domingo, 25 de janeiro de 2026

Líderes se acovardam em Davos. Por Dorrit Harazim

O Globo

Trump empilhou insultos, amontoou dados fantasiosos, fez exercício de autoglorificação e recorreu a ameaças pouco veladas

Davos 2026 foi um espetáculo pouco virtuoso. À exceção do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, que emergiu de lá com aura de estadista por fazer uso decente da palavra e respeitar a História, as demais lideranças pareceram figurantes deprimidos e deprimentes. O mundo que conheciam, e onde circulavam com mediocridade altiva, acabou. E o mundo à sua frente, moldado pelos instintos de um homem só — Donald Trump —, lhes reserva futuro inglório se teimarem em se acomodar nele para não perder poderes diminuídos.

É nesse cenário de miséria do pensamento ocidental que a fala de Carney provocou aplausos de pé, alívio e não pouca inveja por parte de seus pares. Ex-presidente do Banco Central e expoente par excellence do establishment liberal de seu país, ele demonstrou que sistemas de poder existem porque agimos como se existissem. Sem acrimônia nem exageros, dedicou-se desmontar “a agradável ficção” de uma ordem mundial geriada pela maior potência global. Recorreu abertamente a um conhecido texto do dissidente tcheco da era soviética Vaclav Havel sobre o “poder dos sem-poder”:

— Quando você desnuda algo a sua essência e percebe a realidade por trás da ficção, todo um sistema desmorona.

Não disputou o poderio militar e econômico em mãos de Trump, até porque seria tolo. Apenas lembrou seus pares que, tal qual o pequeno comerciante de Havel, “quando uma primeira pessoa cessa de fingir que acredita no que lhe é imposto, a ilusão começa a fraturar, e todo um sistema de poder arrisca ruir”:

— Eu tenho algo sobre o qual o poder [de Trump] repousa: a capacidade de desmontar a crença coletiva — resumiu Carney.

Cabe às potências médias competir menos entre si e deixar de se dobrar à hegemonia do momento. Ele disse em voz alta o que todos pensavam e foi ovacionado.

Trump, por seu lado, disse em voz alta o que todos temiam e recebeu aplausos “polidos”. Embora sua interminável fala não tivesse nexo nem fio condutor, e ainda tenha exigido espera de hora e meia da plateia, ele empilhou insultos, amontoou dados fantasiosos, fez exercício de autoglorificação e recorreu a ameaças pouco veladas. No retorno a Washington, não levou na bagagem a cobiçada conquista da Groenlândia e pareceu aceitar, embora a contragosto, que a maior ilha do mundo não é um espaço em branco para seu mapa-múndi.

A essa semana de lideranças acovardadas e diplomacia desvertebrada, veio somar-se também a formalização pública do Conselho de Paz idealizado por Trump e seu genro Jared Kushner há mais de dois anos. A instituição internacional — presidida pelo próprio Trump em caráter vitalício — visa a cortar caminhos na solução de conflitos mundiais, a começar pela reconstrução da terra arrasada de Gaza. Tem como intenção subjacente o descarte puro e simples da ONU como fórum e agente regulador da paz mundial. Pouca coisa não é, assim a seco. Também a rápida adesão de países sob regimes autoritários que se uniram à empreitada deveria ter acendido sinal vermelho na esfera mais democrática do planeta.

Quanto mais se mergulha na gênese desse conselho, mais ele adquire contornos de colossal embuste, à imagem de seu criador. Dele fazem parte o israelense Benjamin Netanyahu, mas nenhum líder palestino. Estão nele Alexander Lukashenko, homem forte da Bielorrússia, usada por Vladimir Putin (ele mesmo também integrante) para atacar a Ucrânia. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, Catar, a Turquia de Recep Tayyp Erdogan, a Argentina de Javier Milei, a Hungria de Viktor Orbán e nenhum aliado ocidental relevante.

Trump ainda pretendeu castigar Carney (pelo teor do discurso e sobretudo pela ovação de pé recebida pelo canadense em Davos) cancelando o convite que ele já tivera a péssima ideia de aceitar. Mesmo o Brasil e Lula demoraram dias para anunciar que declinariam do convite de participar de um projeto que tem tudo para servir de túmulo final de uma esperança chamada Palestina.

Hora de reler “The Cruelty is the Point” (algo como “A crueldade como meta”), publicado nos Estados Unidos quatro anos atrás. Nele, o premiado jornalista americano Adam Serwer, da revista “The Atlantic”, demonstra como o passado dos Estados Unidos espelha seu presente atual e o alto preço pago pelos próprios americanos e pelo resto do mundo que finge não ser assim.

 

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