O Estado de S. Paulo
Trump elevou de 25% para 50% a tarifa sobre a Índia por causa da importação do petróleo russo
A fragilidade da ordem mundial se tornou
ainda mais evidente nos últimos dias, com as tensões entre China e Japão e os
obstáculos a um cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia. O Brasil importa 90% dos
fertilizantes que consome, dos quais 25% vêm da Rússia e 20% da China.
Estudo do Insper Agro Global lista os riscos comerciais, geopolíticos e logísticos dessa dependência. O Brasil, cuja economia é fortemente impulsionada pelo agronegócio, responde por 23% das importações mundiais de fertilizantes. Dessa maneira, a economia fica exposta às variações de preços, que dependem diretamente do custo do gás e do carvão. De 2020 para cá, a energia subiu 105% e os fertilizantes, 129%.
Donald Trump deixou claro que não pretende exercer a deterrência americana à projeção de poder da China no Leste Asiático e no Indo-Pacífico, elevando o risco de conflitos armados. Depois de conversar com Xi Jinping, Trump exigiu que a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, recuasse em sua ameaça de defender Taiwan contra uma invasão chinesa. Trump justificou que não queria que a atitude atrapalhasse seus planos de retomar a venda de soja para a China. Um eventual conflito pode interromper o fornecimento dos fertilizantes chineses. Igualmente, a eventual frustração de Trump em obter o cessar-fogo pode resultar em sanções contra países importadores de produtos russos.
Trump elevou de 25% para 50% a tarifa sobre a
Índia por causa da importação do petróleo russo e citou a possibilidade de
fazer o mesmo com o Brasil. Cerca de 45% dos fertilizantes chegam pelos portos
de Santos e Paranaguá. Mato Grosso, o maior importador, fica a mais de 2 mil km
desses portos.
De 2000 a 2024, as importações brasileiras de
nitrogênio russo caíram de 40% para 21% e de fósforo, de 49% para 30% – dois
dos principais macronutrientes primários do complexo de fertilizantes. O Brasil
precisa continuar se deslocando para fornecedores menos problemáticos, como
Holanda, Alemanha, Espanha, Noruega, Chile e Bolívia, embora os contratos sejam
de até três anos.
No prazo mais longo, o estudo recomenda
parcerias público-privadas e atrair investimentos para a produção local. Com um
benefício adicional: a produção de fertilizantes organominerais, mais adequados
ao solo tropical. A meta do Plano Nacional de Fertilizantes é reduzir a
dependência para 45% até 2050. A questão se conecta com outra frente
estratégica: quando se extrai fosfato, por exemplo, vêm junto terras raras. É
hora de o Brasil pensar no interesse nacional, acima de disputas mesquinhas.

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