domingo, 30 de novembro de 2025

Homens ocos, por Dorrit Harazim

O Globo

Melhor sair logo da escuridão e da indignação fácil. E encarar quem somos nós, que aceitamos o que vemos

Três meses atrás, no Festival de Veneza, a estreia mundial do filme “A voz de Hind Rajab” recebeu ovação histórica de 23 minutos. A diretora tunisiana desse longa híbrido acredita que ele consiga ser um dos favoritos ao Oscar de Melhor Filme Internacional em março de 2026. Ele reconstitui as últimas horas de vida da menina palestina Hind, de 6 anos, passadas dentro de um automóvel que acabara de ser perfurado por 335 disparos. O tio, a tia e três primos espremidos nos dois bancos do carro familiar foram morrendo a seu lado. E a menina, agora sozinha, aciona o número de emergência do Crescente Vermelho que toda criança ou adulto de Gaza sabe de cor. A voz infantil tem urgência adulta e é indelével:

— Estou com medo, por favor, venham.

O fato ocorreu em 29 de janeiro de 2024. Como se sabe hoje, ninguém veio —ou melhor, os dois socorristas que tentaram chegar até Hind de ambulância foram igualmente metralhados pelas Forças de Defesa de Israel (FDI). O conjunto de corpos em carcaças retorcidas ali ficou por 12 dias até ser recolhido.

Semanas atrás um novo documentário produzido pela Fundação Hind Rajab, em parceria com a Al Jazeera, trouxe revelações adicionais ao caso. Intitulado “Ma Khafiya Aatham” (A ponta do iceberg), ele desmonta a tentativa inicial de Israel de sustentar que não havia qualquer unidade militar das FDI nas redondezas do ocorrido. Uma investigação baseada em imagens de satélite e áudios daquele dia, empreendida pelo grupo de pesquisa multidisciplinar Forensic Architecture, da Universidade de Londres, identificou a presença de vários tanques Merkava na vizinhança do carro da família Rajab. Também transcorreram preciosas horas até o Crescente Vermelho receber autorização para deslocar seus dois socorristas à zona de confronto, e é nesse ínterim de horror que a voz da menina vai minguando. Quando, finalmente, a ambulância se aproxima do carro esturricado, é ela que se torna alvo das FDI. O documentário identifica a brigada, o batalhão e os comandantes suspeitos de responsabilidade no caso. E forneceu ao Tribunal Penal Internacional de Haia os nomes, sobrenomes e patentes de 20 militares israelenses que associa ao crime.

Por que falar disso agora, com o dezembro festivo arrombando nossas portas? Porque toda hora é hora. A indignação sendo um estado emocional transitório, é quase impossível de sustentar ao longo dos anos. Desgasta em demasia, tanto física quanto emocionalmente, por isso acaba morrendo — mais cômodo nos acostumarmos ao que vemos. Cabe aqui pedaço de uma crônica escrita por Clarice Lispector para a findada revista Senhor em junho de 1962, sobre a morte do bandidão carioca Mineirinho, pela polícia carioca, com 13 tiros:

— Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossego, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro me assassina, porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

A pergunta moral deixa de ser “quem era o morto?” e passa a ser “quem somos nós que aceitamos isso?”.

Como fim de ano também é ocasião para balanços de vida e listas de melhores ou piores, convidam-se interessados a (re)ler “Os homens ocos”, de T.S. Eliot, publicado exatamente cem anos atrás. Poema modernista que lida com o vazio espiritual e o desalento do Pós-Guerra de 1914-18, “Os homens ocos” de Eliot simbolizam uma sociedade paralisada pela inação, desprovida de espiritualidade e em declínio moral. Esses homens ocos mais se assemelham a espantalhos preenchidos com palha para aparentar humanidade. São vazios, falam aos sussurros, sem dialogar, e vivem numa paisagem árida, estéril, com medo da escuridão. São célebres os últimos versos da obra: This is the way the world ends /Not with a bang but a whimper (dependendo do tradutor, Assim acaba o mundo/não com um estrondo, mas com um gemido).

Melhor sair logo da escuridão e da indignação fácil. E encarar quem somos nós, que aceitamos o que vemos.

 

 

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