domingo, 30 de novembro de 2025

A Igreja dos pobres, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Movimento chacoalhou a América Latina ao aproximar o catolicismo das lutas populares

No fim dos anos 1970, os militares que mandavam em El Salvador adotaram um lema macabro: “Seja patriota, mate um padre”. O país era refém da miséria e da ditadura. Na ausência de uma oposição livre, a tarefa de defender os mais vulneráveis sobrava para a Igreja Católica.

O arcebispo de San Salvador, dom Óscar Romero, era a face pública da resistência. Chamado de “porta-voz dos que não têm voz”, notabilizou-se por criticar a violência do regime e defender uma Igreja solidária aos pobres. Em março de 1980, foi assassinado em plena missa por um atirador do Exército.

Dom Romero é um dos personagens centrais de “O Evangelho da Revolução”, novo documentário do francês François-Xavier Drouet. O filme conta a história da Teologia da Libertação, movimento que chacoalhou a América Latina ao aproximar a Igreja das lutas populares.

O diretor fez entrevistas e garimpou material de arquivo em mais três países: Brasil, México e Nicarágua. Perseguido pelos generais brasileiros, dom Hélder Câmara emerge como um herói dos excluídos. “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que são pobres, chamam-me de comunista”, dizia.

O filme resgata uma entrevista à TV francesa em que o arcebispo de Recife e Olinda se apresenta como um revolucionário. “Se a revolução significa uma mudança profunda, radical e rápida, então eu amo a revolução”, diz. Dom Hélder deixava claro que só defendia movimentos pacíficos. Mesmo assim, foi tratado como um perigoso subversivo, cujo nome não podia ser sequer citado pela imprensa.

Ao retratar a participação da Igreja na luta pela terra e na criação do MST, Drouet expõe uma visão nada indulgente do petismo, que também nasceu sob a influência do clero progressista. “Não houve uma verdadeira reforma agrária com o PT no poder. A esquerda não conseguiu corrigir as desigualdades, apesar de todas as esperanças depositadas nela”, critica.

Dois símbolos da esquerda católica falam no documentário. Frei Betto, que combateu a ditadura e passou quatro anos na cadeia, diz que todo cristão é discípulo de um prisioneiro político. Leonardo Boff afirma que Jesus morreu na Cruz, e não atropelado por um camelo. O teólogo relembra a perseguição que sofreu do Vaticano no pontificado de João Paulo II, quando foi condenado ao “silêncio obsequioso”.

O papa polonês promoveu uma repressão implacável a bispos e cardeais identificados com movimentos de contestação. Numa das melhores cenas do filme, ele expõe sua ira com clérigos que se engajaram na revolução sandinista na Nicarágua. Diante das câmeras, passa uma descompostura no padre Ernesto Cardenal, então ministro da Cultura. Mais tarde, o nicaraguense seria punido com a proibição de celebrar missas.

Sufocada pela Cúria, a Teologia da Libertação encolheu até sair de cena. As denominações evangélicas aproveitaram o vácuo para avançar nas periferias do continente. No fim do documentário, o padre Júlio Lancellotti defende a opção preferencial pelos pobres, mas reconhece que hoje há pouco espaço para quem pensa como ele. “Neste sistema, nós vamos perder. Minha luta é a luta de um derrotado”, resigna-se

 

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