O Globo
O desafio central já não será reagir a
ataques explícitos às instituições, e sim preservar a legitimidade do processo
eleitoral
O dia 8 de janeiro de 2023 marcou a entrada
da democracia brasileira numa fase de vigilância permanente. Ao longo dos
últimos três anos, a tentativa de ruptura institucional foi contida, os
responsáveis processados dentro dos marcos do Estado de Direito, e as
instituições demonstraram capacidade de reação. A partir daquele momento,
porém, a estabilidade democrática deixou de se apoiar em consensos tácitos e
passou a depender de atenção contínua, cooperação institucional e
reconhecimento social ativo.
As eleições de 2026 se aproximam nesse novo regime. Não como episódio isolado de tensão política, tampouco como mera repetição de disputas anteriores, mas como um teste silencioso de sustentação democrática. O desafio central já não será reagir a ataques explícitos às instituições, e sim preservar a legitimidade do processo eleitoral num ambiente atravessado por ruído informacional constante, fadiga institucional acumulada e disputas recorrentes sobre o significado de autoridade, verdade e derrota política.
O 8 de Janeiro revelou a força reativa do
sistema democrático brasileiro. A atuação do Judiciário foi juridicamente
consistente e politicamente decisiva para conter a ruptura. O episódio, no
entanto, não encerrou a disputa política em torno de seus próprios
significados. As reiteradas tentativas de anistia aos condenados revelam um
esforço persistente de reconfiguração narrativa, voltado a diluir
responsabilidades, relativizar a gravidade dos ataques e reinscrevê-los no
vocabulário ambíguo da conciliação.
É nesse deslocamento que reside um dos
principais riscos ao funcionamento democrático. A ameaça contemporânea
manifesta-se menos como ruptura frontal e mais como erosão progressiva da
confiança pública. Questionam-se decisões judiciais, fragiliza-se a autoridade
da Justiça Eleitoral e reabre-se, de forma sistemática, o debate sobre a
legitimidade de resultados eleitorais. A democracia continua operando, mas sob
contestação permanente, como se estivesse sempre em condição provisória.
As plataformas digitais desempenham papel
central nisso. A ausência de regulação pública independente e eficaz mantém
esses espaços suscetíveis à disseminação coordenada de desinformação, discursos
de ódio e campanhas de deslegitimação institucional. A incorporação acelerada
de ferramentas de inteligência artificial generativa intensifica esse quadro ao
permitir a produção maciça de conteúdos sintéticos capazes de simular
documentos, imagens e falas com alto grau de verossimilhança.
Nesse contexto, o problema deixa de ser a
falsidade pontual e passa a ser a fragmentação da própria ideia de realidade
compartilhada. Quando diferentes grupos políticos passam a operar com versões
incompatíveis dos fatos, a competição democrática perde seu chão comum. A
derrota eleitoral deixa de ser reconhecida como resultado legítimo e passa a
ser interpretada como indício de fraude, conspiração ou captura institucional.
Esse cenário é atravessado por dinâmicas
internacionais de contestação democrática que circulam de forma transnacional,
impulsionadas por lideranças políticas, ecossistemas digitais globais e redes
ideológicas. A democracia brasileira enfrenta esses desafios a partir de suas
próprias fragilidades históricas, desigualdades persistentes e déficits de
confiança institucional.
Em janeiro de 2023, a democracia brasileira
demonstrou que dispõe de mecanismos de autoproteção. O desafio que se impõe
agora é mais complexo e menos visível: preservar sua legitimidade num ambiente
de desgaste contínuo, em que a ameaça deixa de ser episódica e passa a integrar
o cotidiano político. Em 2026, o que estará em disputa não é apenas o resultado
das urnas, mas a capacidade do país de sustentar a democracia em estado de
vigilância permanente, sem que ela se desgaste a ponto de perder o
reconhecimento social que a sustenta.
*Fabiano Garrido é diretor executivo do Instituto Democracia em Xeque

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