sexta-feira, 19 de maio de 2023

Vinicius Torres Freire - CPIs e guerrilhas no Congresso

Folha de S. Paulo

Inquéritos e movimentos para derrubar iniciativas de Lula mostram desordem política do governo

Congresso está livre, pesado e solto. Ainda é má notícia para o governo. Note-se a quantidade de CPIs que vão sendo aprovadas, algumas delas capazes de produzir espuma tóxica. Há também planos para derrubar iniciativas de Luiz Inácio Lula da Silva tais como os decretos anti-armas ou demarcações de terras indígenas.

Por enquanto, são escaramuças e focos de guerrilhas políticas. Mas indicam a grande dificuldade do governo de fazer um acordo suficiente para pacificar em particular a Câmara, o que quer dizer Arthur Lira (PP-AL), seu presidente, e lideranças agregadas.

O acordo é intragável e pode ser venenoso. Basicamente, significa entregar a Lira e seu comando colegiado uma variante do controle sobre o fluxo de emendas parlamentares.

A vida de Lula não seria fácil de qualquer maneira, pois este é um Congresso especialmente direitista, por motivos variados, em um país que escolhe em massa prefeitos e parlamentares de direita e onde quase metade votou em Jair Bolsonaro. O clima é tal que até Lira se diz liberal desde criancinha e se faz de fiador das "reformas", sob aplauso de donos do dinheiro.

CPI do MST pode causar queimaduras, embora até aqui não passe de um recado do agro para Lula e uma tentativa de lançamento da campanha de Ricardo Salles (PL-SP), vulgo Boiada, à prefeitura de São Paulo.

A CPI dos Atos Golpistas anda meio zumbi, mas deve começar na semana que vem. Pode morrer de inapetência, do governo e da oposição de extrema direita, que corre o risco de ver seus tiros saírem pela culatra. Isto é, em mais complicações para as lideranças políticas, digitais e empresariais do bolsonarismo. Mas também pode render mentiras lunáticas para alimentar redes sociais, que aceitam qualquer coisa, e animar a militância demente.

Vai haver uma por enquanto desanimada CPI das ONGs, investigações desde 2002. Na lista há também uma CPI das Americanas, que seria muito divertida se fosse séria, e a da das apostas esportivas.

Na rotina do Congresso, essas investigações costumam cair no oblívio, no esquecimento entediado. Ainda assim, por serem tantas são sinal de desordem do Planalto e de que o comando parlamentar dá corda para quem quer fazer barulho. Apesar do sucesso da tramitação do dito arcabouço fiscal, Lula 3 não consegue propor uma pauta dominante, que jogue para o lado diversionismos malandros ou bloqueie iniciativas de risco.

O movimento em geral é o da direita que quer dar uma demonstração de força para Lula, como o do agro e de líderes políticos evangélicos. O governo não consegue dialogar nem com os liberais "frente ampla" que o apoiaram no segundo turno em 2022, que estão em desapontamento amargo. Muito menos ainda inventou um jeito de conversar com o agro e evangélicos, osso duríssimo.

Política no Congresso não é, óbvio, reflexo de movimentos sociais. Mas articulações ou armistícios sociais importam —por falar nisso, note-se que até o Conselhão, de volta, foi mais ignorado do que de costume. Claro que há limites para a conversa, até porque muita gente dessa direita quer apenas ver Lula pelas costas, para usar termos amenos. Parte dela queria golpe. Não está nada fácil, reconheça-se.

Os anos de 2003 e 2004, o primeiro biênio de Lula 1, também foram tensos e confusos, por outros motivos. Com a bagagem puída de mais de 13 anos de poder, uma direita enorme, política digital, uma década de tumulto institucional e de depressão econômica, além de um Estado exaurido, a tarefa agora é bem mais complicada. Pode ficar um tanto menos se houver um programa político e reformista atraente e acordos para mudar o ambiente. Ainda não há e o "milagre do crescimento" não virá tão cedo, se vier.

 

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