Folha de S. Paulo
O excesso de poder, ponto extremo de um
sistema, pode provocar a sua reversão; aconteceu com a Lava Jato
Depois de se deixar intimidar por um general
em cadeira de rodas, o Supremo cresceu e se impôs ao golpismo. Cresceu demais,
talvez
No fluxo e refluxo dos procedimentos do STF chamam a atenção atos incompatíveis com a expectativa pública de que o guardião das leis fundamentais da República seja também do zelo com a reputação própria. No latinório que doura a pílula jurídica, ele comprovaria o "argumentum ad verucundiam", isto é, a suposição de que se um magistrado decide sobre algo, sendo esse magistrado digno de crédito, então a decisão deve ser entendida como tal pelo comum de todos.
Os fatos costumam expor a armadilha retórica
embutida nessa falácia, reiterada em relatos procedentes de países como EUA
e Chile,
os mais recentes, onde juízes da Suprema Corte têm sido postos em suspeição. Só
entre outubro do ano passado e dezembro último, somam três os ministros chilenos
afastados de seus cargos, um deles pelos próprios colegas de tribunal.
Entre nós, os pedidos de impedimento de
juízes do STF partem geralmente da direita política, com foco em Alexandre de
Moraes. É que o ministro encarnou a força centrípeta de contenção do
golpismo. O imaginário social é ambivalente: desenha tanto a figura mítica do
"hombre" estilo Pancho Vila como a do xerife que pesa na mão,
suscitando dúvidas quanto à diferença entre autoridade e autoritarismo. Em
qualquer das hipóteses, porém, um ativo de fibra democrática.
Mas o excesso de poder, ponto extremo de um
sistema, pode provocar a sua reversão. Aconteceu com a Lava Jato, quando a
desmedida avassalou juiz e promotor, com as consequências reversivas que se
conhecem. Muito mais alto é o sarrafo de Moraes, mas suas bordoadas justiceiras
e depois o imbróglio do Banco Master abriram flancos ao denuncismo.
Há nisso tudo, entretanto, um fenômeno que
desborda a individualidade e que poderíamos chamar, economia à parte, de
mais-valia decisória. Mais-valia é um valor-excedente, correspondente ao
trabalho não pago, diretamente extraído dos trabalhadores (Karl Marx).
Na burocratização patrimonialista, as decisões essenciais são tomadas por
elites, que assim acumulam poder autocrático em detrimento da periferia
interna. Essa é a mais-valia decisória, expansiva num processo acumulativo
marcado pela inanição da democracia e da representação política.
O mais-decidir, apanágio elitista, comporta
graus diversos de exercício. O epíteto "super" está colado em Moraes,
desde que secretariou a prefeitura de Kassab. Sua imagem pública é a de homão,
sem salamaleques. Mas no Judiciário, há sempre o risco de que, na teia de
interesses, o cipoal de influências confunda o público com o privado. Mais do
que polvo com tentáculos, o Banco Master é água-viva com filamentos tóxicos, de
tal extensão que não se fica sabendo quem intoxicou ou enganou. Um escândalo de
proporções imensuráveis.
Com Bolsonaro, o Executivo tornou-se uma
caricatura decisória. O Parlamento, máquina de negócios e chantagens. Depois de
se deixar intimidar por um general em cadeira de rodas, o Supremo cresceu e se
impôs ao golpismo. Cresceu demais, talvez: esse é o contexto decisório que dá
margem a prepotências e atropelos do Direito. A toga mais visível é a de
Moraes, aparentemente por mais agir do que falar. Super-hombre?

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.