que a atitude de Bolsonaro pode conduzir a um crime de responsabilidade, logo a um impeachment ou ação penal, a serem analisados pelo Congresso ou pelo Procurador Geral da República. O presidente da República conta, por enquanto, com demasiada confiança, de que nada virá destes dois flancos.

O discurso do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) foi diversionista: todos os Poderes devem respeitar a Constituição - sem nomear que o Executivo não o está -, deve haver harmonia entre eles - quando a cizânia parte de um só - e elogiou os brasileiros que “foram à rua de modo pacífico” - pregar o fechamento do Supremo e intervenção militar. O Centrão, e o PP de Lira, que detém a Casa Civil e o destino de emendas bilionárias no Congresso, deu sinais claros de que não desembarcará do governo já e os pedidos de impeachment de Bolsonaro seguirão na gaveta.

A manifestação do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) foi mais contundente. Determinou, em protesto, que por uma semana todas as reuniões deliberativas e de comissões sejam suspensas. A reforma do IR e outras pautas de interesse do governo estão lá. É no Senado que o apoio ao governo é escasso, ao contrário da Câmara.

Augusto Aras, o procurador geral, disse que discordâncias devem respeitar o “devido processo legal” e elogiou a “festa cívica”. As manifestações foram “expressão de uma sociedade plural e aberta, característica de um regime democrático”. Em suma, nada aconteceu que preocupasse o procurador, que tem entre seus deveres fazer respeitar a Constituição.

Reação de Fux valoriza ordem institucional

O Globo

Em resposta à bravata de Bolsonaro de que descumprirá ordens do STF, Fux reiterou que o tribunal “não tolerará ameaças à autoridade de suas decisões”

Depois das ameaças golpistas e dos ataques antidemocráticos no 7 de Setembro, era esperada a reação do Supremo Tribunal Federal (STF), alvo da incitação do presidente Jair Bolsonaro. O presidente da Corte, ministro Luiz Fux, deu ontem uma resposta ao mesmo tempo dura e serena, incisiva e responsável, enérgica e reparadora. Lá onde Bolsonaro tentou semear o caos e a cizânia entre as instituições, Fux trouxe a voz da razão e deu uma aula de democracia.

Reconheceu o caráter pacífico das manifestações, em que os “participantes exerceram liberdades de reunião e expressão, direitos protegidos pelo Supremo”. Louvou o papel das polícias e forças de segurança, que souberam atuar para preservar a ordem e a paz, desmentindo o temor de que seus integrantes se convertessem em milícias bolsonaristas. “Percebemos que policiais e demais agentes atuaram conscientes de que a democracia não é importante apenas para si, mas também para seus filhos”, afirmou.

Fux traçou com clareza meridiana a distinção entre, de um lado, a “convivência de visões diferentes”, a “crítica institucional” e o “respeito aos Poderes constituídos” — inerentes a toda democracia — e, de outro, os “falsos profetas do patriotismo”, a “tentação das narrativas fáceis e messiânicas” e o “discurso do ‘nós contra eles’” de quem “não propaga a democracia, mas a política do caos”.

Nesse contexto, citou explicitamente os ataques de Bolsonaro e reagiu com veemência a seu discurso golpista. “Ofender a honra dos ministros, incitar a população a propagar discursos de ódio contra a instituição do STF e incentivar o descumprimento de decisões judiciais são práticas antidemocráticas e ilícitas, intoleráveis”, disse.

Em resposta à bravata de Bolsonaro de que descumprirá ordens do Supremo, Fux reiterou que o tribunal “não tolerará ameaças à autoridade de suas decisões”. Num momento de óbvio conteúdo político, relembrou o sentido constitucional de um presidente ameaçar desobedecer a ordens judiciais: “Essa atitude, além de representar um atentado à democracia, configura crime de responsabilidade, a ser analisado pelo Congresso Nacional”.

Foi uma indireta ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), em cuja mesa repousam algo como 130 pedidos de impeachment de Bolsonaro. Depois de ficar em silêncio no Dia da Independência, Lira também se viu compelido a fazer um pronunciamento, mas em tom mais apaziguador. Tentou colocar o Legislativo no papel de “ponte” para pacificar Executivo e Judiciário. Condenou as “bravatas em redes sociais” e o “eterno palanque”, sem nem citar Bolsonaro. Deu a entender que continua pequena a chance de acatar algum dos pedidos de impeachment (até porque Bolsonaro disporia de votos suficientes para barrá-lo). “O único compromisso inadiável e inquestionável está marcado para 3 de outubro de 2022, com as urnas eletrônicas”, afirmou Lira.

Mas como agir se o candidato que está no poder ameaça não aceitar o resultado, com base em mentiras sobre essas mesmas urnas? Para casos assim, a própria democracia dispõe de recursos institucionais — o impeachment é um deles, embora talvez o mais traumático. Seria desejável que, como quer Lira, tudo pudesse ser resolvido nas eleições e não fosse necessário usá-los. Bolsonaro, porém, continua a apostar noutro caminho.

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