O Estado de S. Paulo
Eleição de Trump é revanche de setores de
baixa renda e sem ensino superior contra elite intelectual
A volta de Donald Trump equivale a um
terremoto no alicerce da democracia, da diversidade, da valorização da ciência
e dos fatos, uma derrota no combate às mudanças climáticas e uma vitória para
as ditaduras que contestam a ordem mundial, lideradas por China e Rússia. É a
revanche de setores de baixa renda e sem ensino superior contra a elite
intelectual.
Trump está mobilizado pelo desejo de ver materializada a sua delirante visão de mundo. Dessa vez, não haverá “adultos na sala” – assessores que sutilmente descumpriram suas ordens e heroicamente mitigaram os efeitos desastrosos de seu primeiro mandato.
Trump conta que em 2016 não conhecia muita
gente em Washington e acabou sendo vítima da traição de inúmeros colaboradores.
Esse é um dos combustíveis de seu rancor.
Desta vez, Trump se cerca de pessoas
escolhidas não pelo critério da competência, mas da lealdade. Ele deixou claro
que usará o Departamento de Justiça para perseguir seus adversários políticos.
Com maioria na Suprema Corte, no Senado e
provavelmente na Câmara, e o propósito explícito de colocar o Estado a seu
serviço, Trump procurará eliminar a separação de poderes e os freios e
contrapesos concebidos pelos chamados “pais fundadores” no século 18 para criar
uma república e evitar
Eleição de Trump é revanche de setores de
baixa renda e sem ensino superior contra elite intelectual a tirania
representada, na época, pela monarquia absolutista e colonialista britânica.
Esse sistema, aperfeiçoado ao longo dos
séculos, pressupõe a existência de uma elite guiada pelos valores do
Iluminismo. A falibilidade e o egoísmo humanos eram limitados por um contrato
social de busca do bem comum e de patriotismo. Quando esse consenso falhasse,
Congresso, Justiça, academia e imprensa disparariam mecanismos de correção. É
esse arcabouço que o trumpismo se dedica a destruir.
AMEAÇA. Trump e seus seguidores nutrem
teorias conspiratórias contra o establishment político, jurídico e estatal,
incluindo órgãos de inteligência, contra a ciência e a imprensa, como cúmplices
de um complô para extorquir a população e destruir sua identidade e tradições.
O livre comércio e a imigração levaram para
longe as fábricas que davam empregos de qualidade para os operários e trouxeram
os estrangeiros que aceitam trabalhar por salários menores. Trump entendeu isso
e se elegeu prometendo elevar as tarifas de importação, deportar e barrar os
imigrantes. Diante disso, a democracia, os direitos individuais, a ciência, o
meio ambiente, a ordem internacional baseada em regras e a imprensa parecem
distrações de intelectuais. •

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