O Estado de S. Paulo
Sintomático, em todo este contexto, o
pressuposto de que em nosso tempo a unidade política fundamental é – deve ser –
o Estado-nação
Como em toda época de terremoto social, o mundo está de ponta-cabeça. Ninguém, nem mesmo os adversários mais encarniçados de Donald Trump, pode mais lhe negar o caráter rupturista, especialmente neste segundo mandato, vivido por toda parte como tumulto e imprevisibilidade. O experimento “iliberal”, neologismo criado na Hungria de Viktor Orbán, em 2014, para marcar a dissociação autoritária entre democracia e liberalismo, instalou-se de vez no coração do sistema, e daí se espalha agressivamente por todo o Hemisfério Ocidental. Descontada a imprevisibilidade indecorosa dos mapas, é neste hemisfério que estamos politicamente situados – as Américas no seu conjunto e, talvez, a Europa.
Em toda e qualquer ruptura subitamente ficam
para trás, deixando só um tênue rastro, as antigas maneiras de pensar. Há
apenas alguns anos, o ex-presidente Joseph Biden, um liberal no sentido
norte-americano, tentava formular diversamente o conflito global. Ele
consistiria na acirrada competição entre regimes democráticos e não
democráticos, à frente dos quais a China, depois de interrompida sua relativa
liberalização política na segunda década do século 21. A superioridade de uns
sobre os outros não se definiria só em termos de bem-estar material, mas também
de afirmação de sociedades mais abertas e inclusivas.
O horizonte proposto pelo presidente Trump é
de outra natureza. Por um lado, segundo ele, seu país deve renunciar ao papel
de Atlas a suportar nos ombros, como antes, a ordem global em nome de
princípios liberais. Por outro, bem vistas as coisas, há no argumento trumpista
uma nada oculta apologia dos homens fortes e das respectivas autocracias. No
plano estritamente pessoal, aliás, são mais do que evidentes as afinidades
eletivas entre Donald Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin, para não mencionar
autocratas menos votados.
Manifestações retóricas à parte, os Estados
Unidos passaram a abrir mão do soft power do século americano, que terá se
estendido por muitas décadas até a grande recessão de 2008 e suas devastadoras
consequências. A cultura daquele país, agora, deve perder seu caráter expansivo
e se fechar no louvor paroquial às glórias e aos heróis do passado,
considerados pelo metro de um nacionalismo branco e cristão que recorda formas
de fascismo.
A identidade “ocidental” proclamada é a
negação do
Ocidente e dos elementos de universalidade
que este último, no seu conjunto, soube ou pôde construir. A contaminação com
outras culturas ou civilizações não é mais bemvinda. Não se trata de ordenar
razoavelmente a imigração, mas de impedi-la com o objetivo de barrar uma
suposta “somalização” – termo de abjeta inspiração racista forjado
descaradamente nos círculos dirigentes.
Sintomático, em todo este contexto, o
pressuposto de que em nosso tempo a unidade política fundamental é – deve ser –
o Estado-nação. O mitológico Atlas, aqui, corrói e corrompe os fundamentos de
uma obra que não é só sua, mas, de fato, coletiva, erguida sobre os escombros
de grandes conflitos.
Transnacional por natureza, tal obra
pretendia limitar a soberania absoluta dos Estados, introduzindo duas novidades
capitais. Primeiro, o veto às anexações de território, com fins expansionistas;
segundo, a construção paulatina de uma rede de órgãos e instâncias dedicados à
promoção dos direitos humanos em cada uma das entidades nacionais. Se quiser,
um embrião de sociedade civil internacional, a se movimentar segundo a máxima
de que todo poder corrompe e, por isso, deve ser limitado e condicionado.
O programa essencial do trumpismo consiste em
destruir esse embrião e, simultaneamente, arremeter contra a própria sociedade
civil interna, enfraquecendo os clássicos mecanismos de controle e
participação. O resultado pretendido é a disseminação das formas autoritárias
de mando em cada realidade nacional, bem como a perigosa competição entre
Estados-nação autocraticamente constituídos. E, ao proclamar com brutalidade a
consigna “America first”, a certeza é de que, no Hemisfério Ocidental, a primazia
caberá, por uma espécie de lei natural darwiniana, ao país econômica e
militarmente mais forte.
A União Europeia, por isso, é uma indesejada
entidade supranacional a ser cancelada e conduzida de volta aos velhos
nacionalismos, responsáveis por séculos de derramamento de sangue. Para esta
tarefa, de resto, se convocam e incentivam os tais “partidos patrióticos” da
extrema direita, hoje em plena ofensiva eleitoral.
A América Latina, por seu turno, deve se
contentar com ser objeto do “corolário Trump” à Doutrina Monroe, destituída de
qualquer sentido anticolonial que possa ter tido no passado. Como demonstrado
na Venezuela pós-sequestro do ditador, não é impossível que a vontade imperial
se combine, sem maiores complicações, com o mesmo regime de antes,
simbolicamente decapitado. Se tudo isso faz sentido, só uma resposta
profundamente democrática – e cosmopolita, à altura do tempo – impedirá que
voltemos a empregar, ainda com mais rigor, a metáfora das veias abertas do
nosso continente.

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