sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A encruzilhada da democracia: entre a apatia e a ação. Por Ricardo Henriques

Folha de S. Paulo

Democracias não morrem apenas de golpe de Estado, embora tentativas continuem acontecendo

Elas sucumbem sufocadas pela indiferença de uma população que deixa de acreditar no voto e pela incapacidade de líderes de entregar soluções

democracia não morre apenas de golpe de Estado. Levitsky e Way argumentam em "Competitive Authoritarianism: Hybrid Regimes After the Cold War" que sua derrocada nem mais prescinde desse ato, muito embora, como testemunhamos há pouco, golpes continuem a ser tramados e executados.

A democracia sucumbe lentamente, sufocada pela indiferença de uma população que deixa de acreditar que o voto muda algo e pela incapacidade de seus líderes de entregar soluções para os problemas que mais importam. Vivemos esse momento.

Apesar de o mundo ter registrado recorde de eleições em 2024, com mais de 50% da população global indo às urnas, a democracia global atingiu seu mais baixo índice de vitalidade desde 2006, segundo o Democracy Index da EIU (Economist Intelligence Unit). É o resultado de três fatores interligados que ameaçam as fundações de nossas sociedades abertas.

O primeiro, e mais visível, é o crescimento de forças políticas abertamente autoritárias. Sob a retórica da liberdade, esses movimentos contestam direitos e sabotam o exercício das instituições para que funcionem como democráticas apenas por aparência.

Ainda segundo a EIU, 39% da população mundial vive sob regimes autoritários, e o número de países nessa categoria subiu para 60. Na América Latina, embora o apoio à democracia tenha mostrado leve recuperação, chegando a 52%, um preocupante contingente de 25% da população se declara indiferente ao regime político, como aponta o relatório anual Latinobarómetro 2024. Esse é um terreno fértil para o autoritarismo.

Isso nos leva ao segundo fator: a crescente incapacidade das democracias de entregar o que prometem. Como bem já apontou a cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, a persistência da pobreza e da profunda desigualdade social corrói a adesão ao projeto democrático.

François Dubet, no livro "O Tempo das Paixões Tristes", também alerta para o processo de individualização das desigualdades, com a ampliação dos ressentimentos e das frustrações, capturada por movimentos autoritários. Quando o sistema político falha em proteger direitos, sobretudo de grupos vulnerabilizados, e em gerar prosperidade compartilhada, perde legitimidade. A democracia não pode ser apenas um ideal abstrato. Ela precisa se traduzir em melhorias concretas na vida das pessoas.

Por fim, o terceiro fator é a baixa ambição dos próprios grupos democráticos. Suas propostas, muitas vezes reativas e fragmentadas, não inspiram a sociedade a se preparar para as transformações monumentais em curso. Eles hesitam, às vezes por falso pragmatismo, em estabelecer níveis desafiadores de progresso para todos, de forma inclusiva, plural, criativa e dinâmica.

Desafios como a transição demográfica (que redesenha o perfil de nossas populações e pressiona os sistemas de proteção social), a revolução tecnológica (que concentra poder e riqueza de formas inéditas), e a emergência climática (que exige reestruturação de nosso modelo de desenvolvimento) demandam visão de futuro e capacidade de ação potente e ambiciosa, ausentes hoje no repertório mobilizado pelas forças progressistas e democráticas.

A encruzilhada em que nos encontramos é clara, mas não intransponível. A democracia ainda respira, resiste e oferece a possibilidade de mudança pacífica e consensual. Mas para que não seja apenas resiliente —e para que seja verdadeiramente transformadora— precisamos reconhecer que o problema não é externo. Ele está na nossa incapacidade de construir políticas públicas robustas e inclusivas, que entreguem direitos e oportunidades.

O problema está na falta de ambição em preparar as sociedades para os desafios do século 21. E está, sobretudo, na resignação diante do óbvio: que um regime autoritário é, por definição, incapaz de oferecer as respostas complexas e colaborativas que um mundo em transformação exige. A democracia não precisa de salvadores, mas de cidadãos e líderes dispostos a fazer o trabalho árduo de construir um futuro mais justo e sustentável. Ainda há tempo. A pergunta é: teremos a coragem de tentar?

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