Valor Econômico
Os julgamentos, as condenações, as prisões,
as tornozeleiras vão desconstruindo a mentira e o poder da mentira, da farsa,
do teatro mambembe da voracidade de poder dos aproveitadores
Chegamos ao novo ano com mentalidade e visão de mundo bem diversas do que eram as nossas no início de 2025. E até muitíssimo diversas das bravatas da tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023 e radicalmente diferentes das de dezembro de 2022. E se recuarmos a 2019, então, as mudanças são tão significativas e perceptíveis, que dão a impressão de que estamos retornando de longa viagem ao estrangeiro.
Não é sempre que um sociólogo tem a
oportunidade de observar ao vivo um processo de transição social tão radical
como este que agora se dá a ver na contradição reveladora do que fizeram
conosco. E, também, do que é o poder da ignorância, da facilidade com que se
aproveitaram de nossa inocência.
Quando nos demos conta, na lentidão do
período que chega ao fim, uma família de oportunistas profissionais tinha se
apoderado do país, fez-se acompanhar de uma multidão de agregados e cúmplices,
gente que se não fossem as fake news sobre adversários, as manipulações de
impressões e de informações sobre pessoas e realidades, jamais chegaria ao
poder.
Comportamento politicamente anômalo no
Congresso e no governo, e em eventos públicos, na visibilidade que ganharam no
modo esdrúxulo de dar-se a ver, logo revelaram que era gente no lugar errado.
No poder graças à democracia, entenderam e
têm agido como inimigos da democracia, pois sabem que se ela se robustecer,
como tem se robustecido, o mais provável é que muitos dos tais não voltarão ao
poder. A coleção de seus desacertos os leva à cadeia.
De repente, os canais do YouTube e até mesmo
o noticiário comum relembram episódios e acontecimentos em que os protagonistas
da comédia política brasileira expõem aos berros, com uma segurança ingênua,
que estavam e continuam fora do lugar.
O pastor que pastoreia dízimos, que se tornou
por conta própria capelão supostamente oficial da República, dono da
Presidência sem ter recebido votos e mandato. Dono, portanto, dos cérebros
insuficientes dos temporários donos do poder do mandato anterior.
No sistema brasileiro de poder, o importante
não é ser eleito para uma função de representação política. O mais importante é
ser coadjuvante indispensável dos que não têm competência para governar.
O bolsonarismo é isso. O pastor que aos berros
chamou os generais de frouxos por não terem tomado a decisão de viabilizar o
golpe de Estado pretendido pelos que estavam em fim de governo. E se achavam
tão excelentes que se achavam no direito de lá ficar.
A família ainda se comporta como se o país
lhe devesse a devolução da presidência e do poder. Trata o povo como o
verdadeiro usurpador do que para ela é um bem pessoal. Comportando-se como
sócia do próprio Deus na suposta missão de mandar no Brasil. Deus, ingrato,
parece dever-lhe esse favor. Sem eles, o que seria de Deus?
As leis do país asseguram a liberdade de
religião e de culto. Em cima de caminhões imensos contratados pelo
pastor-capelão, ele diz o que bem entende, em espaços públicos. Asseguram o
direito de compartilhar crenças. Mas, pera lá, o que vem a ser isso? E se eu
não quiser que ninguém compartilhe crença comigo, por que sou obrigado a ouvir
discurso supostamente religioso que consegue sustentar longas falas políticas
em nome de Deus sem nunca mencionar o seu santo nome? Onde está Deus nas falas
de gente como Malafaia e seu assistente Sóstenes? E outros mais, embriagados de
fé?
Onde fica a separação de Estado e religião
quando a mulher do então presidente transformava os palácios em templos de sua
religião contra minha religião e as crenças da maioria do povo brasileiro? Para
expulsar Satanás. Quem deu a ela e ao seu guia espiritual o direito de falar
também em nome de Satanás? À medida que o país volta à normalidade das
instituições e de seu funcionamento, essas anomalias vão ficando claras naquilo
que realmente são.
As provas de golpe político continuado, os
julgamentos, as condenações, as prisões, as tornozeleiras, o mimimi das doenças
e das idades vão desconstruindo a mentira e o poder da mentira, da farsa, do
teatro mambembe da voracidade de poder dos aproveitadores.
Tudo nos mostra a carência e a urgência de
movimentos sociais criativos e democráticos que decifrem e desmascarem os
usurpadores dos direitos do povo. E retirem da adversidade as lições que nos
permitam reconstruir o Brasil que nos usurparam, reinventar partidos que
correspondam aos canais democráticos da representação política.
As instituições estão funcionando, como dizia
o falecido ministro da Justiça José Gregori. O STF cumpre com serenidade sua
obrigação para mandar os violadores da lei para o devido lugar. Mas ainda há
crimes a apurar e gente precisando de grade e tornozeleira.

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