sábado, 9 de março de 2024

Eduardo Affonso - O liberal, esse desconhecido

O Globo

Liberais deram ao Brasil o Plano Real, que botou freio na inflação, castigo tão mais cruel quão mais baixa a renda

Imagine alguém a favor da igualdade de gênero, de plenos direitos para casais homoafetivos (incluindo adoção), do Estado laico (com o fim dos privilégios fiscais concedidos a “igrejas”), da descriminalização das drogas e do aborto, da legalização da eutanásia, da opção por fontes limpas e renováveis de energia — e, ainda assim, considerado de direita.

Pense agora em alguém que defenda a autorregulação do mercado, a privatização das estatais, a liberdade de expressão, a redução da maioridade penal, a implantação de normas de compliance em todo o setor público, o empreendedorismo, o capitalismo como única forma de criação de riqueza — e que, ainda assim, volta e meia seja chamado de esquerdista.

Muito prazer: esse cara sou eu, um liberal — em época de eleição, também conhecido pela pouco lisonjeira alcunha de “isentão”. Um gênero fluido: à esquerda se a referência for um bolsonarista; à direita se for um petista o parâmetro.

O liberal é um anfíbio, um ambidestro, que, no Brasil, vive num limbo entre a hipocrisia de quem diz olhar pelos mais pobres — e se empenha na perpetuação do atraso — e a desfaçatez de quem fala em Deus, pátria e família — e faz o diabo para desmoralizar todos os três. Nem todo liberal pensa igual, mas uma cláusula é pétrea: não tem ditadura amiga — seu match é a democracia.

Liberais tendem a acreditar no direito das pessoas ao próprio corpo e à própria vida (em todos os seus estágios). Que caiba aos trabalhadores a administração do seu salário (imposto sindical obrigatório e empréstimo compulsório via FGTS são apropriação indébita). Veem o politicamente correto como uma questão de respeito, não um pedestal para pavoneio.

Liberais deram ao Brasil o Plano Real, que recuperou a economia e botou freio na inflação — castigo tão mais cruel quão mais baixa a renda. A esquerda só pôde viabilizar seus projetos entre 2003 e 2016 porque encontrou as contas em ordem — legado carinhosamente chamado de “herança maldita”.

Temos nossas esquisitices: achar que Estado foi feito para cuidar do bem comum, não para furar poço de petróleo, produzir programa de televisão, abrir conta-corrente e emitir cartão de crédito. Que o Legislativo legisla, o Executivo executa e o Judiciário julga (sim, soa radical e contraintuitivo, mas é um novo paradigma a que a gente se acostuma). Que a educação fundamental é fundamental; que as universidades devem ser gratuitas para quem não puder pagar e que um sistema de cotas sociais nos pouparia da infâmia de ter comissões para avaliar narizes, lábios, cabelo e tom de pele.

Queremos um país mais rico, mais aberto, mais competitivo (“Seus fascistas!”), mais justo, mais solidário, mais inclusivo (“Seus comunistas!”). Queremos igual distância do Mito Imbrochável e do Deus-Sol Infalível (“Falsa simetria!”), das conspirações do QAnon e das atrocidades do Hamas (“Seus isso, seus aquilo!”).

Parafraseando Millôr, ser liberal no Brasil é propor violão, flauta e cavaquinho a uma tribo que só conhece percussão. Mas tem uma vantagem: como a gente apanha dos dois lados, pelo menos os hematomas são simétricos.

P.S. 1: Não deixe de visitar o Museu das Culpas do Neoliberalismo, garantia de muitas gargalhadas.

P.S. 2: Somos muitos — só precisamos parar de nos contentar com o vice-pior.

 

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