sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Venezuelanos querem sonhar, mas ataque de Trump pode ser nova fase de longo pesadelo. Por Ana Luiza Albuquerque

Folha de S. Paulo

Base de dados de pesquisadores norte-americanos indica que derrubadas forçadas de regimes autoritários só resultaram em um processo de democratização em 20% das vezes

É possível que, caso aceite o papel de fantoche do presidente dos EUA, Delcy Rodríguez tenha liberdade para manter a ditadura da forma que lhe convier

Venezuelanos exilados comemoraram o ataque dos Estados Unidos que tirou do poder o ditador Nicolás Maduro. Dizem estar cientes de que Donald Trump está mais interessado no petróleo do que na democracia. Ainda assim, acreditam, nada pode ser pior do que Maduro, e agora há, ao menos, uma chance de recuperar suas liberdades políticas e civis.

O desespero é perfeitamente compreensível. Notas de repúdio não derrubam ditadores, e os venezuelanos acabaram isolados nessa quase impossível empreitada (sem falar no apoio de setores da esquerda latino-americana ao regime). Ainda assim, as demais nações não podem aceitar uma violação tão explícita e destemida do direito internacional —especialmente quando Trump ameaça outros territórios.

Dito isto, a esperança venezuelana de um retorno à democracia pode não se concretizar. Entre 1946 e 2014, derrubadas forçadas de regimes autoritários, inclusive por imposição estrangeira, só resultaram em um processo de democratização em 20% das vezes. Ao mesmo tempo, nem sempre o regime cai quando o líder cai. Isso aconteceu em metade dos casos quando um golpe derrubou o número 1.

Os dados foram levantados pelos cientistas políticos norte-americanos Erica Frantz, Barbara Geddes e Joseph Wright.

O histórico de invasões pelos Estados Unidos, por sua vez, testemunha contra o argumento de que nada pode ser pior do que Maduro —a guerra do Iraque, por exemplo, abriu caminho para a ascensão do Estado Islâmico.

Está claro que o bem dos venezuelanos não é prioridade para Trump. Diferentemente de seus antecessores, que se preocupavam com as aparências, ele deixou claro que seu interesse é o petróleo (e fazer frente a China e Rússia no continente que considera seu quintal). Descartou a opositora María Corina Machado e chancelou a continuidade, ao menos por ora, da vice-líder do regime, Delcy Rodríguez.

A ditadura segue de pé com a elite política e os militares. Ainda não é certo se a tutela norte-americana levará ao retorno de exilados ou à libertação de presos políticos, como anunciou o regime nesta quinta-feira (8). O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, também promete um plano de transição.

Ao contrário, também é possível que o ataque tenha dado à ditadura mais estabilidade, com o apoio dos Estados Unidos, e uma desculpa para apertar a repressão, como ocorreu com a recente prisão de jornalistas. Pode ser que, caso aceite o papel de fantoche de Trump, Delcy tenha autonomia para manter o regime da forma que lhe convier.

Também pode ocorrer que a relação dê errado e que núcleos chavistas passem a disputar o poder, aumentando a instabilidade na região.

Certa vez, conversei com um ativista venezuelano que havia passado dois anos como preso político em La Tumba, uma prisão aterrorizante abaixo do solo, em Caracas. Ele me disse que, naquela época, tinha medo de sonhar. Quando dormia, encontrava sua família e seus amigos. Ao abrir os olhos, o peso da realidade o sufocava.

Os venezuelanos querem —e merecem— finalmente sonhar. A invasão norte-americana, porém, pode ser apenas uma nova fase de um longo pesadelo.

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