O Globo
Se Toffoli resolver jantar num restaurante,
arrisca ouvir adjetivos bem menos jurídicos que no passado
Dias Toffoli foi passar uns dias de descanso num resort de luxo na Argentina. Dado que as últimas notícias sobre o ministro do STF envolvem justamente um resort de luxo no Brasil, onde ele desfruta confortos de toda espécie, a escolha do magistrado pode ter sido motivada por duas razões: 1) ele gosta muito de resorts e se interessa também por conhecer estabelecimentos do gênero mundo afora; 2) ele buscou um refúgio fora do país para se proteger da vista de seus conterrâneos, dado que seu nome aparece no noticiário dia sim e outro também, cada vez sob luz pior.
O impulso da fuga seria compreensível.
Diversos ministros do STF foram publicamente hostilizados ou passaram por
constrangimentos nos momentos em que seus nomes estiveram em evidência. Gilmar
Mendes, Alexandre de Moraes e Cármen
Lúcia foram alguns. O muro da casa de Cármen chegou a ser pichado, e
Moraes foi ofendido num aeroporto de Roma aos gritos de “comunista” e “fraudador
de eleições”. Mas em todos esses lamentáveis episódios, os agressores, ainda
que de forma incivilizada, eram movidos pela crítica a posturas jurídicas dos
magistrados — que eles, bem ou mal, podiam sustentar de cabeça erguida.
Hoje, no entanto, o STF tem dois ministros
cujos nomes, incluindo Moraes, estão ligados a um dos maiores escândalos
recentes — de natureza financeira. A Folha de S.Paulo já havia mostrado que
dois irmãos de Toffoli constaram como sócios de um fundo de investimentos
ligado ao Master no resort que ele frequenta — de modo tão assíduo a ponto de
ser identificado por funcionários como o próprio dono do estabelecimento. Nesta
semana, o Estado de S.Paulo revelou que a sede da empresa dos irmãos Toffoli é
a casa bastante modesta de um deles, cuja mulher disse desconhecer que o marido
teve um resort. A notícia espalhou um cheiro de laranja no ar, além da certeza
de que, se Toffoli resolver jantar num restaurante, arrisca ouvir adjetivos bem
menos jurídicos que no passado. Na prática, isso dificilmente acontecerá — a
atual reputação dele, assim como a de Moraes, impossibilita que desfrute
prazeres comezinhos como sair para comer uma pizza sábado à noite.
A possibilidade de frequentar espaços
públicos sem constrangimentos sempre foi marcador da honra — conceito que
Aristóteles trata como “bem externo”. Diferentemente da virtude — um “bem
interno”, que alguém tem ou não tem —, a honra é um conceito atribuído,
resultado da percepção social, fundamentada ou não, de que seu portador é
dotado de excelência moral e intelectual.
Do mesmo modo, a desonra significa a perda
dessa percepção. Para revertê-la, o atingido tem de erguer a voz para se
defender com argumentos convincentes. Como nem Toffoli nem Moraes fizeram isso
até agora, a desonra, como percepção pública, continuará a persegui-los à
medida que avançarem as suspeitas sobre suas condutas. Mas, se Toffoli sempre
terá um resort novo para se refugiar e Moraes pode continuar voando em jatos da
FAB, o STF não tem onde se esconder.
Vai daí que merece condolências a nota
divulgada pela Corte na quinta-feira, assinada por seu presidente, Edson
Fachin. No texto, Fachin sugere que o STF defenderá a permanência de
Toffoli na relatoria do inquérito do Master e sai culpando Deus, o mundo e os
mensageiros pela situação deplorável em que se encontra a instituição — segundo
o texto, alvo de “interesses escusos e projetos de poder”. Antes disso, Fachin
afirma que o colegiado do STF passará a se debruçar sobre “eventuais vícios ou
irregularidades” de seus membros, passado o recesso judiciário. Sendo esse o
único trecho auspicioso da nota, deseja-se que seja também autêntico — e
traduza a consciência de Fachin de que uma Corte forçada a andar de cabeça
baixa, assim como um ministro caído em desgraça, arrisca desmoralizar muito
mais que a si própria.

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