O grande dramaturgo e cronista carioca Nelson Rodrigues criou, entre tantos personagens geniais, o Sobrenatural de Almeida, que em suas aparições fantasmagóricas levava maus agouros ao Fluminense de seu coração. Depois começou a assombrar também outros times, produzindo viradas espetaculares, gols sensacionais, resultados improváveis, desmentindo os “idiotas da objetividade”. Apesar de habitar o mundo do futebol brasileiro, tudo indica que o Sobrenatural de Almeida teve intensa atividade na política brasileira, dados os múltiplos exemplos de eventos inesperados e surpreendentes que foram determinantes para os rumos do país.
Vargas ocupou a presidência da República
durante quase 19 anos. Liderou a ruptura com as velhas oligarquias regionais da
Velha República e desencadeou o processo de modernização e industrialização do
país. Era inegavelmente um grande líder popular. Quem poderia imaginar que
decidiria pelo suicídio? E se? Carlos Lacerda e a UDN conseguiriam derrubá-lo?
Ele apoiaria JK em sua sucessão? Ou não teríamos os 50 anos em 5, o Plano de
Metas e Brasília?
Jânio Quadros literalmente varreu a
candidatura do marechal Henrique Lott nas eleições de 1960. Com exotismo e
imprevisibilidade planejados, venceu as eleições de forma arrasadora. Foi um
vendaval de populismo e contradições. Com apenas 7 meses de poder, renunciou,
decepcionando o eleitorado e abrindo um período de grande instabilidade. E se?
Será que se não houvesse a renúncia teríamos o golpe militar de 64? Será que
chegaríamos às eleições de 1965, com um embate histórico entre Carlos Lacerda e
JK? A democracia brasileira sofreria descontinuidade?
Para minha geração, nenhum evento inesperado
impactou tanto quanto a morte de Tancredo Neves, que ao lado de Ulysses
Guimarães, liderou o complexo e desafiador processo de redemocratização.
Tancredo preparou-se, ao longo da vida toda, para o exercício da presidência da
República. Tinha certamente um modelo de estabilização da economia, outro de
Constituição. Sarney cumpriu com dignidade e equilíbrio sua difícil missão. Mas
era egresso da base de apoio ao regime autoritário. Se Tancredo tivesse
governado, será que teríamos tido frustações como a do Plano Cruzado? Teríamos
preparado o terreno para um outsider voluntarista como Collor?
O próprio FHC se diz um presidente
improvável. E se Montoro tivesse perdido a eleição para o governo de SP e FHC
não virasse senador? E se ele ganhasse a Prefeitura de SP em 1985? E se Collor
não fosse afastado? E se Itamar não o chamasse para Ministro da Fazenda e o
Plano Real não tivesse dado certo?
O terrível acidente aéreo fatal de Eduardo
Campos talvez tenha tirado dele a presidência, que era bem provável em 2014.
Será que a facada que atentou contra a vida de Bolsonaro foi determinante para
sua vitória?
Como se vê o Sobrenatural de Almeida teve papel intenso na política nacional. Será que aprontará alguma em 2026?
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