O Globo
Diferentemente do resto do Vale do Silício, a
companhia não consegue acertar em inteligência artificial
Yann LeCun anunciou que deixaria a Meta, casa de Facebook, Instagram e WhatsApp, em novembro último. A saída parecia cordial. Aí, não faz uma semana, ele deu uma entrevista pesada — e a bomba estourou. A Meta deverá anunciar um número grande de demissões ainda nesta semana porque atravessa uma crise profunda. Diferentemente do resto do Vale do Silício, a companhia não consegue acertar em inteligência artificial. É nesse contexto que terminou se demitindo um dos três nomes que inventaram a tecnologia por trás da IA.
A última versão do Llama, modelo de IA da
Meta, foi lançada em abril passado. É um desastre. Não é só que seja incapaz de
competir com GPT, Gemini ou Claude, os três que disputam cabeça a cabeça a
liderança do jogo. O Llama escorregou para trás do Grok, IA erguida às pressas,
em poucos meses, pela X/AI de Elon Musk. Perde também para o DeepSeek, precária
IA gratuita chinesa treinada com material preparado pelo ChatGPT. Como pode a
única companhia que tem na folha de pagamento um dos inventores dos princípios
por trás da tecnologia estar tão atrás na disputa? Segundo LeCun, o problema é
o CEO e fundador da Meta. O problema é Mark Zuckerberg.
Perante o desastre do Llama 4, Zuck adquiriu
a Scale AI, empresa que tratava textos em grande escala para servir ao treinamento
de IAs. Aí fez de seu fundador, Alexandr Wang, de 29 anos, chefe do Laboratório
de IA da companhia. Pôs um garoto que montou uma empresa para fazer o serviço
pesado e pouco sofisticado que as grandes da IA terceirizam e para chefiar o
cientista de 65 anos que todo mundo no ramo admira. LeCun pediu o chapéu.
O Llama 4 foi um desastre porque Zuck forçou
o lançamento às pressas, sem nenhuma das inovações tecnológicas que o velho
cientista e seu time pretendiam incluir no treinamento. Sem qualquer novidade e
desenvolvido rápido, saiu mesmo algo parecido com o que todo mundo já havia
feito — só que no passado. Agora, ainda mais em desespero, a empresa deverá
cortar na carne para botar mais dinheiro e tentar, ao menos, chegar perto da
concorrência. Afinal, a IA da Meta é aquela que está na mão de todo mundo que
usa Face, Insta ou Zap — e, ainda assim, quase ninguém usa.
LeCun colhe dinheiro para erguer uma empresa
nova que fará um tipo de IA completamente diferente. Sua crença é que o modelo
atual, baseado em linguagem, não terá como alcançar a superinteligência em que
apostam OpenAI, Google e Anthropic (do Claude). Como o treinamento é feito
apenas com texto, uma quantidade imensa de textos, mas somente isso, não
adianta. Os modelos podem prever uma sequência de palavras mas jamais
compreenderão o que dizem. Ficam cada vez maiores, treinados com mais livros,
mas não se tornam substancialmente melhores.
O velho cientista sugere que o caminho para a
superinteligência artificial é outro. Uma IA treinada com o tipo de material
com que nossos cérebros são treinados: áudio, vídeo, espaço tridimensional. A
forma de treinar é a mesma. Mas, com texto, a IA é capaz de prever como se
organiza outro texto. Com imagens e sons, a IA seria capaz de prever como as
coisas funcionam no mundo. Entenderia o que é um gato e o som de um miado pelo
que o bicho é, não apenas pela sequência de quatro letras.
Além disso, LeCun argumenta que as IAs atuais
têm um imenso problema de memória. Conseguem trabalhar e processar informação
até um determinado ponto. Quando batem no limite rígido da quantidade de texto
que são capazes de gerenciar, se perdem. Esquecem o que já souberam naquela
conversa, não sabem o que guardar. Alucinam. Dão respostas sem sentido sem que,
muitas vezes, o usuário sequer perceba que já perderam o foco e se manifestam
aleatoriamente.
Esses são os dois problemas que LeCun deseja
resolver. Agora, fora da Meta. Sua crítica: Zuck não quer inovar, não quer
fazer melhor, quer apenas copiar. Não é o primeiro a criticar a Meta desse
jeito. É a companhia gigante, no Vale, com menor capacidade de inovação.
Conhecida, essencialmente, por copiar.

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