terça-feira, 26 de março de 2024

Carlos Andreazza - Ninguém quer Cid

O Globo

O tenente-coronel atualiza a máxima para o destino de quem se associa a Bolsonaro e ao bolsonarismo: entrar e então morrer

O tenente-coronel Mauro Cid atualiza a máxima para o destino de quem se associa a Bolsonaro e ao bolsonarismo: entrar e então morrer. Variadas as formas, as expressões, da morte. Entrar e morrer. Sina. Sempre uma questão de tempo — já condenados também os caiados que se pensam livres da maldição. É inescapável.

Entrar e então morrer. Morrer e continuar morrendo. Úteis, alguns dos mortos. Mortos a serviço. Mortos para sacrifício. Finados em ação. Os defuntos ativos, matando (matando-se) e morrendo.

Os áudios de Cid divulgados pela Veja expõem um morto que se mata — ou se deixa matar:

— Quem mais se fodeu fui eu. Quem mais perdeu coisa fui eu. O único que teve pai, filha, esposa envolvidos. O único que perdeu a carreira, o único que perdeu a vida financeira fui eu.

Isso é desabafo de zumbi.

— Ninguém perdeu carreira. Ninguém perdeu vida financeira como eu perdi. Todo mundo já era quatro estrelas. Já tinha atingido o topo. Né? O presidente teve Pix de milhões. Ficou milionário, né?

Isso é desabafo de zumbi amargurado ante zumbis graduados. Todos fizeram escolhas. Todos mortos, com as estrelas, como as estrelas. Bolsonaro, sem estrelas e milionário, suga e vai. Seca e vai. De morte em morte, vai. Dormindo o sono das embaixadas, flertando com a prisão, quiçá cavando a preventiva — vai. Cid, morto e se matando:

— Você pode falar o que quiser. Eles [os policiais federais] queriam que eu falasse coisa que eu não sei, que não aconteceu. (...) Você pode falar o que quiser. Eles não aceitavam e discutiam. E discutiam que a minha versão não era verdadeira, que não podia ter sido assim, que eu estava mentindo.

Isso já é outra modalidade de manifestação. Os métodos do bolsonarismo pelo zumbi Cid. Entrar, consumir-se num universo em que tudo precisa ser desacreditado, em que nada é confiável, e então morrer. Plantar desconfiança a ser difundida entre os que confirmarão a imoralidade da Justiça, que persegue e chantageia. Gatilho de Lava-Jato. Bolsonaro vitimizado. Eis o texto rapidamente disparado. E então a morte.

A depender do perseguido e chantageado, a tese da coação prospera — encontra togado que a abrace — e se torna influente. Capaz até de reescrever a história da corrupção no Brasil; e de repente os injustiçados (corruptores da corrupção que não houve) já tocam a obra no palco — denunciam os injustiçados corrompidos da corrupção que não houve — da armação estadunidense contra a soberania brasileira e nosso porvir glorioso.

Não será o caso de Cid; que não terá a oportunidade de comandar tropas. Também morto como militar. Golpista fraudador instrumentalizado, cumpridor do que lhe fora fadado. E morto. Morreu semeando dúvidas sobre a República. Terá todo o rigor contra si.

Morrer e continuar se matando. Depoimentos à PF, compromisso com a verdade, vantagens no horizonte — e então os áudios segundo os quais suas declarações foram distorcidas, descontextualizadas as informações que prestou, algumas mesmo omitidas. Cid é Cid é Cid é Cid é Cid. É Bolsonaro. Era. Foi.

Falou a pessoas próximas — o Cid desesperado, o traidor que se justifica. Falou a quem? Traidor e traído. O desabafo que, na mão do bolsonarismo, circula para robustecer a percepção de ditadura xandônica. Missão cumprida. Provas em xeque. A lava-jato do Xandão — é o que vai no zap-profundo. Cid quereria uma vaza-jato para si. A vaza-jato de Cid vindo para matá-lo ainda mais. “Vício de voluntariedade”? Isso é para quem pode. Ninguém quer Cid.

Delator desprovido de um Dias Toffoli para lhe pegar a bravata e transformar em “pau de arara do século XXI”, Cid não terá a chance de, anuladas as provas que ofertou, garantir os benefícios da colaboração. É provável que os perca. E que as provas valham. Acordo revogado por infringir deveres de colaborador. Ninguém o quer. Preso já está. Inexistente a possibilidade de não sustentar a acusação que fez — de oprimido para delatar — e ainda poder negociar. Nem o advogado da J&F, também delator, poderia ajudá-lo. O morto Cid ora morre sozinho.

Confirma o que disse nos áudios vazados? Que foi pressionado a relatar fatos que não ocorreram; a detalhar eventos que desconhecia; induzido a corroborar declarações de testemunhas. Confirma? Não. Ok. Dane-se. Não importa. Poderíamos prescindir do que relatou. Temos outras provas. A palavra dos estrelados. Descartado está, senhor Cid. O senhor mesmo. Descartado. Não se superestime. Sua delação é peça menor no conjunto. O senhor: morto menor no conjunto. É o que se comunica e impõe desde o Q.G. xandônico.

A morte e a morte de Mauro Cid. Vale nada. Para a Justiça. Também para o bolsonarismo. Seu desabafo já tendo produzido o efeito conspirativo. O morto Cid morre sozinho. Até a próxima.

 

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