quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Acordos contra a distopia americana. Por Míriam Leitão

O Globo

Apesar da judicialização na UE, Brasil mantém otimismo e amplia negociação do Mercosul com outros países como Canadá, Índia e Emirados Árabes

O Brasil decidiu manter a tramitação do acordo União Europeia–Mercosul o mais acelerada possível. O texto deve ser enviado ao Congresso em questão de dias. Isso apesar de o Parlamento Europeu ter decidido, ontem, levar o texto ao Tribunal de Justiça. Segundo o embaixador Philip Fox, da Secretaria de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty, a Corte normalmente demora 18 meses para dar seu veredito, mas a Comissão terá ainda que se posicionar quanto à decisão de enviar o acordo para a análise do Tribunal.

Em entrevista que me concedeu ontem na GloboNews, o embaixador disse que, apesar dessa judicialização, continua muito otimista em relação ao caminho escolhido pelo Brasil de negociar, em parceria com o Mercosul, acordos comerciais com países e blocos. Estão sendo negociados tratados com o Canadá, a Índia, os Emirados Árabes Unidos, o Vietnã e possivelmente o Japão.

— Esse acordo com a União Europeia é parte de um conjunto de negociações que estamos fazendo. Com o Canadá é a retomada de uma negociação que já vinha ocorrendo anos atrás e foi interrompida em 2021. Já tivemos seis ou sete rodadas amplas, em que foram discutidos diversos pontos. É um acordo complexo como é o da União Europeia. Vamos ter uma grande rodada negociadora agora, no fim de fevereiro, em Brasília, para retomar todos os grupos de trabalho. A nossa expectativa é que, no caso do Canadá, a gente possa, inclusive, tentar concluir este ano ainda, apesar da complexidade. O Canadá é uma grande prioridade que nós temos.

Essa conversa mostra o caminho pelo qual o Brasil quer ir. O de adensar suas relações e integração com outros países e regiões, num momento em que os Estados Unidos escalam a aposta unilateralista e de confronto. Ontem foi um dia de retrocesso, com a decisão do Parlamento Europeu de, com a diferença de apenas dez votos, levar o Acordo ao TJ para avaliar se algumas de suas cláusulas conflitam com normas da União Europeia. O fato, contudo, não surpreendeu o embaixador.

— Havia a possibilidade, havia um rumor forte. Na verdade, essa não foi a primeira tentativa de mandar o assunto para a Corte Europeia de Justiça, eles tentaram em outros momentos e não conseguiram. Agora, a questão principal de colocar em vigência é justamente passar no próprio parlamento. Então há a opinião legal da Corte, mas o principal é a votação no próprio parlamento. Os sinais que estão sendo emitidos são de que será uma votação apertada também, assim como foi apertado esse resultado de hoje. O parlamento está bastante dividido. Esse pode ser um complicador.

Logo depois desse claro recuo na vitória tão comemorada da assinatura no sábado, o mundo viu perplexo o show de disparates do presidente Donald Trump em Davos. Ele escancarou sua estratégia de ameaçar os parceiros que se oponham à sua proposta de ampliação territorial. Mentiu, fez afirmações sem nexo ou apoio na realidade, exibiu uma arrogância desmedida e em certos momentos pareceu delirar. Mais tarde, após reunião com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, disse que haviam chegado a uma estrutura de acordo sobre a Groenlândia e retirou as tarifas que havia imposto como pressão.

De todo esse tormento mental, há dois pontos a destacar: primeiro, que Trump continua exigindo “aquele pedaço de gelo”. Mesmo que tenha afirmado que não usará a força para anexar a Groenlândia, ele exibiu, em tom de ameaça, o seu poderio bélico. Segundo, o que ele falou sobre o Canadá, com o projeto de construir um domo dourado, ao dizer que “o Canadá só existe por nossa causa”.

A realidade com Trump supera as piores distopias. É neste contexto que cada país precisa se perguntar o que fazer. O primeiro-ministro do Canadá propôs que as potências médias negociem entre si. “Ou estarão à mesa ou serão o cardápio.” Para não ser engolido pelo poder imperial de Trump, o Brasil tem estado em várias mesas de negociação. Inclusive com o Canadá.

Dos acordos que estão sendo negociados pelo Mercosul, alguns são de preferências tarifárias. Outros, como o da União Europeia, são mais amplos, com cláusulas de direitos humanos, de defesa da democracia, de cooperação e de desenvolvimento sustentável. O Brasil se prepara também para a reunião em março, em Camarões, sobre a reforma da Organização Mundial do Comércio. O país continuará apostando em cooperação e multilateralismo, principalmente agora que o mundo vive o seu pior pesadelo desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

 

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