terça-feira, 12 de abril de 2022

Míriam Leitão: Cenário mutante na economia

O Globo

A declaração do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, de que se surpreendeu com a inflação levou vários economistas de volta às suas projeções, desta vez de taxa de juros. Se ele foi surpreendido, pode elevar ainda mais a Selic. O raciocínio é esse. Mas alguns bancos já estavam prevendo que seria mesmo mais forte o aperto monetário. Ontem, entrevistei Mário Mesquita, economista-chefe do Itaú-Unibanco, e ele já estava prevendo 13,75% de taxa de juros, ou seja, mais dois pontos percentuais de alta pela frente.

E por que tão alta? A inflação tem sido sempre pior do que as projeções. Mesquita mesmo disse que eles estão constantemente revendo o pico da inflação. Era novembro, foi para dezembro, e agora será abril, quando a taxa chegar a 12%. E depois? Durante todo o primeiro semestre o índice ficará em dois dígitos.

— Ela fica alta até julho e só em agosto pode ter um número caindo um pouco de dois dígitos, talvez 9,7%. Há uma descompressão do preço de energia elétrica já contratada (pelo fim da bandeira de escassez hídrica agora) e a gente espera uma redução da inflação de preços industriais. Não haverá grande alívio no preço de serviços. Isso continuará alto. Mas o surto de inflação começou pelos produtos comercializáveis, a desinflação também virá por aí — disse Mário Mesquita, em entrevista que fiz com ele na Globonews.

O economista explica que a inflação alta durante muito tempo acaba afetando as expectativas das empresas e das famílias e para evitar que esses preços acabem sendo repassados é preciso elevar ainda mais a taxa de juros.

Apesar disso, a previsão recente do banco para o PIB melhorou. Vários outros bancos e consultorias têm elevado a projeção do PIB. O Itaú achava que haveria em 2022 uma recessão de 0,5%, depois ajustou para um ligeiro positivo: 0,2%. E agora acabou de subir de novo, para 1%.

— O PIB cresceu mais no fim do ano passado do que projetávamos, houve uma redução da poupança das famílias que nos surpreendeu, e isso significa que elas consumiram mais, houve liberação do FGTS, os preços das commodities subiram, e tem uma regra de bolso que diz que em cada 10% de alta nos preços das commodities o PIB do Brasil sobe 0,4% — diz Mesquita.

Ele conta que no segundo semestre não haverá todos esses eventos. As famílias não continuarão em despoupança, o trabalhador não fará novos saques no FGTS e os efeitos da política monetária serão sentidos. Por isso ele prevê uma queda do PIB no segundo semestre. A inflação poderá estar descendo, mas ainda para um nível alto, com o PIB contraindo. Essa será a conjuntura na qual haverá a eleição.

O que mais preocupa o mercado financeiro é o fim do teto de gastos e a falta de clareza do que virá depois. A avaliação dele é a seguinte:

— Houve uma melhora fiscal no último ano, e o setor público teve superavit, mas nem por isso o mercado ficou tranquilo, porque ainda não sabe qual é o arcabouço fiscal. O teto é uma resposta. Se o novo governo não quiser essa, terá que escolher outra e perseverar. O teto de gastos sofreu mudanças e parte importante da classe política de todo o espectro ideológico manifesta desconforto em relação a ele. Se apresentarem outra âncora, outra lógica, tudo bem, mas será preciso buscar o mesmo objetivo de redução da dívida pública. A dívida não precisa cair de imediato, mas é preciso ficar claro que o governo tem instrumentos para isso.

Tudo vai depender de como os candidatos vão apresentar seus planos econômicos para essa questão específica, as contas públicas. E até o presidente Bolsonaro terá que se explicar, porque a atual administração é que mudou o teto. A melhora do resultado fiscal se deve em grande parte à inflação, e o superávit primário foi feito pelos estados e municípios.

A queda do dólar, segundo Mesquita, é provocada por capital financeiro buscando retorno de curto prazo e não multinacionais querendo abrir fábrica no Brasil. Esse capital vem por causa dos juros altos. Outros países com juros altos pioraram muito, como Rússia, Turquia e Argentina. Ele ficará também dependendo do horizonte da economia:

— A grande questão é fiscal. Daqui até o final do ano precisamos ter clareza do arcabouço fiscal. O país tem um encontro marcado com essa questão.

Os economistas já mudaram o cenário do ano várias vezes e, pelo visto, vão continuar mudando.

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