O Globo
O BC criará um Índice de Liquidez de Ativos
para as instituições financeiras, com objetivo de evitar casos como o do Banco
Master
Chegou a hora de pagar a amarga conta da fraude do Master e ela será dos bancos, principalmente dos maiores. Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa poderão ter que despender de R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões cada um para recompor o Fundo Garantidor de Crédito. Há quem fale em R$ 6 bilhões. Em outras palavras: haverá dinheiro público de bancos estatais na quitação do sinistro. Desde ontem, o FGC está restituindo aos investidores até o valor garantido, mas depois será necessário refazer o fundo. O rombo pode chegar a R$ 50 bilhões. As instituições terão que antecipar cinco anos de contribuição e aumentar o percentual da contribuição.
A conta hoje já está entre R$ 41 bilhões a R$
45 bilhões de passivo coberto pelo FGC. Pode chegar a R$ 50 bilhões se o Will
Bank for também liquidado. Ele está em Regime de Administração Especial
Temporária (RAET), do Banco
Central, mas pode ser liquidado. Comprado em 2024 pelo Master, o Will Bank
tem cinco milhões de clientes, com depósitos pequenos porque atende
principalmente pessoas das classes C, D e E.
O FGC foi criado, na esteira das quebras
sequenciais de bancos após o fim da hiperinflação, para garantir os clientes e
evitar a ideia de contágio, de que se um quebrasse, os outros iriam no mesmo
caminho. Com o decorrer dos anos, algumas instituições distorceram o seu
significado. O Master criou um modelo de negócios que usava a garantia do Fundo
para se alavancar. E pior, tinha ativos duvidosos. Ele fazia extravagâncias
comprando direitos creditórios de difícil recebimento, precatórios, cártulas do
extinto Banco Estadual de Santa Catarina.
O Master não representa um risco sistêmico,
mas a conta que deixou é grande. Por isso estão em análise mecanismos para
aperfeiçoar e ampliar a supervisão do Banco Central sobre o mercado financeiro,
e normas para elevar a segurança do investidor, principalmente o pequeno e
médio. Ontem, o ministro Fernando Haddad falou que se estuda ampliar a área de
supervisão do BC aos fundos de investimento. Para se ter uma ideia existia a
Reag gestora e a Reag DTVM. O BC só tem poderes sobre a DTVM, que ele liquidou
na semana passada. Os fundos ficam sob a autoridade da Comissão de Valores
Mobiliários (CVM).
O Banco Central vai dar mais um aperto na
supervisão bancária para fortalecer a prevenção de problemas como o do Banco Master.
Vai criar um Índice de Liquidez de Ativos para as instituições financeiras. O
banco que estiver com um índice de liquidez baixo e uma alta captação em
produtos com garantia do Fundo Garantidor de Crédito terá que comprar títulos
do Tesouro em volume suficiente para fazer frente ao passivo. Essa é uma forma
de dar mais segurança ao consumidor e impedir novas falcatruas.
O dia de ontem foi de corrida do aplicador
para tentar recuperar os investimentos perdidos até R$ 250 mil garantidos pelo
FGC. O BC pode fazer mais para proteger o investidor, e o próprio mercado de
outros sinistros como este. Pode haver também mais esforço normativo para
impedir o conflito de interesse das corretoras que indicam produtos de cuja
venda receberão comissão.
O caso Master revela uma sucessão de crimes
cometidos no mercado financeiro que precisam ser desvendados e os culpados
punidos. Por isso são tão prejudiciais os conflitos do TCU e
do ministro Dias
Toffoli com a Polícia
Federal e o Banco Central. Agora é a hora de investigar os crimes para
que ninguém saia impune.
Mas, além disso, haverá muito a fazer na área
regulatória e de fiscalização para aprimorar todas as normas da supervisão
bancária. Este é o momento de revisão de procedimentos e de apertar os
ferrolhos para aumentar a proteção do mercado financeiro como um todo.
A maior preocupação no mercado é a de que o
Banco Central preserve sua autoridade técnica. Nunca se viu um ataque tão
intenso contra a autoridade monetária. Quase houve uma absurda acareação no STF
entre fiscalizado e fiscalizador, quase ocorreu uma esdrúxula inspeção do TCU.
Têm sido criados obstáculos à investigação. O problema é que se o BC perde a
sua força institucional tudo o mais será possível no mercado financeiro. Se uma
gestão fraudulenta que atinge níveis tão escandalosos fosse aceita, o dique
teria se rompido, e nunca mais o Banco Central resgataria sua autoridade
técnica. Esse caso testa todas as instituições.

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