Mesmo perdendo força (coisa que os senhores da guerra não ignoram), o dólar
segue como principal moeda de reserva, e os EUA conservam o poder de financiar
seus déficits em sua própria moeda. Caso único.
Seguiram-se os muitos anos de disputa entre o império americano e a URSS de
então, emergente e vitoriosa, inclusive militarmente. No contrapelo surge a
“Cortina de Ferro”; são os ventos da Guerra Fria, timbrados também pelos
frustrados esforços soviéticos tanto de concorrência quanto de “convivência
pacífica”, afinal sepultados com o fracasso da Perestroika.
A polaridade Ocidente-Oriente, EUA-URSS, capitalismo-socialismo dissolve-se
como neve no verão com a simbologia da queda do Muro de Berlim (1989),
mensageiro da falência militar, política, econômica e ideológica do projeto
soviético, esgotamento político que traria consigo a frustração da experiência
socialista, que à humanidade não foi dado conhecer.
A polaridade é substituída pela hegemonia do capitalismo monopolista, esta de
hoje, determinante do caráter do imperialismo dos EUA, sua locomotiva, seu
aríete, seu beneficiário.
Entra em cena um terceiro personagem.
A China é ator que construiu quase monopólios em terras raras: segundo dados
disponíveis, detém 25 mil patentes sobre esses elementos; garantiu acesso
preferencial a minerais na África e na América Latina; articulou financiamento,
infraestrutura e suprimento via a Nova Rota da Seda. Mas não só. Avançou
extraordinariamente em educação, ciência, tecnologia e inovação, e hoje
é a segunda potência econômica do globo, vis-à-vis a economia dos
EUA, da qual se aproxima. Por força desse desenvolvimento, tornou-se a “fábrica
do mundo”.
Este é seu poder, mas pode ser, igualmente, seu calcanhar de Aquiles: seus
produtos precisam ser vendidos (transformados em receita, divisas), o que
depende de mercados. Estudos desenvolvidos nos EUA indicam a concorrência
econômica e tecnológica com a China, apontando a superação dos EUA em algo como
vinte anos.
Esta prospecção não está, como não poderia estar, ausente dos gabinetes civis e
militares de estudos estratégicos em todo o mundo. O poderio militar dos
EUA continua de pé, e é nele que os avanços da política se assentam.
Mas o poderio econômico dos EUA — nada obstante a evidência de serem ainda hoje
a maior potência do mundo — dá sinais, senão de esgotamento, de cansaço,
sugerindo a impossibilidade de manter a liderança mundial frente ao avanço
chinês, que, até aqui, parece não conhecer tropeços. O palpável é que a China
prossiga no desenvolvimento, proteção e sustentação de sua malha comercial
mundial, que inclui a Rota da Seda e seus investimentos de toda ordem, mas
inclui igualmente o mercado norte-americano. Como inclui o mercado europeu e o
latino-americano. Não estamos fora disso.
A tradição milenar do Império do Meio ensinou-lhe a consciência da grandeza
territorial e o isolamento (o auto bastar-se), que também o apartou
da necessidade de expansionismo. Isto está presente na geopolítica de hoje,
mesmo considerando a política de hostilidade dos EUA. Seu cinturão de segurança
não é o mundo, mas seu entorno, nomeadamente Taiwan e o Mar do Japão.
A recuperação da antiga Formosa, província desgarrada por Chiang Kai-Shek, em
sua fuga ao perder o confronto com as tropas de Mao Zedong,
pode ser transformada, porém, em necessidade de guerra e, ao lado de tudo
isso e por tudo isso, em necessidade de consolidação estratégica, industrial e
de segurança, em face de seu alto desenvolvimento tecnológico, nomeadamente em chips.
Afora esse nível de contingência, a China não se deslocará da China.
A Rússia, sem dúvida o segundo arsenal atômico do mundo, não tem por que pensar
nas dores do mundo: cuida de sua soberania, e sua prioridade óbvia é a guerra
contra a Ucrânia e o enfrentamento às ameaças da OTAN, que visa à sua
sufocação. São óbvias suas prioridades, e é óbvia a necessidade de manter o
canal de interlocução com os EUA, onde, por sem dúvida, se negociam interesses.
A China, porém, com seu comércio mundializado, e assim muito quedada na dependência
do desdobrar da política americana — aquela que se discute entre o
Departamento de Estado e o Pentágono -- , pode ser levada a rever
sua estratégia militar, hoje defensiva.
À ausência de contendores de seu peso, os EUA permanecerão no centro da
arena como digladiador, a um tempo único e imbatível.
A história caminha suas pegadas. Sustentado pela mais poderosa máquina militar
jamais conhecida pela humanidade, e tanto onipresente no mundo de hoje quanto
as legiões romanas no pequeno mundo daquele então, permanentemente em busca da
conquista de mais espaços de presença, como de sempre na Europa, com a
ocidentalização e a otanização das antigas repúblicas soviéticas; no
Oriente, como na Síria, como na Líbia, como no Irã, como na Palestina; como na
Groenlândia; como na América Latina, o grande “quintal” a ser preservado. Nele,
talvez constituindo sua porção mais estratégica, entre o Caribe, a Amazônia
e os Pampas, entre o Pacífico e um Atlântico vastíssimo, a rota livre do
Ocidente. E sobre as riquezas naturais do subcontinente, que não se
esgotam no petróleo confiscado da Venezuela.
O mundo, visto de hoje, é a “América” dos EUA. Mas a história não é um fato
dado,completo, morno, acabado; nos seus alicerces, quase sempre
muito profundos, o processo social é senhor de baraço e cutelo, sempre
protegido de nossas especulações, porque os cientistas políticos carecem
de instrumentos objetivos de captação do fato antes que ele salte à
realidade.
A crônica conta o diálogo entre dois sábios: Magalhães Pinto e José Maria
Alkmin contemplavam os céus das alterosas e filosofavam sobre a política
mineira: os fatos, como as nuvens, mudavam de rumo e de forma à mercê dos
ventos.
***
A encruzilhada e o inimigo principal — Enquanto
o império desabrido e o terror sionista dirigem sua guerra híbrida ao Irã,
governado a mão de ferro pelo islamismo xiita (em si, como uma
teocracia, irrecusável anacronismo), vozes progressistas de variados
matizes ecoam esforço comovente em busca de um lugar que a história,
sobretudo em seus momentos mais dramáticos, se nega a fornecer: o da
neutralidade. O lema “fora todos”, mais uma vez, exprime preocupações legítimas,
que não devem ser abandonadas — mas, à falta de concretude (não há
terceira via no horizonte), resulta tão-só numa proclamação de virtude, e uma envergonhada
tomada de posição. Pode resolver justos problemas de angústia
existencial, sempre personalíssimos, mas não enfrentará o cerne da questão: a
leitura dialética do fato histórico.
Amor à guerra — Artigo do conselho editorial do The Washington Post,
de propriedade do magnata Jeff Bezos, publicado em 14/01, celebra o orçamento
militar pretendido por Donald Trump, de US$ 1.5 trilhão (aproximadamente 5% do
PIB dos EUA). Ao final, o texto menciona os custos envolvidos no recente ataque
ao Irã (com mísseis Tomahawk ao preço unitário de U$ 2.2 milhões), e pede que o
leitor imagine o custo de um conflito, possivelmente tanto necessário
quanto prolongado, com a China. O establishment vê à
frente.
Adeus a Rex Nazaré — Meu saudoso amigo Rex Nazaré foi um físico brasileiro
de destaque; sua trajetória se confunde com os esforços — muitas vezes
tensos e contraditórios — de construção de um projeto nuclear nacional. Com
sólida formação acadêmica e atuação relevante na pesquisa em física nuclear,
teve papel importante na CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear),
participou da formulação e da execução de políticas científicas e tecnológicas
voltadas à autonomia do país nesse setor estratégico, para o qual a classe
dominante alienada torce o nariz. Para além da institucionalidade, esteve
ligado à chamada tentativa de um “projeto nuclear alternativo”, desenvolvido à
margem — e por vezes em confronto — com o modelo adotado pelo governo militar,
especialmente aquele associado aos acordos internacionais e à dependência
tecnológica externa. Essa participação, longe de episódica, expressava uma
convicção: a de que o domínio do ciclo nuclear deveria servir a um projeto
soberano de desenvolvimento científico e industrial. Professor e pesquisador,
Rex Nazaré formou gerações e deixou uma marca duradoura no debate sobre
ciência, Estado e soberania no Brasil, ocupando papel singular — crítico
e, ao mesmo tempo, comprometido — na história do projeto nuclear
brasileiro. Ainda hoje, um projeto por ser.
*Com a colaboração de Pedro Amaral.

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