terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Candidatos sem visão. Por Merval Pereira

O Globo

Esquerda e direita se debatem em incoerências porque não conseguem ver de forma holística a geopolítica mundial

Da mesma maneira que a esquerda brasileira se acha na obrigação de defender um banqueiro como Daniel Vorcaro, acusado de fraudes bilionárias, apenas porque ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) são apontados como seus protetores, também a direita aplaude o presidente americano Donald Trump pela invasão da Venezuela e pelo sequestro de Nicolás Maduro porque o ex-ditador é de esquerda. Esquerda e direita se debatem em incoerências porque não conseguem ter uma visão holística da situação geopolítica do mundo, enquanto Estados Unidos, China e Rússia vão armando um acordo tripartite para dividi-lo a seu gosto.

O governo Lula, embora tenha exibido reações inteligentes e equilibradas na crise das tarifas, tanto que conseguiu superar os principais obstáculos e reatar em parte os laços comerciais, não consegue criticar o governo de Maduro desde que ficou claro como ele fraudara as eleições presidenciais vencidas pela oposição. Não reconheceu a vitória, mas também não denunciou a corrupção chavista, tanto política quanto econômica. A direita, por meio de todos os pré-candidatos à Presidência, repete o mesmo erro das tarifas, comemorando o sequestro do ex-ditador como vitória da democracia na região. Começando pelo candidato semioficial do bolsonarismo, o senador Flávio Bolsonaro. Dão demonstrações claras de que não estão preparados para governar o país.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, se precipitou ao anunciar seu apoio a Trump:

— Uma ditadura não cai da noite para o dia. Ela corrói as instituições por dentro, pouco a pouco, e quem paga o preço mais alto é sempre a população. Que a prisão do ditador Maduro seja o primeiro passo no caminho da liberdade para a Venezuela.

Como é possível a um governador do maior estado brasileiro não atentar para o fato de avalizar uma invasão estrangeira em qualquer país, até mesmo naquele que pretende um dia governar? Foi desmentido pelo próprio Trump. Este avisou que o chavismo poderá continuar no poder, com todos os seus Cabellos, Padrinos e que tais, “desde que faça a coisa certa”.

O governador do Paraná, Ratinho Junior, achou “brilhante” a solução de Trump “para libertar o povo da Venezuela, oprimido há décadas por tiranos antidemocráticos”. Nenhuma palavra sobre a necessidade de novas eleições, nenhum comentário sobre a restauração da democracia, já descartada por Trump, preocupado unicamente com a geopolítica, voltando à ideia de que a América Latina é o “quintal” dos Estados Unidos.

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, desejou que o dia da invasão seja “o dia da libertação do povo venezuelano, oprimido há mais de 20 anos pela narcoditadura chavista”:

— Que a democracia, a liberdade e a prosperidade se instalem no país.

Um desejo no mínimo ingênuo, diante das próprias palavras de Trump. Somente um governante com aspirações ao Palácio do Planalto, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, teve a visão de longo prazo sobre as responsabilidades que pretende assumir. Depois de criticar Maduro, fez uma ressalva fundamental:

— A violência exercida por uma nação estrangeira contra outra soberana, à margem dos princípios básicos do Direito Internacional, em especial o de não intervenção, é igualmente inaceitável.

O governo Lula, que tem culpa por não ter rompido com a Venezuela quando ficou clara a fraude na eleição, tem mantido posição correta. Neste momento, o Brasil não pode fazer nada em relação à invasão da Venezuela. A nota do governo brasileiro foi num tom de protesto, mas não temos nenhuma capacidade para enfrentar Trump. Nem nós, nem nenhum país. As reações pelo mundo foram todas cautelosas diante da barbaridade de um país se definir como dono de uma região — foi o que Donald Trump fez. Estamos num mundo em que a força impõe as normas. Pode ser que haja reação interna nos Estados Unidos, porque Trump está passando dos limites.

 

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