sábado, 29 de novembro de 2025

Bolsonarismo arrefece, e aliados já cogitam Tarcísio sem Bolsonaro, por Thaís Oyama

O Globo

Aliados começam a semear a ideia de convencer governador a se candidatar sem o apoio do ex-presidente

‘Se for o Macaco Tião contra Lula, eu prefiro o Macaco Tião.’ Com a frase, o deputado Eduardo Bolsonaro, líder do bolsonarismo selvagem, reiterou ontem o que havia dito dias antes em entrevista ao UOL: não descarta apoiar uma eventual candidatura do governador Tarcísio de Freitas ao Planalto, ainda que no contexto de um segundo turno.

— Se o Tarcísio for esse candidato [contra Lula], a gente vai acabar falando, sim, de Tarcísio de Freitas — disse.

Ninguém arrisca um pão com leite condensado na garantia de que a afirmação do deputado se sustentará. Mas merece atenção ela ter sido feita num momento em que uma conjuntura inédita se desenha.

De um lado, pesquisas mostram o arrefecimento do apoio popular a Jair Bolsonaro, definitivamente preso e reduzido de Mito a “seu Jair” — por obra da delicadeza de uma policial penal que, ao analisar a calcinada tornozeleira eletrônica do ex-presidente, dirigiu-lhe o tratamento benevolente que se costuma dar a pessoas idosas e frágeis quando fazem algo que não deveriam. Do lado de Tarcísio, o vetor aponta para a direção oposta. Em fase animada, ele retoma suas falas de presidenciável e prospecta cenários para avaliar que nome daria um bom vice.

Mais que isso, aliados próximos, encorajados pelo enfraquecimento do bolsonarismo, começam a semear a ideia de convencer o governador a se candidatar sem o apoio de Bolsonaro. A hipótese de Tarcísio concorrer independentemente do apadrinhamento do ex-presidente, avalia um estrategista da oposição, lhe permitiria agregar a bandeira do antipetismo sem carregar a rejeição do bolsonarismo, hoje com não mais que 13% de apoio popular, segundo os últimos monitoramentos. Apesar da reiterada “lealdade” sempre evocada por Tarcísio em relação ao ex-presidente de quem foi ministro e afilhado político, gente que convive com ele cogita que o governador, um engenheiro que se define como “nerd”, poderia analisar a alternativa da tentativa presidencial independente de Bolsonaro de um ponto de vista pragmático: a partir dos números das pesquisas.

O tempo corre contra uma candidatura Tarcísio, e a erosão já é visível. O jantar de agosto, em que próceres da oposição se reuniram em Brasília para firmar o que foi anunciado como “pacto informal” em torno do governador, hoje é uma fotografia na parede. O presidente do PP, Ciro Nogueira, foi o primeiro a jogar a toalha. O senador e líder do Centrão, que chegou a visitar Bolsonaro várias vezes na prisão domiciliar com o intuito de arrancar dele uma declaração de apoio a Tarcísio, hoje mal pode ouvir falar no governador. A separar os dois políticos estão incompatibilidades e desconfianças mútuas.

Outro cacique que já esteve mais próximo de Tarcísio é Valdemar Costa Neto. O presidente do PL, que chegou a cobrar publicamente o ingresso do governador na sigla, hoje, com Flávio Bolsonaro se movimentando em direção à própria candidatura, tomou distância dele. O que não mudou desde que direita e centro-direita alinhavam-se sorridentes ao lado do governador de São Paulo é, até o momento, Lula continuar sem um opositor. E, a despeito dos reveses que o petista vem sofrendo no Congresso, sua máquina de campanha segue em ritmo acelerado.

Dela, saiu nesta semana uma notícia que acendeu o alerta vermelho entre estrategistas da oposição: o candidato Lula deve mesmo incluir, entre suas promessas de palanque, nacionalizar a tarifa zero para o transporte de ônibus. A ideia de oferecer ônibus grátis a todos os brasileiros, na visão de dois marqueteiros e um pesquisador experiente, fala diretamente ao segmento de indecisos que promete ser decisivo nesta eleição. Para esses especialistas, se Lula conseguir fazer sua aprovação superar em alguns pontos a rejeição, hoje em torno de 53%, fica perto da vitória. E, nesse caso, não importa quem seja o Macaco Tião.

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