sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

De mãos amarradas. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Governo opera na contramão dos objetivos do BC, o que intensifica e prolonga a alta dos juros

Esse não é o único aspecto da economia em que o Brasil parece ter preferência pelo caminho ineficiente

O economista francês Frédéric Bastiat (1801-1850), que tinha desmesurado gosto pela sátira, imaginou uma petição ao rei para que ele proibisse todos os seus súditos de usarem a mão direita. Justificou a medida aparentemente insana recorrendo à cristalina lógica: quanto mais uma pessoa trabalha, mais rica ela fica; quanto mais dificuldades precisa superar, mais trabalha; logo, quanto mais dificuldades uma pessoa tem de superar, mais rica ela se torna.

O Brasil tem algo de bastiatiano. Temos um problema de inflação que levou o Banco Central a elevar os juros. O que o governo faz? Ele basicamente amarra a mão direita da autoridade monetária, multiplicando linhas de crédito subsidiado e criando vários programas para manter e até ampliar a atividade econômica.

Ora, o propósito mesmo dos juros altos é esfriar a economia para conter o aumento dos preços. Se o governo atua na contramão dos objetivos do BC, o resultado são juros mais altos e por um tempo maior do que aquilo que seria necessário para segurar a inflação.

Essa mania de amarrar a mão direita não está restrita à política monetária nem é exclusividade de administrações petistas. O fenômeno é bem mais antigo e mais geral.

O país tem um problema de baixa produtividade. O trabalhador brasileiro leva uma hora para produzir o que seu homólogo norte-americano faz em 15 minutos. Nosso aumento de produtividade está praticamente estagnado há décadas.

E o que o Brasil faz? Amarra a mão direita. Nossa tarifa de importação de máquinas que poderiam dar uma mãozinha para o trabalhador brasileiro é uma das mais altas do mundo, aproximando-se dos 12%.

Essa nossa quase obsessão pela ineficiência é muito ruim para o país, mas não deixa de beneficiar grupos específicos, como poupadores que faturam uns cobres na renda fixa e empresários que não querem saber de concorrência.

É aí que entra uma outra ótima tirada de Bastiat, que definiu o Estado como uma "grande ficção através da qual todos se esforçam para viver às custas dos demais".

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.