O Globo
Esquerda e direita se debatem em incoerências
porque não conseguem ver de forma holística a geopolítica mundial
Da mesma maneira que a esquerda brasileira se acha na obrigação de defender um banqueiro como Daniel Vorcaro, acusado de fraudes bilionárias, apenas porque ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) são apontados como seus protetores, também a direita aplaude o presidente americano Donald Trump pela invasão da Venezuela e pelo sequestro de Nicolás Maduro porque o ex-ditador é de esquerda. Esquerda e direita se debatem em incoerências porque não conseguem ter uma visão holística da situação geopolítica do mundo, enquanto Estados Unidos, China e Rússia vão armando um acordo tripartite para dividi-lo a seu gosto.
O governo Lula, embora tenha exibido reações
inteligentes e equilibradas na crise das tarifas, tanto que conseguiu superar
os principais obstáculos e reatar em parte os laços comerciais, não consegue
criticar o governo de Maduro desde que ficou claro como ele fraudara as
eleições presidenciais vencidas pela oposição. Não reconheceu a vitória, mas
também não denunciou a corrupção chavista, tanto política quanto econômica. A
direita, por meio de todos os pré-candidatos à Presidência, repete o mesmo erro
das tarifas, comemorando o sequestro do ex-ditador como vitória da democracia
na região. Começando pelo candidato semioficial do bolsonarismo, o senador Flávio
Bolsonaro. Dão demonstrações claras de que não estão preparados para governar o
país.
O governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas, se precipitou ao anunciar seu apoio a Trump:
— Uma ditadura não cai da noite para o dia.
Ela corrói as instituições por dentro, pouco a pouco, e quem paga o preço mais
alto é sempre a população. Que a prisão do ditador Maduro seja o primeiro passo
no caminho da liberdade para a Venezuela.
Como é possível a um governador do maior
estado brasileiro não atentar para o fato de avalizar uma invasão estrangeira
em qualquer país, até mesmo naquele que pretende um dia governar? Foi
desmentido pelo próprio Trump. Este avisou que o chavismo poderá continuar no
poder, com todos os seus Cabellos, Padrinos e que tais, “desde que faça a coisa
certa”.
O governador do Paraná, Ratinho Junior, achou
“brilhante” a solução de Trump “para libertar o povo da Venezuela, oprimido há
décadas por tiranos antidemocráticos”. Nenhuma palavra sobre a necessidade de
novas eleições, nenhum comentário sobre a restauração da democracia, já
descartada por Trump, preocupado unicamente com a geopolítica, voltando à ideia
de que a América Latina é o “quintal” dos Estados Unidos.
O governador de Goiás, Ronaldo Caiado,
desejou que o dia da invasão seja “o dia da libertação do povo venezuelano,
oprimido há mais de 20 anos pela narcoditadura chavista”:
— Que a democracia, a liberdade e a
prosperidade se instalem no país.
Um desejo no mínimo ingênuo, diante das
próprias palavras de Trump. Somente um governante com aspirações ao Palácio do
Planalto, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, teve a visão de
longo prazo sobre as responsabilidades que pretende assumir. Depois de criticar
Maduro, fez uma ressalva fundamental:
— A violência exercida por uma nação estrangeira
contra outra soberana, à margem dos princípios básicos do Direito
Internacional, em especial o de não intervenção, é igualmente inaceitável.
O governo Lula, que tem culpa por não ter
rompido com a Venezuela quando ficou clara a fraude na eleição, tem mantido
posição correta. Neste momento, o Brasil não pode fazer nada em relação à
invasão da Venezuela. A nota do governo brasileiro foi num tom de protesto, mas
não temos nenhuma capacidade para enfrentar Trump. Nem nós, nem nenhum país. As
reações pelo mundo foram todas cautelosas diante da barbaridade de um país se
definir como dono de uma região — foi o que Donald Trump fez. Estamos num mundo
em que a força impõe as normas. Pode ser que haja reação interna nos Estados
Unidos, porque Trump está passando dos limites.

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