Veja
Não dá para construir uma casa sem antes ter
alicerces sólidos
Na semana passada, o país se assustou ao
saber que uma avaliação do MEC reprovou
mais de 100 faculdades de medicina. Se os mesmos critérios fossem aplicados aos
demais cursos do ensino superior, inclusive enfermagem, o número de reprovados
seria ainda maior. Embora sirva de alerta, essa avaliação só produzirá
resultados se for usada para compreender as origens do problema.
A falência tem sete causas principais. A primeira é a tradição de adotar o diploma universitário como título de nobreza, símbolo de status social: “doutor” substituiu conde, barão e duque. A segunda causa decorre da ideia de que, em uma República, todos têm direito ao título de nobreza. No lugar do direito a uma educação básica de máxima qualidade, optamos pela promessa de “universidade para todos” —, ignorando dezenas de milhões de analfabetos e sem ensino médio. A terceira causa é a adoção do ensino superior como prolongamento da escolaridade, para compensar o descuido com a educação de base. Para aqueles que continuaram condenados a escolas deficientes, os governos criaram mecanismos para abrir as portas das universidades.
“Optamos pela promessa de universidade para
todos, ignorando os milhões de analfabetos”
Tem mais. A quarta causa é o populismo
eleitoral, que exibe o aumento no número de universitários como quilômetros de
estradas construídas, mesmo em más condições. A quinta é a deformação do
conceito de democracia, ao substituir o direito de todos serem atendidos por um
médico qualificado pela ilusão de que todos podem ter um diploma de médico. A
sexta causa é a visão de que o mérito intelectual seria privilégio, e não o
reconhecimento de talento, vocação e persistência. Aceita-se respeitar o mérito
no esporte e nas artes, mas não na qualificação educacional. Mas a principal
causa da reprovação do ensino superior — e enfim chegamos ao sétimo nó — é o
descuido com a educação de base. Entre 1990 e 2023, o número de universitários
saltou de 1,5 milhão para 10 milhões, sem uma evolução equivalente no número de
concluintes do ensino médio.
Os estudantes concluem a educação básica sem
dominar matemática, ciências e idiomas estrangeiros, nem mesmo escrever bem em
português. Os cursos de medicina reprovados eram falhos em si: não tinham
professores qualificados, equipamentos pedagógicos, nem exigiam tempo adequado
de estudo. Mas, ainda que preenchessem essas condições, não formariam médicos
com a qualificação necessária devido às deficiências no conhecimento básico de
seus alunos. O milagre educacional correspondeu a construir o teto de uma
casa sem fazer paredes sólidas. O fechamento de cursos de medicina desperta
para o risco de médicos despreparados, mas continuamos com enfermeiros que não
sabem ler a bula do remédio, jornalistas que não sabem escrever bem e
engenheiros que não conhecem os fundamentos da matemática; e continuamos sem
proposta correta para superar essa tragédia.
Não se evita o desabamento de um prédio
tapando goteiras no telhado: é preciso reforçar seu alicerce, pensar em
reforçá-lo desde o início. Além de avaliar os cursos onde estudam, a solução
para evitar profissionais despreparados é assegurar educação de base com
qualidade: garantir a todos o padrão que demonstram nossas escolas públicas
federais.
Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980

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