sábado, 31 de janeiro de 2026

Como seria o Brasil sem os otimistas? Por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

O que ora nos importa é perscrutar o passado recente para tentar entender como nos enredamos no atual lamaceiro

Há quem pense que o Brasil já entrou nos eixos; que vamos bem apesar da economia estagnada e de nossa incapacidade de identificar um candidato plausível para suceder a Lula nas eleições deste ano.

É ótimo que alguns pensem assim; otimistas sempre ajudam a aliviar o ambiente. Melhor ainda seria se conservassem alguma preocupação em compreender como chegamos ao paradeiro em que há tempos nos encontramos.

Sobre a economia, não há muito a dizer. Sabemos todos que um Produto Interno Bruto (PIB) crescendo a pífios dois por cento ao ano não chegará a bom porto. Isso não significa que toda a economia esteja parada. A agricultura, que o renomado economista Celso Furtado via como um peso morto em nossa sociedade, é hoje, por meio do agronegócio, o baluarte de defesa de nossas contas externas. Veja-se o cultivo de frutas. O abacate, na região de Campinas, e as mangas nobres, na fronteira de Minas Gerais com a Bahia, são grandes exportadores mundiais.

O problema é que pouco ou nada podemos dizer sobre o sistema político que nos rege. Sobre Lula, haveria muito a dizer, se tanto já não se houvesse dito sobre ele. His finest hour – sua melhor hora – foi quando qualificou como “herança maldita” o controle, pelo governo Fernando Henrique, de uma inflação que rumava para a estratosfera. Quase tão boa como essa foi quando convocou a sra. Dilma Rousseff para lhe guardar por quatro anos a poltrona presidencial. Como todos se lembram, ela não cumpriu o trato e arrastou o País para um de seus piores retrocessos econômicos. Nada mal para ela, uma vez que Lula, interessado em dela se desvencilhar, emplacou-a na Presidência do Banco do Brics, com uma polpuda remuneração. Melhor ainda porque acaba de ser agraciada pelo Tribunal Regional Federal da 1.ª Região (TRF-1) com R$ 400 mil de indenização e mais uma pensão vitalícia pelos sofrimentos que padeceu nos tempos em que empunhava um fuzil. Muito ruim para os milhões que caíram no desemprego. Noves fora, Lula reelegeu-se e passou a fazer só o que gosta: apresentar-se como estadista. Para ele, a reeleição de Donald Trump para a Presidência da outrora exemplar América caiu como uma luva. Lula telefona para ele e se queixa quando isso lhe parece render votos aqui dentro e faz o contrário quando o contrário parece mais plausível. Um estadista.

Nada do que acima foi dito significa que a economia está simplesmente parada.

Aqui, não vou remontar aos descobrimentos, nem mesmo à assim chamada Revolução de 1930, o golpe armado que derrubou o presidente eleito Júlio Prestes e aplainou o terreno para a ditadura varguista. O que ora nos importa, assim penso eu, é perscrutar o passado recente para tentar entender como nos enredamos no atual lamaceiro.

É lógico que os Poderes – os Três –, vão mal, e os fatores que causam tal degeneração devem-se em grande parte a peculiaridades próprias a cada um. Vou me ater ao Legislativo, que me parece ser o epicentro da lambança. Acontece que, a partir da eleição de Lula em 2002 e do aparelhamento do Estado pelo lulopetismo, o descrédito do Congresso baixou a profundezas abismais. Nesse período, tivemos o edificante episódio do “mensalão”, o interregno Dilma Rousseff e a paralisação da economia. A indústria manufatureira, que já fora mais de 20% do PIB, baixou a pouco mais de 10%. Parece ser uma espécie em vias de extinção. O que segura o País é o outrora amaldiçoado agronegócio. Nesse quadro, e esse é meu ponto principal, o País se viu amarrado a um círculo vicioso. Desmoralizado, o Congresso passou a ser comandado por uma entidade antes inexistente, o Centrão. Esse foi o golpe de misericórdia. Em país nenhum o Legislativo, o ramo obviamente mais conflituoso e transparente do governo, conta com um alto grau de apreciação popular, mas no Brasil, há o agravante de o Legislativo não ter seu comportamento balizado por partidos políticos confiáveis e doutrinariamente bem delineados. Como tenho dito e repetido, o Brasil nunca teve, não tem nem parece certo que venha um dia a ter partidos confiáveis e genuinamente dedicados ao bem público. Ter 20 partidos e nenhum é mais ou menos a mesma coisa.

Essa descida aos infernos suscitou a reação contrária que completa o círculo vicioso. Cidadãos de bem, confiáveis e competentes, longe de serem atraídos para a carreira eletiva, passaram a vê-la como uma substância pegajosa, que suja a biografia de quem nela se mete, e assim fomos descendo cada vez mais, até atingirmos a situação atual: onde deveria haver partidos, há um agrupamento informe de mediocridades e de espertalhões interessados apenas em abocanhar pedaços do erário. Lógico, não estou dizendo que espertalhões desse tipo só grassem no Legislativo. Na própria Justiça, e no próprio Supremo Tribunal Federal (STF), eles se multiplicam como coelhos.

O problema é como vamos sair dessa enrascada, com Lula gastando o que pode e o que não pode, o que significa que no ano seguinte, 2027, estaremos devendo os tubos, quer o presidente seja ele ou qualquer outro.

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