Folha de S. Paulo
Brasil precisa criar consensos mínimos,
capazes de orientar reformas
Falta engajar a sociedade no desafio de crescer mais e de modo sustentado
A Europa discute
um dos temas mais relevantes desde a criação da União
Europeia. O relatório Draghi e o estudo da London School of Economics
recolocaram no centro da agenda uma pergunta que deveria ser simples, mas que
raramente recebe respostas claras: o que precisa ser feito para que o
continente volte a crescer de forma sustentada? A partir disso, formou-se algo
novo: os movimentos em busca de um consenso de longo prazo, capaz de sobreviver
a governos, orientar investimentos estratégicos e manter a coesão entre os
países.
O diagnóstico europeu claramente é que, sem crescimento, não há como financiar a transição energética, a defesa do continente, lidar com o envelhecimento populacional e garantir autonomia tecnológica em um mundo mais competitivo. Tudo passa por produtividade e inovação, integração de padrões industriais e segurança institucional. A região escolheu discutir um novo projeto; se vai prosperar, a história há de contar.
Do outro lado do Atlântico, o Brasil
permanece preso a debates rasos. Desde o Consenso de Washington, cujos
princípios inspiraram a estabilização monetária, falta-nos um conjunto mínimo
de prioridades para orientar políticas e conferir previsibilidade aos negócios.
E, principalmente, engajar a sociedade no desafio de crescer mais e de modo
sustentado, com melhoria contínua do bem-estar social.
Nosso problema é conhecido e mensurável. A
produtividade brasileira está estagnada há quatro décadas e, desde 2010,
segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o
crescimento potencial do país desacelera de forma contínua, refletindo
limitações em tecnologia, educação e eficiência. A taxa de investimento
permanece ao redor de 18% do PIB, nível insuficiente para sustentar uma
modernização econômica mais profunda.
Somam-se desafios igualmente conhecidos: no
país onde regras, burocracia e litígios abundam, faltam previsibilidade no
ambiente de negócios, aprendizagem e inovação. Sobra consumo, nem sempre
responsável; faltam poupança e alocação eficiente dos recursos escassos.
Ao mesmo tempo, o Brasil carrega
oportunidades reais: energia limpa, agronegócio eficiente, ativos ambientais de
grande valor, disponibilidade de recursos naturais que se tornam cada vez mais
escassos no planeta. Possuímos infraestrutura digital pública como poucos
países, com grande escala e qualidade: Pix (5 bilhões de transações mensais),
e-Social (mais de 80 milhões de vínculos ativos), Cadastro Único (39% da
população) e identidade digital (mais de 150 milhões). O SUS chega a pelo menos
160 milhões de brasileiros. Estudos internacionais mostram que digitalização e
interoperabilidade podem reduzir em até 30% o custo administrativo dos serviços
públicos. Para o Brasil, onde o "custo regulatório" é estimado em
cerca de 1,5% do PIB, os ganhos potenciais seriam expressivos. Um Estado capaz
de prover dados seguros, padronizados e auditáveis diminui fricções, desvios,
reduz o custo de servir e melhora a qualidade das políticas públicas.
Mas o que nos falta, até agora, não é
diagnóstico; é consenso.
A discussão europeia destaca que crescimento
sustentável não nasce de iniciativas isoladas, mas de projetos mobilizadores,
ancorados em princípios que atravessam governos. Draghi e a LSE convergem para
três pilares essenciais: 1) estabilidade institucional e regulatória; 2) agenda
contínua de produtividade, tecnologia e inovação; 3) investimentos estratégicos
com governança sólida —um foco seria a área de defesa.
Nada disso ocorre de forma espontânea. São
escolhas políticas, baseadas em maturidade institucional, capacidade de
financiamento, articuladas por lideranças comprometidas com uma visão de
futuro.
O Brasil precisa construir um movimento
semelhante. Isso exige definir um núcleo mínimo de objetivos nacionais,
reconhecidos pela sociedade como indispensáveis, com métricas claras: elevar a
produtividade; aumentar a previsibilidade no ambiente de negócios; simplificar
regulações e reduzir o custo de investir; modernizar o Estado; qualificar a
força de trabalho para uma economia digital; e aprofundar nossa inserção no
comércio internacional. Atualizar o desenho de programas em função das
dinâmicas sociais, especialmente a demografia, aprofundando as políticas em
segurança pública.
Países que superaram a armadilha da renda
média fizeram isso com continuidade, clareza de prioridades, compromissos
institucionais duradouros e avaliação de resultados. Não há outro caminho. Sem
esse tipo de convergência, a política se reduz a disputas sobre meios, enquanto
o país segue sem discutir os fins.
A sociedade —trabalhadores, empresas,
academia, governos— precisa voltar ao centro desse debate. O Brasil já
construiu consensos importantes para combater a inflação, que nos seus piores
momentos parecia ser um problema sem solução. É possível construir diretrizes
para desenvolver o país.
Crescer exige uma agenda institucional
consistente, capaz de reduzir incerteza, trazer de volta o equilíbrio fiscal,
elevar a produtividade, atrair poderes e instituições, reconectar o Brasil ao
futuro. E fazer brilhar os olhos dos jovens quando mirarem suas oportunidades e
o seu próprio país.
Crescer é fazer escolhas e construir
consensos para avançar. Se não dermos conta, continuaremos alternando avanços
pontuais com retrocessos frequentes, enquanto desperdiçamos oportunidades
históricas.
É preciso ter senso de urgência para
progredir.
*Economista-chefe do Santander Brasil

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