sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Fernando Gabeira - A dança dos números depois de Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Quanto mais soubermos sobre o Brasil, quanto maior for a qualidade de nossos dados, mais chance teremos de crescer

A indicação do economista Marcio Pochmann para o IBGE trouxe uma pequena polêmica. Aproveito-me dela para tratar de um tema maior: a importância da estatística.

O campo passou por um momento tenebroso. Jair Bolsonaro não quis financiar o Censo. Foi obrigado a isso e acho que a resistência a essa loucura foi pequena, revelando que o Brasil ainda não valoriza a coleta e análise científica dos dados. Apenas alguns ex-presidentes do IBGE e um grupo pequeno de jornalistas tentaram pressionar o governo para retirá-lo do que consideravam suas duas trincheiras: a ignorância sobre o valor do trabalho estatístico e a vontade de evitar que o Brasil contemplasse o próprio retrato.

O problema ocorreu num período de pandemia, em que Bolsonaro se dedicou a uma dupla negação: a da existência do vírus e a dos dados sobre seu impacto. Foi necessária uma associação de órgãos de imprensa e autoridades estaduais para que pudéssemos acompanhar ao menos o número de contaminações e o de mortes. No entanto, o trabalho com os números poderia ter sido um instrumento muito mais poderoso na luta geral contra a pandemia.

Interessante registrar que, assim como nosso sistema de vacinação é um dos mais respeitados no mundo, o de coleta e análise de dados feito pelo IBGE também é internacionalmente elogiado, rivalizando com o sistema francês, uma espécie de pioneiro no ramo. Os entendidos afirmam que o IBGE trabalha com frequência, emprega métodos rigorosos e mantém estreita colaboração com as universidades.

Bolsonaro, inicialmente, negou-se a financiar o Censo e, uma vez obrigado a fazê-lo, foi acusado de tentar suprimir dados sobre uma de suas obsessões: gays e o povo LGBT. Creio que esse período está superado.

É um lugar-comum afirmar que os dados do Censo orientam as políticas públicas. Na verdade, eles revelam muito mais: as grandes oportunidades perdidas. Ricardo Henriques, analisando o momento do País com base no Censo, observa algo importante: passou o período do bônus demográfico. Classificamos esse período como aquele em que é maior o número das pessoas que trabalham, em relação ao de crianças e idosos. Como poderíamos tê-lo aproveitado melhor? Certamente, um dos caminhos é a educação, em que os avanços foram menores que o necessário, sobretudo para a juventude negra.

O atual governo não compartilha do mesmo preconceito de Bolsonaro em relação à estatística. Ao contrário, tudo indica que deva fortalecer o setor, da mesma maneira como se empenha no campo da vacinação, apesar de ter tropeçado no caso da dengue, recusando-se a importar vacinas japonesas.

Os perigos de uma deformação ideológica dos números são muito grandes. Eles repercutem na credibilidade do governo, sobretudo na sua política econômica. Isso aconteceu na Argentina entre 2007 e 2015, ao menos até a demissão de Guilhermo Moreno, o homem que comandou a maquiagem dos números de crescimento e inflação.

Há muitas razões para acreditar que isso não acontecerá no Brasil, e a qualidade técnica do IBGE é uma garantia. O próprio Marcio Pochmann já escreveu artigos não só denunciando equívocos estatísticos, mas também revelando conhecimento do tema.

Outro argumento importante: o governo tem se empenhado no Congresso em projetos que garantam a credibilidade de sua política econômica, fator necessário ao crescimento.

A luta pelos números no governo Bolsonaro foi uma luta primária, destinada a evitar a morte de um trabalho técnico científico sem o qual ficaremos no escuro. A etapa, agora, é de garantir a frequência, fortalecer o rigor, impulsionar o crescimento.

Como o exemplo do bônus demográfico, os números nos revelam as grandes oportunidades. Se as perdemos, não podemos culpá-los, e sim voltarmos a eles em busca de novas revelações não só para possíveis saltos, como também para modestos progressos no que somos muito atrasados, caso do saneamento básico.

O que pode ocorrer em muitos governos é uma certa timidez não tanto em colher números, mas ao acompanhar com eles o resultado de suas políticas. Aí, a tendência ao otimismo é grande e, para dizer a verdade, a tendência à omissão é maior ainda. Programas surgem, fazse o estardalhaço, mas é raro usar os números para corrigilos em rota. O mais frequente é contentar-se com o resultado político e ignorar o resultado real.

A conclusão é esta: quanto mais soubermos sobre o Brasil, quanto maior for a qualidade de nossos dados, mais chance teremos de crescer. Os números percorrem uma longa e tortuosa realidade para operarem o milagre que esperamos: Orçamento, Congresso, emendas, planos de obras, eventuais superfaturamentos, feudos políticos. Enfim, nunca se pode ser também demasiadamente otimista. Aliás, nem a própria estatística escapa do ceticismo, a julgar pelo número de piadas que inspira. É comum afirmar que torturando os números eles entregam o que você quer. Algumas são frases clássicas de Millôr Fernandes: nunca diga uma mentira que não possa provar; ou, mesmo, o perigo da meia verdade é contar sempre a parte que é mentira.

Também é do grande humorista: as estatísticas provam: as estatísticas não provam nada. Mas a verdade é que ajudam muito.

 

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