sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Anti-imperialismo virou pó. Por Pablo Ortellado

O Globo

Elites do país se submeteram ao governo Trump de forma resignada

Um dos aspectos mais surpreendentes da intervenção americana na Venezuela é a maneira resignada com que as elites do país se submeteram ao governo Trump, depois de quase 30 anos de retórica anti-imperialista. O governo em exercício de Delcy Rodríguez tenta manter as aparências de soberania, e as milícias de Diosdado Cabello seguem aterrorizando os dissidentes, mas, a cada oportunidade, Trump faz questão de deixar claro que mantém controle total. Se o discurso anti-imperialista não se traduz em resistência, qual seria então sua função?

Todo o aparato ideológico chavista está apoiado na figura de Simón Bolívar, o líder revolucionário crioulo que lutou contra o domínio espanhol nas Américas no século XIX. Nascido em Caracas, Bolívar simbolizou para o chavismo o nacionalismo (às vezes um nacionalismo venezuelano, às vezes um nacionalismo pan-americano) e a perspectiva anti-imperialista.

Nos últimos 25 anos, a retórica anti-imperialista bolivariana foi a principal referência simbólica do regime. Em 1999, depois da primeira eleição de Hugo Chávez, a nova Constituição mudou o nome do país de República da Venezuela para República Bolivariana da Venezuela. Em 2004, Chávez criou a Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), uma plataforma de colaboração latino-americana para se contrapor à Alca, o acordo continental de livre-comércio promovido pelo presidente americano George W. Bush. Em 2010, a Lei de Defesa da Soberania proibiu o financiamento internacional de ONGs, acusadas de sustentar uma perspectiva pró-americana no país. Em 2024, a Assembleia Nacional aprovou a Lei Simón Bolívar, que estabelece punições severas a quem apoiar sanções internacionais americanas.

A História recente da Venezuela está atravessada por esse anti-imperialismo. Os discursos de Chávez e Maduro sempre demonizaram os Estados Unidos e atribuíram os muitos problemas sociais do país ao embargo e às sanções americanas. O Exército há anos se organiza para enfrentar as forças americanas. A Lei da Força Armada Nacional Bolivariana (2020) se apresenta como fundada no anti-imperialismo, na tradição de resistência e na união cívico-militar. Apesar de todo esse aparato institucional e ideológico, a mera pressão dos porta-aviões americanos e o sequestro de Nicolás Maduro foram suficientes para dobrar a elite política do país e, na prática, para rapidamente abrir o mercado de exploração de petróleo aos Estados Unidos e indenizar as empresas expropriadas por Chávez.

Olhando retrospectivamente, a retórica anti-imperialista parece ter tido mais o papel de manter a coesão interna e justificar a repressão aos dissidentes do que de efetivamente preparar a defesa nacional. O mesmo parece ter acontecido com a retórica de combate à pobreza e às desigualdades, que também cumpre a função de demonizar os adversários, sem que tenha qualquer substância, como se vê na tabela abaixo. Embora a Venezuela há muitos anos não produza certas estatísticas, podemos ver naquelas disponíveis que o país tem regredido a níveis anteriores ao chavismo em mortalidade infantil, PIB per capita e desigualdade, enquanto países vizinhos avançam. A pobreza e a desigualdade crescentes não parecem abalar o discurso socialista. Talvez o mesmo possa ser dito da retórica democrática que segue falando em ampliação e participação popular enquanto políticos de oposição são cassados, jornais e TVs seguem fechados, e dissidentes são rotineiramente presos e torturados.

Ao final, o projeto bolivariano parece cada vez mais um teatro onde cenários grandiosos ocultam bastidores em ruínas. A inflamada retórica revolucionária — anti-imperialista, igualitária, democrática — esconde seu oposto. Em nome da resistência, se pratica a submissão; em nome da justiça social, se perpetua a desigualdade; e em nome da democracia, se cala o dissenso.

 

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