sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Como é acompanhar ao vivo um processo de transição social. Por José de Souza Martins

Valor Econômico

Os julgamentos, as condenações, as prisões, as tornozeleiras vão desconstruindo a mentira e o poder da mentira, da farsa, do teatro mambembe da voracidade de poder dos aproveitadores

Chegamos ao novo ano com mentalidade e visão de mundo bem diversas do que eram as nossas no início de 2025. E até muitíssimo diversas das bravatas da tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023 e radicalmente diferentes das de dezembro de 2022. E se recuarmos a 2019, então, as mudanças são tão significativas e perceptíveis, que dão a impressão de que estamos retornando de longa viagem ao estrangeiro.

Não é sempre que um sociólogo tem a oportunidade de observar ao vivo um processo de transição social tão radical como este que agora se dá a ver na contradição reveladora do que fizeram conosco. E, também, do que é o poder da ignorância, da facilidade com que se aproveitaram de nossa inocência.

Quando nos demos conta, na lentidão do período que chega ao fim, uma família de oportunistas profissionais tinha se apoderado do país, fez-se acompanhar de uma multidão de agregados e cúmplices, gente que se não fossem as fake news sobre adversários, as manipulações de impressões e de informações sobre pessoas e realidades, jamais chegaria ao poder.

Comportamento politicamente anômalo no Congresso e no governo, e em eventos públicos, na visibilidade que ganharam no modo esdrúxulo de dar-se a ver, logo revelaram que era gente no lugar errado.

No poder graças à democracia, entenderam e têm agido como inimigos da democracia, pois sabem que se ela se robustecer, como tem se robustecido, o mais provável é que muitos dos tais não voltarão ao poder. A coleção de seus desacertos os leva à cadeia.

De repente, os canais do YouTube e até mesmo o noticiário comum relembram episódios e acontecimentos em que os protagonistas da comédia política brasileira expõem aos berros, com uma segurança ingênua, que estavam e continuam fora do lugar.

O pastor que pastoreia dízimos, que se tornou por conta própria capelão supostamente oficial da República, dono da Presidência sem ter recebido votos e mandato. Dono, portanto, dos cérebros insuficientes dos temporários donos do poder do mandato anterior.

No sistema brasileiro de poder, o importante não é ser eleito para uma função de representação política. O mais importante é ser coadjuvante indispensável dos que não têm competência para governar.

O bolsonarismo é isso. O pastor que aos berros chamou os generais de frouxos por não terem tomado a decisão de viabilizar o golpe de Estado pretendido pelos que estavam em fim de governo. E se achavam tão excelentes que se achavam no direito de lá ficar.

A família ainda se comporta como se o país lhe devesse a devolução da presidência e do poder. Trata o povo como o verdadeiro usurpador do que para ela é um bem pessoal. Comportando-se como sócia do próprio Deus na suposta missão de mandar no Brasil. Deus, ingrato, parece dever-lhe esse favor. Sem eles, o que seria de Deus?

As leis do país asseguram a liberdade de religião e de culto. Em cima de caminhões imensos contratados pelo pastor-capelão, ele diz o que bem entende, em espaços públicos. Asseguram o direito de compartilhar crenças. Mas, pera lá, o que vem a ser isso? E se eu não quiser que ninguém compartilhe crença comigo, por que sou obrigado a ouvir discurso supostamente religioso que consegue sustentar longas falas políticas em nome de Deus sem nunca mencionar o seu santo nome? Onde está Deus nas falas de gente como Malafaia e seu assistente Sóstenes? E outros mais, embriagados de fé?

Onde fica a separação de Estado e religião quando a mulher do então presidente transformava os palácios em templos de sua religião contra minha religião e as crenças da maioria do povo brasileiro? Para expulsar Satanás. Quem deu a ela e ao seu guia espiritual o direito de falar também em nome de Satanás? À medida que o país volta à normalidade das instituições e de seu funcionamento, essas anomalias vão ficando claras naquilo que realmente são.

As provas de golpe político continuado, os julgamentos, as condenações, as prisões, as tornozeleiras, o mimimi das doenças e das idades vão desconstruindo a mentira e o poder da mentira, da farsa, do teatro mambembe da voracidade de poder dos aproveitadores.

Tudo nos mostra a carência e a urgência de movimentos sociais criativos e democráticos que decifrem e desmascarem os usurpadores dos direitos do povo. E retirem da adversidade as lições que nos permitam reconstruir o Brasil que nos usurparam, reinventar partidos que correspondam aos canais democráticos da representação política.

As instituições estão funcionando, como dizia o falecido ministro da Justiça José Gregori. O STF cumpre com serenidade sua obrigação para mandar os violadores da lei para o devido lugar. Mas ainda há crimes a apurar e gente precisando de grade e tornozeleira.

 

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