Quantos intelectuais brasileiros contemporâneos de Joaquim Nabuco e José do
Patrocínio mantiveram-se silentes diante do escravismo? Quantos, na República,
silenciaram diante do massacre que se sucedeu à Revolta da Chibata? Quantos se
mantiveram calados e passivos diante do Estado Novo? Quantos marcharam ao lado
de Miguel Reale Jr., jurista social-democrata e autor do pedido de impeachment
de Dilma Rousseff, costurado com o então presidente da Câmara dos Deputados?
Niomar Moniz e Roberto Marinho, com seus Correio da Manhã e O
Globo, respectivamente, optaram de maneira distinta diante da ditadura militar,
conscientes ambos — ela dos riscos, ele dos benefícios — quanto ao que nenhum
dos dois estava errado, como demonstrou a história. Igualmente, numerosos empresários
de grosso calibre financiaram o golpe de 1º de abril de 64 e sustentaram a
ditadura. No lado oposto, tivemos exemplos raros — e por isso dignos de
celebração — como o de Fernando Gasparian, intelectual orgânico, fundador do
semanário Opinião, trincheira de resistência política à ditadura.
Combateram-na, entre muitos, Antônio Houaiss, Ênio da Silveira, Carlos Heitor
Cony, Amelinha Teles, Celso Furtado e Chico Buarque de Holanda, entre tantos
que conheceram a repressão e o exílio, enquanto outros, com larga presença na
imprensa a defendiam, como Rachel de Queiroz e Rubem Fonseca.
Raduan Nassar, um dos mais importantes escritores brasileiros do século XX,
completará 90 anos no dia 27 de novembro, como lembra Frei Betto (“Raduan
Nassar rumo aos 90”Folha de S. Paulo, 26/08/2025), um dos mais destacados
intelectuais orgânicos de minha já velha geração, que nos fala do Raduan
escritor.
Escritor dos maiores, embora de poucas obras, mas todas preciosas, Raduan
deixou, ao dar por encerrada sua produção, um conjunto de singular densidade
poética, de concisão e de experimentalismo formal muito próprio, que o
distancia, por exemplo, do Guimarães Rosa telúrico.
Sua precisão estilística, criativa tanto quanto corajosa, distante do barroco
de Grande sertão: veredas, lembra o Graciliano Ramos de Vidas Secas.
Sua sintaxe é inovadora porque é lírica, uma prosa musical, próxima da poesia.
Invade o vasto e profundo universo íntimo da alma humana a partir do microcosmo
de seu mundo arcaico e familiar — o desejo e o sentimento de culpa, a violência
telúrica (que também está em Graciliano) e a ânsia de liberdade, sonho do homem
— e assim alcança a universalidade, meta de todo grande escritor.
Este é o seu lado mais conhecido, que, pelo seu brilho, escurece o Raduan
Nassar cidadão, político de esquerda, intelectual orgânico comprometido com o
país.
Em 1984, escritor consagrado, vencedor dos prêmios Jabuti e Camões, anuncia o
afastamento da literatura e, em 1985, abandona de vez a cena pública para se
dedicar à vida rural. Vai morar e trabalhar em sua fazenda Lagoa do Sino, no
interior de São Paulo.
Em 2014, quando as circunstâncias nos aproximam, o intelectual orgânico toma o
assento do escritor. Sua voz se ergue na defesa do mandato violentado de Dilma
Rousseff, mantém-se firme na condenação do golpe parlamentar, opõe-se ao
governo Temer, o Perjuro, denuncia a trama golpista da chamada Operação Lava
Jato (cujos desvios corruptos são hoje notórios) e se antecipa na exposição de
seu caráter vassalo. Defende o presidente Lula, corretamente identificado como
prisioneiro político, visita-o na prisão e está com ele em Curitiba quando de
sua libertação. Defende sua eleição em 2022.
A militância política se impõe com a tragédia representada pela emergência da
extrema-direita, que conhece o poder com Bolsonaro e dele ainda não está de
todo afastada — eis que controla o Congresso e mantém apoio popular —, mesmo
depois das eleições de 2022 e da frustração da intentona de 2023. Com os olhos
voltados para a realidade, dirá: “Prefiro falar de política e não de
literatura”. Surpreendeu em 2016 ao discursar em público para defender a
presidente Dilma do viciado processo de impeachment, publicou artigos e
fez críticas ao então vice-presidente — aquele político menor que,
apesar de tudo, a imprensa nativa ainda se presta a bajular —, já de malas
prontas para hospedar-se no Palácio da Alvorada.
Retorna então, ao autoexílio, ainda inexplicado, em sua fazenda paulista.
***
A limpeza étnica prossegue — O genocídio palestino vai se aproximando de
seu 2º aniversário, e o governo israelense, abertamente empenhado na limpeza
étnica (autorizada por uma “comunidade internacional” omissa, portanto
cúmplice), anuncia aos quatro ventos seu projeto de solução final, que envolve
a tomada da Cidade de Gaza, centro do gueto árabe. O Lebensraum sionista
já engloba, para além da quase totalidade do território palestino, pedaços da
vizinha Síria. Nesse cenário de horror e desgraça, faz bem o Brasil em subir o
tom contra as provocações e insultos emanados de Tel Aviv, e rebaixar o padrão
de suas relações diplomáticas com o protetorado. Mas não se pode imaginar que
isto seja o suficiente.
O viralatismo ideológico- O Financial Times e o Le Monde registram
o encontro de Donald T. com o novo líder sul-coreano. O estadunidense é claro
em seu objetivo: quer usar a península coreana como base de
lançamentos/provocação voltada para a China, atual obsessão do velho império.
Para isso, acena com o interesse de normalizar as relações com Pyongyang e se
apropriar de vez (!) das bases estadunidenses em território sul-coreano. Tanto
o Financial quanto o Le Monde (que não são conhecidos por
sua simpatia pelo comunismo) referem-se a Kim Jon-un de modo neutro, como
"líder" ou "dirigente" norte-coreano. Por que o leitor
brasileiro é obrigado a consumir estereótipos em suas folhas e pasquins, em
meio a um vazio de informação?
Os bilhões do crime organizado – O Ministério Público de São Paulo e a
Polícia começam a desvendar as criminosas relações do PCC com o sistema
financeiro. A vinculação de uma das famílias do crime organizado, a lembrar a
máfia italiana no início do século passado, com a Faria Lima é muito grave, por
si, pelo óbvio, e pela ameaça política que está escondida: o que
sociedade máfia-Faria Lima está fazendo com esse monturo de dinheiro
sem rastro? As primeiras investigações falam em 58 bilhões de reais.
Financiando a direita? Elegendo seus procuradores no Congresso Nacional, ou os
governos de São Paulo e Minas Gerais?
* Com a colaboração de Pedro Amaral
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