quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Sobe Ratinho; desce Tarcísio. Por Julia Duailibi

O Globo

O governador do Paraná é apontado pelos caciques do PSD como nome do partido mais forte na disputa

Gilberto Kassab pode negar, mas a leitura mais óbvia da entrada de Ronaldo Caiado no PSD é a avenida aberta para Ratinho Junior ser o candidato a presidente pelo partido na eleição deste ano. O governador do Paraná é apontado pelos caciques do PSD como nome mais forte na disputa, e a aposta agora é que a candidatura presidencial de Caiado se transformará, em breve, numa candidatura ao Senado.

Não que Ratinho esteja bombando nas pesquisas. Tanto ele quanto Caiado patinam. No cenário mais recente da Quaest em que Flávio Bolsonaro é o candidato bolsonarista, o governador mineiro, Romeu Zema, tem 3%, Caiado, 4% e Ratinho, 9%. Nesse cenário, sem o governador paulista Tarcísio de Freitas, Flávio lidera com 23%. Quando Caiado e Zema são retirados, Ratinho oscila para 11%, e Flávio para 28%. Mas, quando o cenário é sem Ratinho e Zema, Caiado não tem desempenho igual: vai a 5%, enquanto Flávio Bolsonaro chega a 31%. O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, outro nome do PSD, não foi testado na rodada.

O estrago na campanha de Flávio tende a ser maior com Ratinho como o candidato da centro-direita do que com Caiado. A pesquisa mostra que, entre o eleitor que se declara “direita não bolsonarista”, 21% da amostra, Ratinho tem 14% das intenções de voto ante 6% de Caiado. Os eleitores que se declaram “independentes” e de “direita não bolsonarista” são 53% da população. Kassab mira esse potencial.

Além disso, o governador do Paraná tem outros três pontos considerados favoráveis numa disputa nacional: o sobrenome conhecido do pai, o apresentador Carlos Massa; uma gestão liberal no Paraná, a gosto do mercado financeiro (não é à toa que, sem Tarcísio, o mercado se derrete por Ratinho); e o tamanho do domicílio eleitoral, o Paraná, quinto maior do país. Outra pergunta que demonstra o potencial visto pelos caciques do PSD na candidatura Ratinho é sobre quem deveria ser o candidato bolsonarista num cenário sem Flavio. Tarcísio lidera as menções (27%), mas depois vem Ratinho (13%), na frente de Michelle (11%), Caiado (6%) e Eduardo Leite (3%).

A chegada de Caiado ao PSD tem efeito também na candidatura de Zema (Novo). O governador mineiro já tem um acordo com o PSD para lançar seu vice, Mateus Simões, candidato ao governo do estado e agora pode firmar outro, de olho na chapa presidencial, que poderia compor como vice. Com os três governadores ligados a seu projeto — e quem sabe quatro, com Zema —, Kassab manda um recado a Tarcísio, que tem três vagas para negociar na chapa à reeleição em São Paulo (um vice e dois senadores). Kassab ganha força para se tornar o candidato a vice de Tarcísio neste ano, e se tornar governador em 2030, se a chapa for vitoriosa e se Tarcísio se desincompatibilizar para disputar a Presidência.

Com uma tacada, Kassab tirou um candidato a presidente, isolou outro e se posicionou para ser governador em 2030. Concentra, agora, o espaço até então vazio da centro-direita, e sem dar as mãos ao bolsonarismo, ciente da sua rejeição. Enfraquece a campanha de Flávio, mas também torna o governador paulista menor. Kassab foi ao proscênio, enquanto Tarcísio ficou na coxia, esperando os Bolsonaros saírem do palco.

 

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