Folha de S. Paulo
Base de dados de pesquisadores
norte-americanos indica que derrubadas forçadas de regimes autoritários só
resultaram em um processo de democratização em 20% das vezes
É possível que, caso aceite o papel de
fantoche do presidente dos EUA, Delcy Rodríguez tenha liberdade para manter a
ditadura da forma que lhe convier
Venezuelanos exilados comemoraram o ataque
dos Estados Unidos que tirou do poder o ditador Nicolás Maduro. Dizem
estar cientes de que Donald Trump está
mais interessado no petróleo do
que na democracia. Ainda assim, acreditam, nada pode ser pior do que
Maduro, e agora há, ao menos, uma chance de recuperar suas liberdades políticas
e civis.
O desespero é perfeitamente compreensível. Notas de repúdio não derrubam ditadores, e os venezuelanos acabaram isolados nessa quase impossível empreitada (sem falar no apoio de setores da esquerda latino-americana ao regime). Ainda assim, as demais nações não podem aceitar uma violação tão explícita e destemida do direito internacional —especialmente quando Trump ameaça outros territórios.
Dito isto, a esperança venezuelana de um retorno
à democracia pode não se concretizar. Entre 1946 e 2014, derrubadas
forçadas de regimes autoritários, inclusive por imposição estrangeira, só
resultaram em um processo de democratização em 20% das vezes. Ao mesmo tempo,
nem sempre o regime cai quando o líder cai. Isso aconteceu em metade dos casos
quando um golpe derrubou o número 1.
Os dados foram levantados pelos cientistas políticos
norte-americanos Erica Frantz, Barbara Geddes e Joseph Wright.
O histórico de invasões pelos Estados Unidos,
por sua vez, testemunha contra o argumento de que nada pode ser pior do que
Maduro —a guerra do Iraque, por exemplo, abriu caminho para a ascensão
do Estado Islâmico.
Está claro que o bem dos venezuelanos não é
prioridade para Trump. Diferentemente de seus antecessores, que se preocupavam
com as aparências, ele deixou claro que seu interesse é o petróleo (e fazer
frente a China e Rússia no continente que considera seu quintal). Descartou a
opositora María Corina Machado e chancelou
a continuidade, ao menos por ora, da vice-líder do regime, Delcy
Rodríguez.
A
ditadura segue de pé com a elite política e os militares. Ainda não é
certo se a tutela norte-americana levará ao retorno de exilados ou à libertação
de presos políticos, como anunciou o regime nesta quinta-feira (8). O
secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, também promete um plano
de transição.
Ao contrário, também é possível que o ataque
tenha dado à ditadura mais estabilidade, com o apoio dos Estados Unidos, e uma
desculpa para apertar
a repressão, como ocorreu com a recente prisão de jornalistas. Pode ser
que, caso aceite o papel de fantoche de Trump, Delcy tenha autonomia para
manter o regime da forma que lhe convier.
Também pode ocorrer que a relação dê errado e
que núcleos chavistas passem a disputar o poder, aumentando a instabilidade na
região.
Certa vez, conversei
com um ativista venezuelano que havia passado dois anos como preso
político em La Tumba, uma prisão aterrorizante abaixo do solo, em Caracas. Ele
me disse que, naquela época, tinha medo de sonhar. Quando dormia, encontrava
sua família e seus amigos. Ao abrir os olhos, o peso da realidade o sufocava.
Os venezuelanos querem —e merecem— finalmente sonhar. A invasão norte-americana, porém, pode ser apenas uma nova fase de um longo pesadelo.

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