segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Miguel de Almeida - A censura da USP

O Globo

Um vestibular apenas com títulos de autoras desafina o coro

Como Nélida Piñon, entre vários outros geniais autores e ensaístas, companheiros de viagem, não acredito que haja uma literatura feminina. Existem bons e maus livros. Quase sempre resistente a modismos, seja de direita ou de esquerda, até então, a Universidade de São Paulo sucumbiu à maionese. Em 2026, o cardápio de questões oferecidas aos vestibulandos terá como base apenas ficções escritas por mulheres. Me segura que vou ter um troço.

Não é que nas provas anteriores só se contemplassem livros de macho alfa. Do tipo que cospe no chão e palita os dentes. E ali se identificasse uma candente misoginia literária, deslavado preconceito. Pelo contrário. Havia um cenário baseado em qualidade, em contundência criativa. Na lista obrigatória de leitura, há muitos vestibulares, ombreiam Machado de Assis e Cecília Meireles; Milton Hatoum e Clarice Lispector — e por aí vai. Vale dizer ainda que Mário de Andrade, Cruz e Sousa e mesmo Machado não eram matéria de prova por ser pretos (ou pardos); constavam ali pela excelência de suas obras. Tal lupa só apequena.

Estivessem vivas, Nélida, Lygia Fagundes Telles ou Hilda Hilst, porque assim pensavam, tenho certeza, atirariam, se elencadas sob o critério de gênero, e não literário. Falo de grandes autoras, não de marrecos ideológicos. Seria demérito, e não saudação. Algo como colar na prova.

Se o critério é a diversidade, como justamente se reclama, um vestibular apenas com títulos de autoras desafina o coro. Os conflitos, dramas, aleivosias e inconstâncias da alma, comuns ao ser humano, são tratados por todos os integrantes da sociedade — e os ideólogos da USP pretendem reduzir a visão dos estudantes a um escaninho. Assim é a esquerda identitária.

A direita, claro, tem outras idiossincrasias ideológicas. Apesar de constar das diretrizes educacionais, vários estados brasileiros procuram diminuir, quiçá eliminar, o ensino de sociologia e filosofia. São diretos na ojeriza ao verbalizar que ambas as disciplinas apenas enchem a cabeça de abobrinhas — e formam comunistas! Um intelectual da boa direita como José Guilherme Merquior (aquele que alertou sobre o plágio cometido por Marilena Chauí, antes ícone universitário do PT) diria que a educação pertence, antes de tudo, ao homem — não é coisa de direita ou de esquerda. No Brasil, a clivagem tornou-se folclore difundido pelos vassalos da ditadura militar, cujo trabalho, além de torturar os adversários políticos, foi destruir o ensino público brasileiro. Para não dizer que não falei de números, lembremos a equação formulada pelo capitão Bolsonaro: - 4% + 5% igual a 9% positivo. Eita.

Ainda no terreno do chiste, sendo mais triste do que engraçado, durante a campanha eleitoral passada Fernando Haddad foi advertido por um empresário de que não apoiaria sua chapa por discordar das ideias do pensador marxista Antonio Gramsci. Haddad, curiosamente bem-humorado naquele dia, perguntou:

— A qual obra dele o senhor se refere? O interlocutor direitista tornou à sua irrelevância intelectual.

Se a esquerda identitária veta autores num dos maiores vestibulares do país, ao final um ato candente e explícito, se não de censura, mas de exclusão ideológica, de cepa stalinista, a extrema direita proíbe a seco a leitura de títulos considerados… perigosos. Como se no Brasil qualquer livro causasse mais danos que o orçamento secreto ou as viagens políticas de Eduardo Bolsonaro. Da sanha da Secretaria de Educação de Santa Catarina, relegados a um calabouço, não escaparam obras cujos enredos flagram regimes autoritários ou nazistas. Entre os abatidos, a clássica distopia “Laranja mecânica”, de Anthony Burgess, também transformada em filme pelo genial Stanley Kubrick; “O diário do diabo” com a história do ideólogo nazista Alfred Rosenberg; ou ainda “A química entre nós”, um água com açúcar menos letal que qualquer conceito difundido pela dupla Michelle-Damares.

Do mesmo jeito que a extrema direita precisou prender Lula para ganhar com Bolsonaro em 2018, e depois perder mesmo com a máquina de governo à mão, a esquerda identitária dinamita o universo educacional brasileiro ao excluir autores de seu vestibular. Não é assim que a sociedade ganhará em diversidade. Diminuir as aulas de sociologia ou filosofia também não tornará os estudantes menos críticos. Ou terrivelmente crentes.

 

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