sábado, 5 de agosto de 2023

Eduardo Affonso - A cadeira 41 da ABL

O Globo

Os Buarques de Holanda bem poderiam ter ocupado quatro posições na Academia, em vez de apenas uma

A Academia Brasileira de Letras é uma instituição que, segundo Millôr Fernandes, se compõe de 39 membros e um morto rotativo. Paradoxalmente, é esse defunto que a mantém viva, garantindo-lhe periódicas transfusões de sangue novo.

Reza a lenda que, para aspirar à imortalidade, é preciso mais que ter apreço à literatura, cultivar a língua e escrever um livro: tem de dar festa, beijar mão, cabalar voto — talentos de que nem todo postulante é dotado. Por isso muita gente boa acaba tomando não o chá das quintas-feiras, mas o de cadeira — ou de sumiço.

Para reparar injustiças culturais — ou, pelo menos, meditar sobre elas —, a ABL programa periodicamente o ciclo de palestras “Cadeira 41”, em referência à cátedra virtual reservada aos que nem tentaram ou morreram na praia.

A 41ª cadeira é como o quarto poder, exercido pela imprensa, ou o 12º jogador, também conhecido como torcida. Sem autoridade formal, mas uma espécie de soft power, entidade não fungível, patrimônio imaterial.

Sob a égide de Júlia Lopes de Almeida — barrada na casa que ajudou a fundar —, já estão lá devidamente assentados muitos imortais póstumos: Cruz e Souza, Jorge de Lima, Rubem Fonseca, Rubem Braga, Antenor Nascentes, Nélson Rodrigues, Lúcio Cardoso, Carlos Drummond, Osman Lins. Um time de responsa, cujos artilheiros são Monteiro Lobato (duas vezes na trave) e Lima Barreto (três tentativas e um triste fim).

Os Buarques de Holanda bem poderiam ter ocupado quatro posições, em vez de apenas uma (a do Aurélio, pai de todos nós). Sérgio não quis, Chico não quer, Heloísa abriu mão do sobrenome. Outra dinastia, a dos Verissimos — Érico e Luis Fernando —, corre o risco de ficar no banco.

A Academia que elegeu o Gilberto Gil de “Drão”, “Metáfora” e “Rebento” deixou escapar Aldir Blanc (Teus olhos barcos/gritam adeus/no mar dos meus). Mas ainda tem a chance de imortalizar Paulo César Pinheiro (Portela,/sobre a tua bandeira, esse divino manto/tua águia altaneira é o Espírito Santo no templo do samba, O importante é que a nossa emoção sobreviva/e a felicidade amordace essa dor secular).

Não teve Cecília nem Clarice, dois nomes fundamentais. A voz insubmissa do “Romanceiro da Inconfidência” tinha o grave defeito de pertencer ao gênero feminino, numa época em que isso pesava mais que o domínio de qualquer gênero literário. E o gênio de Clarice não se moldava à atmosfera do lugar — muito menos o de Hilda Hilst. Mas ainda é tempo que Adélia Prado lá desembarque com sua “Bagagem” (Não me importa a palavra, esta corriqueira./ Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe/os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”/o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível/muleta que me apoia./ Quem entender a linguagem entende Deus).

Ao lado do Petit Trianon, um Énorme Trianon vai tomando forma, com a Academia que poderia ter sido (Nava, Sabino, Graciliano, Manoel de Barros, Leminski, Millôr) e não foi — e a que ainda pode ser (Raduan Nassar, Cristóvão Tezza, Dalton Trevisan), mas dificilmente será.

Se os 39 imortais não abrirem o olho (o morto rotativo sabe disso de olhos fechados), periga a cadeira 41 se tornar a mais prestigiosa — e cobiçada — peça da mobília.

 

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