Folha de S. Paulo
Governo opera na contramão dos objetivos do
BC, o que intensifica e prolonga a alta dos juros
Esse não é o único aspecto da economia em que
o Brasil parece ter preferência pelo caminho ineficiente
O economista francês Frédéric Bastiat (1801-1850), que tinha desmesurado gosto pela sátira, imaginou uma petição ao rei para que ele proibisse todos os seus súditos de usarem a mão direita. Justificou a medida aparentemente insana recorrendo à cristalina lógica: quanto mais uma pessoa trabalha, mais rica ela fica; quanto mais dificuldades precisa superar, mais trabalha; logo, quanto mais dificuldades uma pessoa tem de superar, mais rica ela se torna.
O Brasil tem algo de bastiatiano. Temos um
problema de inflação que levou o Banco Central a
elevar os juros.
O que o governo faz? Ele basicamente amarra a mão direita da autoridade
monetária, multiplicando linhas de crédito subsidiado e criando vários
programas para manter e até ampliar a atividade econômica.
Ora, o propósito mesmo dos juros altos é
esfriar a economia para conter o aumento dos preços. Se o governo atua na
contramão dos objetivos do BC, o resultado são juros mais altos e por um tempo
maior do que aquilo que seria necessário para segurar a inflação.
Essa mania de amarrar a mão direita não está
restrita à política monetária nem é exclusividade de administrações petistas. O
fenômeno é bem mais antigo e mais geral.
O país tem um problema de baixa
produtividade. O trabalhador brasileiro leva uma hora para produzir o que seu
homólogo norte-americano faz em 15 minutos. Nosso aumento de produtividade está
praticamente estagnado há décadas.
E o que o Brasil faz? Amarra a mão direita.
Nossa tarifa de importação de máquinas que poderiam dar uma mãozinha para o
trabalhador brasileiro é uma das mais altas do mundo, aproximando-se dos 12%.
Essa nossa quase obsessão pela ineficiência é
muito ruim para o país, mas não deixa de beneficiar grupos específicos, como
poupadores que faturam uns cobres na renda fixa e empresários que não querem
saber de concorrência.
É aí que entra uma outra ótima tirada de
Bastiat, que definiu o Estado como uma "grande ficção através da qual
todos se esforçam para viver às custas dos demais".
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