Desde o início, ele se comporta, no exercício da presidência americana, de maneira inconsequente e perigosa diante de um mundo à beira de precipícios que podem nos levar a caminhos de não retorno, frente à sua própria insensatez e às consequências do seu (des)governo diante da própria sociedade norte-americana e os seus reflexos na complexa realidade internacional, diante do protagonismo assustador do complexo industrial militar e nuclear ora existentes, considerando as atuais relações conflituosas dos Estados Unidos da América (EUA) com a União Europeia, a Rússia, a China e a América Latina, particularmente com a Venezuela.
A beligerância do Governo Trump, da “América
para os americanos”, volta aos perigosos tempos da “guerra fria”, quando a América
Latina era o espaço geopolítico dos EUA. Sabemos das consequências dessa
política para o continente americano, inclusive para o Brasil. Foram décadas de
horrores, com ditaduras fascistas impostas pelos EUA, como resposta frente ao “perigo
comunista”, sinalizado pela revolução cubana e a existência da ex-União Soviética.
Assim, são evidentes os retrocessos políticos
no cenário internacional ora em curso, com a ONU cada vez mais esvaziada,
frente à supremacia militar dos EUA em disputa com a Rússia e a China, com uma
preocupante subordinação da União Européia aos EUA, colocando em risco os princípios
da coexistência pacifica e da própria sustentabilidade humana no planeta.
Os Estados Unidos, o petróleo e a Venezuela
O sequestro de Nicolas Maduro e de Cilia
Flores, acompanhado pessoalmente pelo próprio Trump como se fora um game e toda
a pantomima midiática advinda da inconsequência deste ato anunciado globalmente,
deve e já está trazendo manifestações e posicionamentos da comunidade
internacional, das sociedades democráticas em defesa da autodeterminação dos
povos, do multilateralismo, em prol da democracia e da paz como fundamentos da
sustentabilidade do planeta.
O processo de preparação e o próprio
sequestro é uma demonstração inequívoca da supremacia militar norte-americana.
Trump deixa claro, ainda antes da invasão, que o objetivo do seu governo é
voltar a ter acesso e comercializar as reservas de petróleo venezuelanas, com participação
efetiva das empresas americanas, afrontando diretamente a Venezuela, os países
da América Latina e a comunidade internacional.
Neste contexto, sempre é bom lembrar os
acontecimentos históricos envolvendo os EUA, o mundo árabe, a própria Venezuela
e a indústria de petróleo. Recordar os acontecimentos no Iraque, de Saddam Hussein,
invadido pelos EUA, em 2003; a invasão americana na Líbia, de Kadafi, em 2011,
entre outras situações conhecidas, que tinham e continuam tendo como foco o
petróleo, a política e o poder.
Destacar ainda, em relação à indústria de
petróleo venezuelana, que a Venezuela teve um papel importante na fundação da Organização
dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), em 1960, quando fez importantes
mediações no mundo árabe com o objetivo de criá-la, sendo um dos seus países
fundadores.
Posteriormente, desde Hugo Chaves, a
Venezuela vem afrontando o acordo que os EUA fez, tendo à frente Henry
Kissinger, com a Arábia Saudita, em 1974, no contexto de aumento do preço do
petróleo pela OPEP. Desde então, a comercialização do petróleo vinha sendo
feita tendo como base o dólar americano, funcionando como moeda universal, criando
condições extraordinárias para o funcionamento da economia americana, dentro e
fora dos EUA. Considere-se ainda que a Venezuela, que tem a maior reserva petrolífera
do mundo, vem se aproximando, nos últimos anos, dos BRICKS, particularmente da
China e da Rússia, negociando com esses países nas suas respectivas moedas
nacionais, inclusive o próprio petróleo. Hoje, a China é o principal importador
de petróleo da Venezuela.
Assim, fica evidente que o petróleo é o fator
principal da beligerância do Governo Trump em relação à Venezuela. A questão
não é a defesa da democracia e nem o combate ao tráfico de drogas! A questão
central é política e econômica.
Finalmente, além da Venezuela, há que
registrar, desde o início do Governo Trump, o aumento dos conflitos dos EUA com
Cuba, Colômbia e Groelândia – afrontando a União Européia. Destaque-se ainda a
ampliação dos conflitos dos EUA com os BRICKS (1), além das ameaças tarifárias,
em andamento, que atingem a todos os países que comercializam com os Estados
Unidos, inclusive o Brasil.
O que mais pode acontecer?
A resposta a Donald Trump e aos seus aliados,
além do negócio petrolífero, é de afirmação dos valores universais que nos faz
humanidade: a autodeterminação dos povos, a defesa da democracia e do multilateralismo,
de acordo com a Carta da ONU e todas as outras Convenções Internacionais que
sejam contra o uso da força como política de Estado, no lugar da diplomacia e
do diálogo.
O comportamento da União Europeia, da China,
da Rússia, da América Latina, particularmente da Venezuela, e os acontecimentos
ora em curso na própria sociedade estadunidense, aliados às manifestações que
estão ocorrendo mundialmente, devem e podem impor limites ao Senhor Trump no
período que ainda tem para governar, em defesa do Estado de Direito, da
democracia e da autodeterminação dos povos.
Esperançamos que haja limite para a insensatez dos poderosos e que a ação política das sociedades democráticas, inclusive da própria sociedade norte-americana, com a cidadania nas ruas e nas redes sociais, seja em defesa da soberania nacional, da unidade das forças democráticas, impondo limites ao Senhor Trump, aos Senhores da Guerra, destruidores da democracia, das nossas esperanças, dos nossos valores culturais, econômicos, sociais e ambientais construídos na longa caminhada da humanidade até à atualidade.
1 - O BRICKS é uma aliança intergovernamental
composta por dez países de mercado emergente e foro político em relação ao seu
desenvolvimento econômico e político-social. Trata-se de um acrônimo da
língua inglesa que é geralmente traduzido como "os BRICS" ou
"países BRICS". O agrupamento começou com quatro países sob o
nome BRIC, reunindo Brasil, Rússia, India e China, e, em abril de
2011, o "S" foi acrescido com a admissão da África do Sul (do inglês: South
Africa) ao grupo.
*Dr.Sc., Diretor do Instituto Politécnico da Bahia.

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