terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O velho cientista de IA. Por Pedro Doria

O Globo

Diferentemente do resto do Vale do Silício, a companhia não consegue acertar em inteligência artificial

Yann LeCun anunciou que deixaria a Meta, casa de Facebook, Instagram e WhatsApp, em novembro último. A saída parecia cordial. Aí, não faz uma semana, ele deu uma entrevista pesada — e a bomba estourou. A Meta deverá anunciar um número grande de demissões ainda nesta semana porque atravessa uma crise profunda. Diferentemente do resto do Vale do Silício, a companhia não consegue acertar em inteligência artificial. É nesse contexto que terminou se demitindo um dos três nomes que inventaram a tecnologia por trás da IA.

A última versão do Llama, modelo de IA da Meta, foi lançada em abril passado. É um desastre. Não é só que seja incapaz de competir com GPT, Gemini ou Claude, os três que disputam cabeça a cabeça a liderança do jogo. O Llama escorregou para trás do Grok, IA erguida às pressas, em poucos meses, pela X/AI de Elon Musk. Perde também para o DeepSeek, precária IA gratuita chinesa treinada com material preparado pelo ChatGPT. Como pode a única companhia que tem na folha de pagamento um dos inventores dos princípios por trás da tecnologia estar tão atrás na disputa? Segundo LeCun, o problema é o CEO e fundador da Meta. O problema é Mark Zuckerberg.

Perante o desastre do Llama 4, Zuck adquiriu a Scale AI, empresa que tratava textos em grande escala para servir ao treinamento de IAs. Aí fez de seu fundador, Alexandr Wang, de 29 anos, chefe do Laboratório de IA da companhia. Pôs um garoto que montou uma empresa para fazer o serviço pesado e pouco sofisticado que as grandes da IA terceirizam e para chefiar o cientista de 65 anos que todo mundo no ramo admira. LeCun pediu o chapéu.

O Llama 4 foi um desastre porque Zuck forçou o lançamento às pressas, sem nenhuma das inovações tecnológicas que o velho cientista e seu time pretendiam incluir no treinamento. Sem qualquer novidade e desenvolvido rápido, saiu mesmo algo parecido com o que todo mundo já havia feito — só que no passado. Agora, ainda mais em desespero, a empresa deverá cortar na carne para botar mais dinheiro e tentar, ao menos, chegar perto da concorrência. Afinal, a IA da Meta é aquela que está na mão de todo mundo que usa Face, Insta ou Zap — e, ainda assim, quase ninguém usa.

LeCun colhe dinheiro para erguer uma empresa nova que fará um tipo de IA completamente diferente. Sua crença é que o modelo atual, baseado em linguagem, não terá como alcançar a superinteligência em que apostam OpenAI, Google e Anthropic (do Claude). Como o treinamento é feito apenas com texto, uma quantidade imensa de textos, mas somente isso, não adianta. Os modelos podem prever uma sequência de palavras mas jamais compreenderão o que dizem. Ficam cada vez maiores, treinados com mais livros, mas não se tornam substancialmente melhores.

O velho cientista sugere que o caminho para a superinteligência artificial é outro. Uma IA treinada com o tipo de material com que nossos cérebros são treinados: áudio, vídeo, espaço tridimensional. A forma de treinar é a mesma. Mas, com texto, a IA é capaz de prever como se organiza outro texto. Com imagens e sons, a IA seria capaz de prever como as coisas funcionam no mundo. Entenderia o que é um gato e o som de um miado pelo que o bicho é, não apenas pela sequência de quatro letras.

Além disso, LeCun argumenta que as IAs atuais têm um imenso problema de memória. Conseguem trabalhar e processar informação até um determinado ponto. Quando batem no limite rígido da quantidade de texto que são capazes de gerenciar, se perdem. Esquecem o que já souberam naquela conversa, não sabem o que guardar. Alucinam. Dão respostas sem sentido sem que, muitas vezes, o usuário sequer perceba que já perderam o foco e se manifestam aleatoriamente.

Esses são os dois problemas que LeCun deseja resolver. Agora, fora da Meta. Sua crítica: Zuck não quer inovar, não quer fazer melhor, quer apenas copiar. Não é o primeiro a criticar a Meta desse jeito. É a companhia gigante, no Vale, com menor capacidade de inovação. Conhecida, essencialmente, por copiar.

 

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