segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Demétrio Magnoli - Uma China oculta

O Globo

Huawei ou Evergrande, qual delas simboliza melhor o “modelo chinês”? A primeira, maior fabricante mundial de equipamentos de telecomunicações, tornou-se uma marca global e um ícone da irresistível ascensão chinesa. A segunda, um conglomerado imobiliário, era um nome desconhecido fora da China até surgir a notícia de sua iminente falência sob o peso de dívidas de US$ 300 bilhões. Ela ilumina uma China oculta — e, ainda, os limites de seu modelo econômico.

Na última década, o mercado imobiliário expandiu-se para se tornar a fonte de mais de um quarto do crescimento econômico chinês. Hoje, quase três quartos do patrimônio das famílias concentra-se em propriedade imobiliária. Antony Blinken, o secretário de Estado dos EUA, pediu ao governo chinês para “agir responsavelmente” diante da ruína da Evergrande. Chefes de bancos centrais ao redor do mundo murmuram as palavras “momento Lehman”, traçando um paralelo sombrio com a falência de 2008 que deflagrou a maior crise financeira mundial desde o Crash de 1929.

A Evergrande dificilmente será um segundo Lehman Brothers, mas seu destino conta uma história mais ampla. A economia chinesa assenta-se, em larga medida, na velha indústria da construção civil: edifícios residenciais ou empresariais, fábricas, usinas, rodovias, pontes, viadutos, hidrelétricas. O frenesi do setor, que não deixa intactos nem os povoados longínquos, alimenta-se de financiamento e esculpe um castelo de dívidas. Atrás dele, encontra-se um sistema bancário cujo núcleo é constituído por quatro gigantescas instituições estatais.

Sob Xi Jinping, o capitalismo de Estado chinês evoluiu para uma combinação em que o segundo termo predomina cada vez mais, em detrimento do primeiro. Na antiga URSS, os desequilíbrios econômicos manifestavam-se pela carência de bens de consumo; na China, pelo excesso de dívida. O endividamento total da economia chinesa saltou de 140% do PIB em 2008 para quase três PIBs no final de 2020. O valor é similar ao das dívidas dos EUA e da Zona do Euro, mas concentra-se numa base estreita de instituições financeiras. A China tem pés de areia.

O superinvestimento é o traço comum entre o atual capitalismo de Estado chinês e a antiga economia estatal soviética. Para além do setor da construção civil, incontáveis empresas chinesas investem em bens que carecem de demanda. Na potência asiática, cerca de 300 mil firmas desenvolvem veículos movidos a energias alternativas. A extravagância financiada por bancos estatais responde a estímulos políticos, não a sinalizações de mercado. O “milagre chinês” tem um limite — e seu esgotamento não parece distante.

Nas últimas semanas, a agonia da Evergrande somou-se à crise energética que provocou paralisações em série em linhas de produção e interrupções em cadeias globais de suprimentos. A causa imediata são inundações em províncias carboníferas do norte do país que impuseram o fechamento temporário de minas. Contudo, atrás da crise circunstancial, está a persistente dependência do carvão mineral, cuja produção cresce em ritmo muito mais lento que a demanda. O país conviverá com uma elevação estrutural dos preços da energia, com implicações diretas sobre os custos de produção industrial. A China barata, fornecedora global de bens manufaturados a preços irrisórios, vai se apagando no passado.

Muitas vezes, desde o Massacre da Praça da Paz Celestial de 1989, vaticinou-se o encerramento do longo ciclo da expansão chinesa. Diante do fracasso da profecia, os EUA concluíram que o ciclo prosseguirá indefinidamente e formularam um consenso bipartidário expresso na noção da Guerra Fria 2.0. Obama definiu a China como parceiro e rival. Trump fez os pratos da balança penderem para a rivalidade — e Biden segue a mesma linha de contenção da potência asiática.

A estratégia de contenção sustenta-se no pressuposto de que o crescente poderio econômico chinês impulsionará suas ousadas ambições geopolíticas. Hoje, porém, há razões para duvidar da solidez dos alicerces da economia chinesa — e da lógica de longo prazo da política externa dos EUA.

 

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