sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Maria Cristina Fernandes - Fuga de presídio desafia governo e bolsonarismo

Valor Econômico

Pressão sobre Lewandowski provoca primeiro embate entre os apoiadores do ex-presidente

A fuga inédita no presídio federal de Mossoró não desafia apenas o governo Luiz Inácio Lula da Silva mas as bases do bolsonarismo. O primeiro racha já aconteceu. Na quarta-feira à noite, um dos expoentes do bolsonarismo raiz na Câmara dos Deputados, Ubiratan Sanderson (PL-RS), presidente da Comissão de Segurança Pública, anunciou a convocação do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, para explicar a fuga.

Na manhã seguinte, o presidente do PP e senador Ciro Nogueira (PI), um dos principais aliados do ex-presidente no Centrão, foi às redes sociais para aliviar a pressão: “O ministro da Justiça acabou de assumir. Culpá-lo e fazer política com esta fuga dos presídios federais, convocando-o, só cria barulho. Solução, não. O Brasil quer solução. Que o ministro possa mostrar a que veio. A oposição responsável quer o melhor para o país e não o pior para ninguém”.

A fuga acontece uma semana depois do cerco sobre o bolsonarismo ter-se fechado com a operação da Polícia Federal que apreendeu o passaporte de Jair Bolsonaro, efetuou prisões e fez operações de busca e apreensão envolvendo suspeitos de colaboração golpista.

Tanto o secretário nacional de Políticas Penais, André Garcia, quanto o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, reconheceram claramente que uma fuga do gênero não teria ocorrido se não tivesse havido quebra no protocolo de segurança.

Por mais que este protocolo seja reforçado, o problema é o que a quebra da inviolabilidade do sistema penitenciário nacional acarreta. Lewandowski não poderia ter sido mais claro: “É preciso tomar todo cuidado para que este exemplo não incite outros incidentes desta natureza”.

Como define um conhecedor do tema, as facções criminosas poderão concluir que, onde passa um boi passa também uma boiada. Serão construídas muralhas nos cinco presídios federais, mas se ferramentas de reformas continuarem jogadas em canteiros de obras, além das celas, essas muralhas também estarão vulneráveis.

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A necessidade de reforçar a política penitenciária se torna ainda mais imperativa num momento em que as bases policiais bolsonaristas estão sendo estimuladas a demonstrar solidariedade ao ex-presidente. Bolsonaro convocou uma manifestação para o dia 25 contra o cerco da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal. No governo não se afastam os riscos advindos de sabotagem ao reforço da política penitenciária.

Se a fuga dos presidiários, de um lado, engrossa o apoio da extrema-direita ao ex-presidente, do Congresso às bases policiais, por outro, desmobiliza aliados do Centrão, como demonstrou a manifestação do presidente do PP. A ofensiva em cima de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, demonstra que os partidos que apoiaram Bolsonaro não serão poupados.

É a coincidência desses dois movimentos que impõe urgência para a reação do governo à fuga de Mossoró. A fuga aconteceu às 3h da manhã da quarta-feira de cinzas e a nota oficial do MJ só foi divulgada às 18h. A letargia se deveu a uma sucessão de problemas operacionais. O ministro, que só chegou a Brasília ao meio-dia desta quinta-feira, foi avisado apenas às 8h da manhã, cinco horas depois da fuga.

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, estava fora de Brasília. Como não havia pista para o pouso do jato da PF em Mossoró, a equipe enviada para a recaptura dos presos e o início das investigações foi mandada de turbo-hélice e só chegou às 17h40 na cidade. O afastamento do diretor do presídio, que estava fora de Mossoró por ocasião da fuga, já havia sido decidido, mas optou-se por anunciar sua substituição apenas com a chegada do interventor a Mossoró, o policial penal federal Carlos Luis Vieira Pires, neste voo.

Os primeiros indícios de falhas apontam que o forro das celas não era concretado, a iluminação era falha, as câmeras de segurança estavam há dois anos sem manutenção e, finalmente, havia as ferramentas da reforma largadas no canteiro de obras.

Além do reforço na segurança dos outros quatro presídios federais, foi anunciada que a busca dos dois fugitivos, que estavam no presídio por terem liderado uma rebelião num presídio do Acre, passou do patamar “laranja” para “vermelho” na Interpol.

Além de dura, a reação tem que parecer dura. Ao contrário de seu antecessor, Flavio Dino, o atual MJ nem perfil no X, antigo Twitter tem, o que dificulta esta missão. A demora na posse daquele que deve ser seu principal braço-direito no combate ao crime organizado, o ex-procurador-geral de Justiça de São Paulo, Mario Sarrubbo, que assumirá a Secretaria Nacional de Segurança Pública, também.

Das prioridades anunciadas — a recaptura dos presos, o esclarecimento das causas da fuga e as medidas para que o evento não se repita — dependem em grande parte não apenas o futuro do combate ao crime organizado mas o êxito do Executivo no latifúndio, liderado pelo Judiciário, do enfrentamento ao golpismo

 

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