Correio Braziliense
Trump tirou a fantasia. Ele não defende o
livre comércio. O mundo retornou ao mercantilismo brutal e objetivo. O negócio
é grana, ganhar dinheiro, fazer caixa em dólares. Todo resto é fantasia
A espetacular ascensão de Donald Trump à condição de dono do mundo modifica o entendimento de muitos observadores e coloca alguns especialistas na embaraçosa condição de aprendizes diante de tanta novidade. O presidente dos Estados Unidos não hesita em utilizar a força para sequestrar um presidente da República, anunciar a incorporação da Groenlândia, como Hitler fez com a Áustria nos anos 1930, além de ameaçar bombardear aliados que não façam comércio com seu país. Prática curiosa, semelhante a que os portugueses utilizaram contra cidades da Índia no século das grandes navegações.
Mas há uma vantagem nesse novo cenário. Trump
tirou a fantasia. Ele não defende o livre comércio, que foi um ponto central e
básico na argumentação norte-americana de como os países deveriam organizar seu
mercado interno. Os chineses são mais ágeis, produzem mais e com menor preço.
Se houver concorrência livre e aberta, os americanos perdem. Então, o melhor é
recorrer ao poder dos formidáveis porta-aviões. Cada um com mais de 50 aviões
de última geração, helicópteros maravilhosos e tripulação de 5 mil marinheiros.
Essa brincadeira custa mais de US$ 1 bilhão por mês. O governo dos Estados
Unidos mantém 11 porta-aviões, com suas respectivas defesas navais, em operação
no mundo, ao mesmo tempo. É muito dinheiro para manter abertas as trilhas do
comércio internacional.
O mundo está de joelhos diante da formidável
demonstração de força, agilidade, capacidade de articulação em território
inimigo ocorrida na Venezuela. Os aviões norte-americanos desligaram os radares
do inimigo, apagaram a luz de Caracas, neutralizaram os sinais de
geolocalização e mataram, com incrível rapidez, os cubanos que defendiam
Nicolás Maduro. Material de última geração chinês e russo foi silenciado. Tudo
ocorreu em questão de minutos. Vale a comparação: a poderosa Rússia está há
longos e tortuosos quatro anos tentando dominar a pequena Ucrânia. Perdeu uma
quantidade enorme de soldados, aviões, carros de combate, navios e até
submarinos. No entanto, Volodymyr Zelensky continua no poder negociando a
improvável paz. Putin não conseguiu demonstrar qualquer tipo de eficiência na
sua guerra. Ele é um perdedor perante a história.
A conclusão é simples. Acabou a era da
inocência. O mundo retornou ao mercantilismo brutal e objetivo. O negócio é
grana, ganhar dinheiro, fazer caixa em dólares. Todo resto é fantasia. No caso
brasileiro, talvez os observadores acordem da letargia histórica e abram os
olhos para a realidade. Os americanos estão na Venezuela. Dentro em breve,
estarão na Colômbia. Muito perto da tão discutida Margem Equatorial. E de
frente para a Amazônia, região que tem tudo o que eles mais desejam: terras
raras, minérios em profusão, ouro em grandes quantidades, diamantes e, também,
petróleo em generosos e extensos lençóis. É o paraíso capitalista na
terra.
O longo debate sobre a utilização da
Amazônia, a preservação da floresta, a manutenção da grande faixa verde, tudo
isso perde importância diante da possibilidade de traduzir o vasto cenário em
dólares. Os norte-americanos têm larga experiência em exterminar povos
originários, devastar o meio ambiente em busca do minério precioso. Nada os
detém. Eles chegaram às margens da Amazônia. O Brasil não possui poder militar.
O país depende da negociação possível dos diplomatas, o chamado soft power.
Ocorre que a conversa agora perde espaço para bombardeios seletivos e manobras
militares específicas. O sonho acabou. O Brasil desembarcou na realidade. A
América Latina, que era a terra de grandes prosadores, poetas geniais, e de
traficantes abusados, agora está no centro da disputa do capitalismo
internacional.
A eleição presidencial que deverá ocorrer
neste ano vai se processar dentro desse novo cenário. Um superpoder emergiu no
Norte. Silenciou tudo o que havia ao seu redor. Ele determina o futuro no Irã,
em Israel, na Ucrânia, na Groenlândia e em toda política internacional com
virulência, objetividade e despreparo de um adolescente frente ao mundo. As
relações de Washington com Brasília são, no mínimo, tensas. Um não gosta do
outro. Americanos, que há muito namoram com a ideia de manter uma base militar
no Brasil, gostariam de ter aqui um governo mais favorável a seus objetivos.
Não é impossível que eles movimentem meios e modos para influenciar no
resultado da eleição. Não é preciso consultar os astros para prever possível
interferência estrangeira no pleito nacional.
Não é o fim do mundo. E também não é
novidade. Os americanos já andaram por aqui em outros tempos. Agora, sem a
fantasia e sem a alegada defesa dos princípios democráticos, a interferência
poderá ser mais explícita. O jogo é objetivo e claro. É preciso ter olhos
abertos. Olhos de ver. E descer das ideologias para o território da
realidade.

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