O Globo
Aliados começam a semear a ideia de convencer
governador a se candidatar sem o apoio do ex-presidente
‘Se for o Macaco Tião contra Lula, eu prefiro
o Macaco Tião.’ Com a frase, o deputado Eduardo Bolsonaro, líder do
bolsonarismo selvagem, reiterou ontem o que havia dito dias antes em entrevista
ao UOL: não descarta apoiar uma eventual candidatura do governador Tarcísio de
Freitas ao Planalto, ainda que no contexto de um segundo turno.
— Se o Tarcísio for esse candidato [contra
Lula], a gente vai acabar falando, sim, de Tarcísio de Freitas — disse.
Ninguém arrisca um pão com leite condensado
na garantia de que a afirmação do deputado se sustentará. Mas merece atenção
ela ter sido feita num momento em que uma conjuntura inédita se desenha.
De um lado, pesquisas mostram o arrefecimento do apoio popular a Jair Bolsonaro, definitivamente preso e reduzido de Mito a “seu Jair” — por obra da delicadeza de uma policial penal que, ao analisar a calcinada tornozeleira eletrônica do ex-presidente, dirigiu-lhe o tratamento benevolente que se costuma dar a pessoas idosas e frágeis quando fazem algo que não deveriam. Do lado de Tarcísio, o vetor aponta para a direção oposta. Em fase animada, ele retoma suas falas de presidenciável e prospecta cenários para avaliar que nome daria um bom vice.
Mais que isso, aliados próximos, encorajados
pelo enfraquecimento do bolsonarismo, começam a semear a ideia de convencer o
governador a se candidatar sem o apoio de Bolsonaro. A hipótese de Tarcísio
concorrer independentemente do apadrinhamento do ex-presidente, avalia um
estrategista da oposição, lhe permitiria agregar a bandeira do antipetismo sem
carregar a rejeição do bolsonarismo, hoje com não mais que 13% de apoio
popular, segundo os últimos monitoramentos. Apesar da reiterada “lealdade”
sempre evocada por Tarcísio em relação ao ex-presidente de quem foi ministro e
afilhado político, gente que convive com ele cogita que o governador, um
engenheiro que se define como “nerd”, poderia analisar a alternativa da
tentativa presidencial independente de Bolsonaro de um ponto de vista
pragmático: a partir dos números das pesquisas.
O tempo corre contra uma candidatura
Tarcísio, e a erosão já é visível. O jantar de agosto, em que próceres da
oposição se reuniram em Brasília para firmar o que foi anunciado como “pacto
informal” em torno do governador, hoje é uma fotografia na parede. O presidente
do PP, Ciro Nogueira, foi o primeiro a jogar a toalha. O senador e líder do
Centrão, que chegou a visitar Bolsonaro várias vezes na prisão domiciliar com o
intuito de arrancar dele uma declaração de apoio a Tarcísio, hoje mal pode
ouvir falar no governador. A separar os dois políticos estão incompatibilidades
e desconfianças mútuas.
Outro cacique que já esteve mais próximo de
Tarcísio é Valdemar Costa Neto. O presidente do PL, que chegou a cobrar
publicamente o ingresso do governador na sigla, hoje, com Flávio Bolsonaro se
movimentando em direção à própria candidatura, tomou distância dele. O que não
mudou desde que direita e centro-direita alinhavam-se sorridentes ao lado do
governador de São Paulo é, até o momento, Lula continuar sem um opositor. E, a
despeito dos reveses que o petista vem sofrendo no Congresso, sua máquina de
campanha segue em ritmo acelerado.
Dela, saiu nesta semana uma notícia que acendeu o alerta vermelho entre estrategistas da oposição: o candidato Lula deve mesmo incluir, entre suas promessas de palanque, nacionalizar a tarifa zero para o transporte de ônibus. A ideia de oferecer ônibus grátis a todos os brasileiros, na visão de dois marqueteiros e um pesquisador experiente, fala diretamente ao segmento de indecisos que promete ser decisivo nesta eleição. Para esses especialistas, se Lula conseguir fazer sua aprovação superar em alguns pontos a rejeição, hoje em torno de 53%, fica perto da vitória. E, nesse caso, não importa quem seja o Macaco Tião.

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