O Globo
O que era sugerido na campanha, e
subentendido no discurso de posse, agora é repetido para o público interno em
púlpito internacional
Um ano depois de assumir o segundo mandato à frente da Casa Branca, o racismo de Donald Trump nem sequer ousa esconder seu nome. O supremacismo branco, sempre evidente, tornou-se escancarado. O que era sugerido na campanha presidencial, e subentendido no discurso de posse, agora é repetido para o público interno em púlpito internacional. Apenas nesta semana, por duas vezes, uma na sede do governo, em Washington, outra no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), o mandatário dos Estados Unidos abusou de frases depreciativas a imigrantes, em particular aos somalis, novos alvos da tática trumpista de semear na própria base eleitoral a aversão a estrangeiros.
Trump expressa sem pudor a aversão a negros
pelo menos desde os anos 1980. A quem duvida, recomendo assistir a “Olhos que
condenam” (Netflix, 2019). A série dirigida por Ava DuVernay reconstitui a
destruição da vida de cinco adolescentes do Harlem — quatro negros, um latino
—, acusados injustamente de estuprar e quase matar uma jovem branca no Central
Park em 1989. Mesmo com lacunas na acusação, depoimentos forçados e exames de
DNA não coincidentes com material recolhido na cena do crime, Antron McCray,
Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana e Korey Wise foram condenados.
Passaram de seis a 13 anos na prisão, até um estuprador em série confessar o
crime. Foram inocentados em 2002 e, 12 anos depois, indenizados em US$ 41
milhões.
Onze dias depois do ataque à corredora, o
magnata Donald Trump publicou anúncio de página inteira em quatro jornais
nova-iorquinos defendendo a pena de morte para os suspeitos. O episódio, que
atiçou a opinião pública à época, retornou durante a disputa presidencial
contra a democrata Kamala Harris em 2024. Num debate, o republicano mentiu
dizendo que os jovens “mataram uma mulher e confessaram o crime”.
A campanha de Trump pelo segundo mandato foi
pontuada por acusações indevidas e ofensas a estrangeiros, na cruzada
anti-imigração que seduziu parte do eleitorado americano. Em defesa da política
de deportações em massa que pôs em prática tão logo voltou à Presidência, Trump
repetia em comícios, entrevistas e debates que países enviam aos Estados Unidos
traficantes, estupradores, criminosos e doentes mentais, numa deliberada
iniciativa de criminalizar estrangeiros.
Fez da Venezuela, sob a ditadura de Nicolás
Maduro — ora preso em Nova York, após a invasão do país e sequestro pelos
Estados Unidos —, alvo preferencial. Depois de atos em território americano
pela soberania da nação violada, disse que os manifestantes eram “os mais
feios” que já viu. Coisa de quem nunca se olhou no espelho. Nos últimos dias,
voltou para cidadãos da Somália a artilharia racista. Em Davos, acusou somalis
de fraudar US$ 19 bilhões em benefícios sociais. Como criminalizar não basta,
repetiu estereótipos do racismo científico do século XIX, que destituíam de
inteligência negros africanos e descendentes:
— Eles se mostraram mais inteligentes do que
pensávamos. Eu sempre digo que essas pessoas têm um QI baixo. Como é que eles
conseguem entrar em Minnesota e roubar todo esse dinheiro — indagou a uma
plateia silenciosa, espera-se, por perplexidade.
À Europa, disse que “o Ocidente não pode
importar em massa culturas estrangeiras que jamais conseguiram construir uma
sociedade bem-sucedida por si só”. A referência ao estado de Minnesota se deveu
à onda de manifestações que emergiu na cidade de Minneapolis depois da execução
de Renée Nicole Good, cidadã americana, 37 anos, mãe de três filhos, por um
agente do ICE, a milícia trumpista de perseguição e deportação de imigrantes.
Pesquisa do New York Times nesta semana mostrou que dois terços dos americanos
desaprovam as ações da agência. Diante da reprovação galopante das operações,
cada vez mais violentas e arbitrárias, o presidente e seu vice, J.D. Vance,
escolheram dobrar a aposta na criminalização e desumanização de estrangeiros.
Confiantes no mandato que receberam da figura
política mais poderosa do planeta, os agentes, rostos cobertos, armas em punho,
fazem abordagens cada vez mais abusivas. Entram em empresas, lavouras, igrejas.
Ainda ontem, tornou-se público que foram autorizados a usar a força e entrar em
residências sem mandado judicial, numa escalada que desidrata uma democracia
que se presumia forte.
Anteontem, o menino Liam Conejo Ramos, de 5
anos, foi levado com o pai por agentes federais de Minnesota para uma unidade
do ICE no Texas. A criança, de origem equatoriana, voltava da pré-escola,
quando foi retirada de dentro do carro da família, que fizera pedido formal de
asilo nos Estados Unidos. O registro do menino assustado, mochila nas costas,
encasacado, touca de lã do personagem Stich, conduzido por um agente fardado,
como se criminoso fosse, correu o mundo. É imagem que redime a vítima, expõe o
algoz. Há de chegar o dia em que todos enxergarão.

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