O Globo
Elites do país se submeteram ao governo Trump
de forma resignada
Um dos aspectos mais surpreendentes da intervenção americana na Venezuela é a maneira resignada com que as elites do país se submeteram ao governo Trump, depois de quase 30 anos de retórica anti-imperialista. O governo em exercício de Delcy Rodríguez tenta manter as aparências de soberania, e as milícias de Diosdado Cabello seguem aterrorizando os dissidentes, mas, a cada oportunidade, Trump faz questão de deixar claro que mantém controle total. Se o discurso anti-imperialista não se traduz em resistência, qual seria então sua função?
Todo o aparato ideológico chavista está
apoiado na figura de Simón Bolívar, o líder revolucionário crioulo que lutou
contra o domínio espanhol nas Américas no século XIX. Nascido em Caracas,
Bolívar simbolizou para o chavismo o nacionalismo (às vezes um nacionalismo
venezuelano, às vezes um nacionalismo pan-americano) e a perspectiva
anti-imperialista.
Nos últimos 25 anos, a retórica
anti-imperialista bolivariana foi a principal referência simbólica do regime.
Em 1999, depois da primeira eleição de Hugo Chávez, a nova Constituição mudou o
nome do país de República da Venezuela para República Bolivariana da Venezuela.
Em 2004, Chávez criou a Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), uma
plataforma de colaboração latino-americana para se contrapor à Alca, o acordo
continental de livre-comércio promovido pelo presidente americano George W.
Bush. Em 2010, a Lei de Defesa da Soberania proibiu o financiamento
internacional de ONGs, acusadas de sustentar uma perspectiva pró-americana no
país. Em 2024, a Assembleia Nacional aprovou a Lei Simón Bolívar, que
estabelece punições severas a quem apoiar sanções internacionais americanas.
A História recente da Venezuela está
atravessada por esse anti-imperialismo. Os discursos de Chávez e Maduro sempre
demonizaram os Estados Unidos e atribuíram os muitos problemas sociais do país
ao embargo e às sanções americanas. O Exército há anos se organiza para
enfrentar as forças americanas. A Lei da Força Armada Nacional Bolivariana
(2020) se apresenta como fundada no anti-imperialismo, na tradição de
resistência e na união cívico-militar. Apesar de todo esse aparato
institucional e ideológico, a mera pressão dos porta-aviões americanos e o
sequestro de Nicolás Maduro foram suficientes para dobrar a elite política do país
e, na prática, para rapidamente abrir o mercado de exploração de petróleo aos
Estados Unidos e indenizar as empresas expropriadas por Chávez.
Olhando retrospectivamente, a retórica
anti-imperialista parece ter tido mais o papel de manter a coesão interna e
justificar a repressão aos dissidentes do que de efetivamente preparar a defesa
nacional. O mesmo parece ter acontecido com a retórica de combate à pobreza e
às desigualdades, que também cumpre a função de demonizar os adversários, sem
que tenha qualquer substância, como se vê na tabela abaixo. Embora a Venezuela
há muitos anos não produza certas estatísticas, podemos ver naquelas
disponíveis que o país tem regredido a níveis anteriores ao chavismo em
mortalidade infantil, PIB per capita e desigualdade, enquanto países vizinhos
avançam. A pobreza e a desigualdade crescentes não parecem abalar o discurso
socialista. Talvez o mesmo possa ser dito da retórica democrática que segue
falando em ampliação e participação popular enquanto políticos de oposição são
cassados, jornais e TVs seguem fechados, e dissidentes são rotineiramente
presos e torturados.
Ao final, o projeto bolivariano parece cada
vez mais um teatro onde cenários grandiosos ocultam bastidores em ruínas. A inflamada
retórica revolucionária — anti-imperialista, igualitária, democrática — esconde
seu oposto. Em nome da resistência, se pratica a submissão; em nome da justiça
social, se perpetua a desigualdade; e em nome da democracia, se cala o
dissenso.
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