Folha de S. Paulo
Economia não mais apenas despiora, país volta
a ficar mais rico; problema é saber quanto dura
Neste ano de 2024, o crescimento
do PIB (Produto Interno Bruto) e do PIB (renda)
per capita será o maior desde 2011, excetuada a recuperação de 2021, sobre o
tombo da epidemia, que não conta. O PIB per capita também será o maior desde o
pico de 2013. Os anos de 2022 a 2024 serão também o melhor triênio desde 2013.
O Brasil parou de apenas despiorar e voltou a
ficar mais rico, na média.
A economia vai manter tal ritmo nos próximos dois anos? Sob quais condições?
A pergunta é
crucial e difícil, pois:
1)Ainda não há boas explicações ou dados que
deem conta dos resultados muito imprevistos desde 2022
2)No horizonte, há encrenca grande: inflação em
alta ainda maior, dívida pública crescendo sem controle, juros em
alta para níveis inéditos desde 2015-16, afora breves momentos de 2022
3)Condições de crescimento prejudicadas: taxa de poupança em queda preocupante e previsível; taxa de investimento em alta, mas em nível baixo: está em 17,6%. Entre 2007 e 2015, esteve em 18% ao menos e, por seis anos, acima de 20%
Apesar dos pesares, a economia conseguiu
decolar, com taxas de juros altas, como um besouro improvável. Sim, houve grande
aumento de gasto público, direcionado a pobres, que gastam mais, mas
isso era previsto e calculável.
Previsões em geral estarão erradas, por
insuficiências de teoria, modelos e dados. Podem ficar ainda mais erradas por
causa de choques, de imprevistos: guerra, epidemia, seca, queda de preço de
commodities que exportamos, turbulência financeira externa, tumulto político
doméstico etc.
Mas não houve choque que explicasse tais desvios
de previsão. O crescimento previsto de 0,4% para 2022, foi de 3%;
previsão de 0,8% em 2023, resultado de 3,2%. Para este 2024, previsão de 1,5%,
crescimento perto de 3,5%.
Em tese, limites estão à vista. O crescimento
pode ser menor em 2025, diz inclusive o Ministério da Fazenda. Para a centena
de economistas que manda previsões para o Banco Central (que as publica no
boletim Focus), o crescimento
seria de 2% no ano que vem. Dado o tamanho aparente da encrenca, 2%
seria ainda muito bom.
Quais os sinais de limites? A taxa de desemprego deve
baixar a inéditos 6% neste ano. Poderá baixar a até quanto, de resto com
aumentos reais de salário acima de 3% ao ano, muito acima do aumento da
produtividade, sem causar alguma inflação?
O Brasil pode ter taxa de desemprego americana, com tantas distorções e
escassez de trabalho qualificado? O consumo privado ("das famílias")
cresce muito além do crescimento da produção da economia. Há mais déficit
externo.
A perspectiva de crescimento ainda mais
descontrolado da dívida pública (por causa de déficits e juros pavorosos) ajuda
a mandar o dólar para as alturas, outra fonte de inflação. Até quando as
empresas captarão montes de recursos no mercado de capitais e o crédito
bancário continuará a crescer, com tais taxas de juros? Além do mais, o
crescimento do gasto público será bem menor em 2025.
É muito imprudente testar tais limites, se
arriscar a criar mais problemas, que já aparecem nas nossas fuças (inflação,
juros, esgotamento de fatores de produção). 2025 pode não ser o 2015 de ajuste
ruim e de choque, do início da Grande Recessão e dos desastres subsequentes.
Mas não convém pagar para ver. Fernando Haddad, como quase prometeu, precisa
vir com mais medidas de conserto em 2025. Desta vez, com apoio de Lula.
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