quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Wilson Gomes* - Extremos, estranhos e na moda

Folha de S. Paulo

Últimos sete anos têm deixado os democratas com o coração na mão

Quando a extrema direita começou a ganhar eleições importantes, em 2016, todos ficamos impressionados. Afinal, havia muito tempo que não se via coisa assim em países de democracias consolidadas.

Muitos dos que estudamos política e democracia tínhamos aquela convicção de que a Europa e a América tivessem aprendido a sua amarga lição, no século 20, sobre o que acontece quando extremistas tomam o poder, pelo voto ou pela força.

Com esse aprendizado, o que esperar do século 21 a não ser mais e melhores democracias? E, de fato, nunca tivemos tantos países democráticos no mundo quanto no início do século. Além disso, consolidada a democracia política, por que não focar em "democracia social", ou seja, em mais igualdade e justiça sociais? E por que não encontrar soluções democráticas para os grandes problemas mundiais, como crise climática, migrações, desigualdades regionais, minorias?

Em vez disso, os últimos sete anos têm deixado os democratas com o coração na mão. Como um cavalo arisco, o século 21 refugou, recusou-se a seguir adiante, por volta de 2016. Radicalismos prosperam, o ressentimento é parte fundamental da nova retórica política, a intolerância voltou à moda, o populismo ao redor de líderes carismáticos se espalhou, o obscurantismo e o dogmatismo conquistaram os jovens.

A este ponto nem sei se a questão é simplesmente o avanço da extrema direita, como parecia tão nítido com as vitórias de Trump e de Bolsonaro. Há outros estranhos extremos prosperando, social ou eleitoralmente, é só prestar atenção. Milei é e não é da extrema direita, na sua nebulosa de pautas, mas até o seu discurso da vitória apostava em ser estranho e extremo. Hoje não se sabe.

Do outro lado, os identitários latino-americanos, do Brasil ou do Chile, por exemplo, não têm tirado o pé do acelerador, atropelando o que quer lhes atravesse o caminho, acumulando radicalização e antipatia social e, assim, alimentando o refluxo que trará de volta o outro extremo.

Na Europa, por sua vez, uns tipos radicais continuam prosperando em toda a parte. A vitória da extrema islamofobia do Partido para a Liberdade de Geert Wilders, nos Países Baixos, na semana passada, é só mais uma ocorrência do mesmo fenômeno. Diferentes modulações do mesmo sintoma.

Todos partem de um problema social reconhecido e sentido pela população. As crises econômicas, o problema da corrupção, o ressentimento social e a erosão da confiança nas instituições da política forneceram o material bruto para que mãos habilidosas construíssem uma história trágica, um antagonista malvado e perigoso e um protagonista radical. As desigualdades e as opressões orientam outras narrativas e soluções baseadas em raiva e pressa.

Na Europa, não se pode negar que o volume de migrantes, a sensação de que o fluxo de novos estrangeiros chegando não irá cessar e as enormes diferenças culturais entre os de fora e os nativos são uma questão social importante. É um desafio e tanto, para o qual a solução que tem vencido ou impactado eleições, seguidamente, tem sido radical.

Desde o referendo do brexit, onde foi argumento eleitoral decisivo, passando-se por algumas eleições italianas, até o mais recente extremo extravagante, Geert Wilders, a solução vencedora tem sido xenofobia, anti-islamismo, "não os queremos aqui" e "que voltem para as suas casas".

A retórica pode ser mais polida ou mais crua e feroz —como com Salvini, Meloni ou Wilders—, mas o repertório de soluções envolve a coragem de dar voz ao preconceito que séculos de Iluminismo haviam cuidado de reprimir e envergonhar.

No entanto, o caminho que leva de um problema social a uma vitória eleitoral passa pela comunicação política. E nisso os extremos, principalmente os iliberais, têm se revelado muito bons. Dois padrões de retórica, usados em paralelo, costumam entregar bons frutos.

De um lado, é preciso promover rivalidades e atiçar divisões, de preferência identificando-se um conveniente e palpável bode expiatório. De outro lado, é necessário causar medo, angústia e pânico moral e convencer os "nossos" de que "ou nos juntamos, ou estamos perdidos". Vem dando certo.

Por que o modelo tem funcionado tão bem ultimamente? Isso tem a ver, creio, com um aumento da hostilidade e do antagonismo na vida pública em níveis assustadores.

Quando se é muito hostil ou se tem muito medo de algo, há maior boa vontade para aceitar soluções radicais, há maior propensão ao engajamento em causas vistas como desesperadas, aproveita-se qualquer deixa para se usar como razão justificável de animosidade contra o "outro lado".

Voltaremos a isso.

*Professor titular da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e autor de "Crônica de uma Tragédia Anunciada"

 

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