O Estado de S. Paulo
O método da humilhação espetacular explicita o caráter fascista do trumpismo
A União Europeia é a nova vítima do método da humilhação espetacular empregado pelo governo Trump como arma de guerra simbólica. Pobre Europa. De repente, ela se viu submetida a um padecimento moral inédito, impensável. O bullying e o escárnio voltamse contra ela. A Casa Branca a insulta com tarifas e desaforos. O Reino Unido, aliado histórico do Tio Sam, não escapou. Keir Starmer, polidamente, chama de “erro” a postura agressiva e predatória dos Estados Unidos. Não fez nem cócegas no Pentágono.
Qual o motivo da vez? A Groenlândia. Trump
quer a Groenlândia para ele, só para ele. Ato contínuo, avolumamse agitações em
terra, mar e ar – árticos. Tropas aterrizam na imensa ilha até então calma e
fria, coberta de gelo manso. Inquietações eclodem no Atlântico Norte.
Atribulações fazem trepidar o continente. Emmanuel Macron, que não tem colírio,
usa óculos escuros. A desorientação destempera as relações, enquanto as velhas
referências, a exemplo do velho continente, vão se desmoralizando em andamentos
patéticos.
Estamos imersos num “mundo às avessas”, como
tão precisamente sintetizou o professor Celso Lafer, em artigo publicado aqui,
nesta mesma seção, Espaço Aberto, no domingo passado ( O mundo às avessas,
18/1, A4). O Direito Internacional, anota o articulista, passou a merecer nada
menos do que a “desconsideração”. De quem? Ora, isso nem é preciso dizer: quem
simplesmente desconsidera o Direito Internacional é ele, o presidente dos
Estados Unidos.
Os efeitos vêm em avalanche. A paz – ou aquela
ordem de assimetrias e sujeições a que costumávamos chamar de “paz” – corre
perigo. A democracia, babau. Donald Trump se comporta como criança fazendo
birra na frente de uma vitrine de brinquedos. Rola no chão, grita e estapeia a
calçada. “Eu quero a Venezuela! Eu quero a Groenlândia! Eu quero o Canadá!”. A
mãe a quem ele pede de presente a terra dos outros é uma entidade robótica,
feita de ferros retorcidos e luzes estroboscópicas, um transformer de cinema: a
mãe de Donald Trump é o monstro que atende pelo nome de arsenal nuclear.
Mas não coloquemos a mãe no meio, pois o meio está em outro lugar. Não adianta pedir socorro às cartilhas da psicanálise para tentar decifrar o que vem se passando. Do mesmo modo, são de pouco auxílio as convenções da geopolítica ou os manuais de economia. Tudo isso ajuda, por certo, mas não resolve. Também ajudam as categorias mais habituais da ciência política, mas apenas lateralmente, subsidiariamente. É evidente que Trump joga para a sua plateia doméstica quando faz o papel de Bruce Willis, mas a equação inteira só vai se abrir em outro plano, numa vastidão que se estende além da política, da economia e da geopolítica.
“Não se trata de uma transição, mas de uma
ruptura”, declarou o primeiro-ministro canadense Mark Carney, cujo país tem
sido continuamente jurado de anexação pelo vizinho do sul. Carney acerta nas
palavras, mas há mais a ser dito. Quem melhor descortina o enigma é o filósofo
Adauto Novaes. “Não se trata de uma crise”, ele vive nos lembrando. “Trata-se
de uma mutação”.
Nós só entenderemos as reais implicações da
“ruptura” ou da “mutação” se entendermos que o espetáculo, nos termos exatos em
que o descreveu o francês Guy Debord, açambarcou todas as pulsões do, vá lá, imperialismo
ianque. A política externa dos Estados Unidos é hoje escrava do espetáculo:
apenas manterá seu espaço se for capaz de gerar solavancos, sobressaltos e
choques passionais na opinião pública do planeta. Ela só consegue se tornar
visível e reconhecível à medida que saiba ser temível, e só pode ser temível à
medida que assusta, por meio de arroubos cada vez mais carregados, os vivos e
os mortos. Sim, os mortos morrem de medo da hecatombe da civilização. Depois da
guerra fria, a guerra dos calafrios, uma guerra que dizima os nossos mortos.
Se não aterrorizar o tempo todo, os Estados
Unidos do trumpismo cairão no declínio inelutável. O líder laranja, agônico,
faz birra diante da vitrine e produz tensões em doses mais e mais intensas. É
sua única maneira de anunciar o apocalipse.
O método de humilhação espetacular (que expus
aqui, nesta página, há duas semanas) se materializa como chantagem terrorista
ininterrupta. O roteiro não é de todo imprevisível, mas descreve movimentos
aleatórios, como roleta russa. Por sinal, Trump tem uma queda histérica por
medir-se com Putin. A qualquer pretexto, invoca e evoca artefatos atômicos na
sua retórica belicista. Quando a retórica vai se traduzir em gesto, mesmo que
controlado, medido, pontual, ainda não se sabe, mas é nessa direção que estamos
nos desencaminhando.
O método da humilhação espetacular, vale o
registro, explicita o caráter fascista do trumpismo. Em 1935, Karl Polanyi
advertiu que o fascismo era uma espécie de religião. O alerta permanece atual:
o fanatismo de extrema direita se vale do recurso da violência mais extrema
para atropelar a democracia para salvaguardar o capital. Se a ogiva nuclear é a
mãe de Donald Trump, seu pai é o capital. Nuvens pesadas e radioativas apontam
no horizonte.

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