sábado, 23 de março de 2024

Luiz Gonzaga Belluzzo*- Economias e insatisfações crescem

CartaCapital

Em sua configuração atual, o capitalismo escancara a incapacidade de entregar o que promete aos cidadãos

As pesquisas de opinião apontam insatisfação dos cidadãos americanos e brasileiros com suas vidas, a despeito do bom desempenho de suas economias. Desempenho revelado pelo crescimento do PIB, criação de empregos, aumento no valor médio das remunerações insuflado pela expansão da massa de rendimentos.

Em artigo na Folha de S.Paulo, Paul Krugman não esconde sua perplexidade diante do desgosto dos cidadãos americanos com as realizações exibidas nos dados que festejam as proezas da economia de Joe Biden.

Há que indagar as razões que promovem esse descompasso entre as cifras positivas da economia e as percepções negativas de contingentes significativos das sociedades.

Um vídeo distribuído pelo WhatsApp apresenta declarações de cidadãos americanos, políticos conservadores, senhoras e senhoritas idem. Começamos com Donald Trump:

– Eu amo nossos trabalhadores de colarinho-azul, e me considero, de certa forma, um trabalhador de colarinho-azul.

O apresentador do vídeo:

– Nós amamos e respeitamos o povo trabalhador deste país, embora eu tenha certeza de que eles nem sempre sentem o amor.

Trabalhadoras e trabalhadores:

1. Preciso de ajuda para pagar meu aluguel. Depois de 25 anos e meio. Eu ganho 8,99 dólares por hora. Abandonei a faculdade. Eu tinha de fazer, mas não tinha condições de pagar. Minha mãe não tinha condições de pagar.

2. Eu trabalho sete dias por semana, agora. Não tenho condições de me aposentar, por causa da saúde. Preciso de cuidados infantis como se precisasse de seio. Tenho dois diplomas.

3. Tenho empréstimos estudantis, bacharelado e 14 anos de experiência. Eu não deveria ter de vir pedir comida. Estou vivendo de salário para pagar a dívida estudantil. Se eu moro em um país que diz que é o número 1, por que me sinto no fundo do barril?

O apresentador:

– Alguém sabe o que pode ajudá-los?

Comentários dos conservadores:

– Assistência médica de graça, creche paga pelo governo. Faculdade gratuita, alimentação saudável do governo, educação infantil, creche universal, emprego garantido pago com salário, licença médica e familiar adequada, férias remuneradas e segurança na aposentadoria. Vocês todos estão mortos, né? Se isso não é socialismo, não sei o que é. Todos os itens da lista de desejos socialistas, da lista de ­desejos socialistas e globalistas. Paraíso da fantasia socialista para todos. Assassinato de empregos, agenda socialista esmagadora de almas. Quer dizer, olá, ­Venezuela. Eles querem levar sua caminhonete.

O apresentador:

– Então, está aí. Não podemos dar aos nossos heróis trabalhadores e cuidar de suas necessidades básicas, porque isso é socialismo.

Vou correr o risco de reapresentar minhas percepções. A marca registrada da sociedade de massa capitalista-competitiva é a busca pela diferenciação da riqueza e dos estilos de vida, diferenciação que abriga o consumo, as concepções e os “modos de ser” dos indivíduos socializados. Desgraçadamente, ao instigar os impulsos dos indivíduos para alcançar os hábitos, gostos e gozos dos bem aquinhoados, a socialização competitivo-capitalista promove as angústias daqueles enredados nas malhas da desigualdade. A maioria não consegue realizar seus desígnios, atolada no pântano da sociedade de massa.

Os ganhos propiciados pela valorização da riqueza financeira sustentam o consumo dos ricos e, simultaneamente, aprisionam as vítimas da crescente desigualdade nos circuitos do crédito. No afã desatinado de acompanhar os novos padrões de vida, a legião de fragilizados compromete uma fração crescente de sua renda nas encrencas do endividamento.

No mundo em que mandam os mercados da riqueza, os vencedores e perdedores dividem-se em duas categorias sociais: na cúspide, os detentores de títulos e direitos sobre a renda e a riqueza, gozam de “tempo livre” e do “consumo de luxo”; na base, os dependentes crônicos da obsessão consumista e do endividamento, permanentemente ameaçados pelo desemprego e, portanto, obrigados a competir desesperadamente pela sobrevivência.

Em sua configuração atual, o capitalismo escancara a incapacidade de entregar o que promete aos cidadãos. A celebração do sucesso colide com a exclusão social; o desemprego estrutural promovido pela transformação tecnológica e pela migração da manufatura para as regiões de baixos salários tromba com a igualdade de oportunidades.

Não há como desconsiderar nas conflagrações do capitalismo de massas a emergência de camadas sociais que se consideram “perdedoras”. Elas disparam seus ressentimentos contra “tudo que está aí”. Seus obuses de inconformidade são quase sempre manejados com as mãos à direita. 

*Publicado na edição n° 1303 de CartaCapital, em 27 de março de 2024.

 

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