domingo, 11 de janeiro de 2026

Trump, o petróleo e a defesa da democracia. Por George Gurgel de Oliveira*

É de espantar o comportamento do Senhor Donald Trump como presidente dos Estados Unidos da América.

Desde o início, ele se comporta, no exercício da presidência americana, de maneira inconsequente e perigosa diante de um mundo à beira de precipícios que podem nos levar a caminhos de não retorno, frente à sua própria insensatez e às consequências do seu (des)governo diante da própria sociedade norte-americana e os seus reflexos na complexa realidade internacional, diante do protagonismo assustador do complexo industrial militar e nuclear ora existentes, considerando as atuais relações conflituosas dos Estados Unidos da América (EUA) com a União Europeia, a Rússia, a China e a América Latina, particularmente com a Venezuela.

A beligerância do Governo Trump, da “América para os americanos”, volta aos perigosos tempos da “guerra fria”, quando a América Latina era o espaço geopolítico dos EUA. Sabemos das consequências dessa política para o continente americano, inclusive para o Brasil. Foram décadas de horrores, com ditaduras fascistas impostas pelos EUA, como resposta frente ao “perigo comunista”, sinalizado pela revolução cubana e a existência da ex-União Soviética.

Assim, são evidentes os retrocessos políticos no cenário internacional ora em curso, com a ONU cada vez mais esvaziada, frente à supremacia militar dos EUA em disputa com a Rússia e a China, com uma preocupante subordinação da União Européia aos EUA, colocando em risco os princípios da coexistência pacifica e da própria sustentabilidade humana no planeta.

Os Estados Unidos, o petróleo e a Venezuela

O sequestro de Nicolas Maduro e de Cilia Flores, acompanhado pessoalmente pelo próprio Trump como se fora um game e toda a pantomima midiática advinda da inconsequência deste ato anunciado globalmente, deve e já está trazendo manifestações e posicionamentos da comunidade internacional, das sociedades democráticas em defesa da autodeterminação dos povos, do multilateralismo, em prol da democracia e da paz como fundamentos da sustentabilidade do planeta.

O processo de preparação e o próprio sequestro é uma demonstração inequívoca da supremacia militar norte-americana. Trump deixa claro, ainda antes da invasão, que o objetivo do seu governo é voltar a ter acesso e comercializar as reservas de petróleo venezuelanas, com participação efetiva das empresas americanas, afrontando diretamente a Venezuela, os países da América Latina e a comunidade internacional.

Neste contexto, sempre é bom lembrar os acontecimentos históricos envolvendo os EUA, o mundo árabe, a própria Venezuela e a indústria de petróleo. Recordar os acontecimentos no Iraque, de Saddam Hussein, invadido pelos EUA, em 2003; a invasão americana na Líbia, de Kadafi, em 2011, entre outras situações conhecidas, que tinham e continuam tendo como foco o petróleo, a política e o poder.

Destacar ainda, em relação à indústria de petróleo venezuelana, que a Venezuela teve um papel importante na fundação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), em 1960, quando fez importantes mediações no mundo árabe com o objetivo de criá-la, sendo um dos seus países fundadores.

Posteriormente, desde Hugo Chaves, a Venezuela vem afrontando o acordo que os EUA fez, tendo à frente Henry Kissinger, com a Arábia Saudita, em 1974, no contexto de aumento do preço do petróleo pela OPEP. Desde então, a comercialização do petróleo vinha sendo feita tendo como base o dólar americano, funcionando como moeda universal, criando condições extraordinárias para o funcionamento da economia americana, dentro e fora dos EUA. Considere-se ainda que a Venezuela, que tem a maior reserva petrolífera do mundo, vem se aproximando, nos últimos anos, dos BRICKS, particularmente da China e da Rússia, negociando com esses países nas suas respectivas moedas nacionais, inclusive o próprio petróleo. Hoje, a China é o principal importador de petróleo da Venezuela.

Assim, fica evidente que o petróleo é o fator principal da beligerância do Governo Trump em relação à Venezuela. A questão não é a defesa da democracia e nem o combate ao tráfico de drogas! A questão central é política e econômica.

Finalmente, além da Venezuela, há que registrar, desde o início do Governo Trump, o aumento dos conflitos dos EUA com Cuba, Colômbia e Groelândia – afrontando a União Européia. Destaque-se ainda a ampliação dos conflitos dos EUA com os BRICKS (1), além das ameaças tarifárias, em andamento, que atingem a todos os países que comercializam com os Estados Unidos, inclusive o Brasil.

O que mais pode acontecer?

A resposta a Donald Trump e aos seus aliados, além do negócio petrolífero, é de afirmação dos valores universais que nos faz humanidade: a autodeterminação dos povos, a defesa da democracia e do multilateralismo, de acordo com a Carta da ONU e todas as outras Convenções Internacionais que sejam contra o uso da força como política de Estado, no lugar da diplomacia e do diálogo.

O comportamento da União Europeia, da China, da Rússia, da América Latina, particularmente da Venezuela, e os acontecimentos ora em curso na própria sociedade estadunidense, aliados às manifestações que estão ocorrendo mundialmente, devem e podem impor limites ao Senhor Trump no período que ainda tem para governar, em defesa do Estado de Direito, da democracia e da autodeterminação dos povos.

Esperançamos que haja limite para a insensatez dos poderosos e que a ação política das sociedades democráticas, inclusive da própria sociedade norte-americana, com a cidadania nas ruas e nas redes sociais, seja em defesa da soberania nacional, da unidade das forças democráticas, impondo limites ao Senhor Trump, aos Senhores da Guerra, destruidores da democracia, das nossas esperanças, dos nossos valores culturais, econômicos, sociais e ambientais construídos na longa caminhada da humanidade até à atualidade.

1 - O BRICKS é uma aliança intergovernamental composta por dez países de mercado emergente e foro político em relação ao seu desenvolvimento econômico e político-social. Trata-se de um acrônimo da língua inglesa que é geralmente traduzido como "os BRICS" ou "países BRICS". O agrupamento começou com quatro países sob o nome BRIC, reunindo Brasil, Rússia, India e China, e, em abril de 2011, o "S" foi acrescido com a admissão da África do Sul (do inglês: South Africa) ao grupo. 

*Dr.Sc., Diretor do Instituto Politécnico da Bahia.

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