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Os desvarios incrustados na história do Irmão
do Norte desmentem a excepcionalidade das proezas de Trump
Se há uma lição fundamental a ser aprendida com a política externa norte-americana no último século, é que tentar derrubar até mesmo o regime mais deplorável pode piorar ainda mais a situação”, advertiu o editorial do New York Times, em 3 de janeiro. “Os Estados Unidos passaram 20 anos sem conseguir estabelecer um governo estável no Afeganistão e substituíram uma ditadura na Líbia por um Estado fragmentado. As trágicas consequências da guerra de 2003 no Iraque continuam a afetar os EUA e o Oriente Médio. Talvez o mais relevante seja o fato de que os EUA, de forma esporádica, desestabilizaram países da América Latina, incluindo Chile, Cuba, Guatemala e Nicarágua, ao tentarem derrubar governos pela força.”
Uma caminhada pelos desvarios incrustados na
história do Irmão do Norte traria informações que desmentem a excepcionalidade
das proezas de Donald Trump e seus asseclas. No artigo American Exceptionalism
(Oxford University Press, 2017), Daniel Deudney e Jeffrey Meiser desvendam as
origens da autolouvação norte-americana que invoca o caráter único e superior
de sua posição no âmbito dos Estados Nacionais. “Desde a sua fundação, há quase
um quarto de milênio, os Estados Unidos da América se consideram e são
amplamente percebidos como excepcionais.”
Os autores discorrem sobre os movimentos
contraditórios da afirmação desse excepcionalismo ao longo da história: “Na
política norte-americana e mundial contemporânea, o ‘excepcionalismo
norte-americano’ significa coisas diferentes para as pessoas e os países. Para
alguns é uma visão, para outros, uma farsa e, para outros, um pesadelo. Para
alguns norte-americanos, particularmente neoconservadores recentes, intoxicados
de poder, a excepcionalidade norte-americana é uma luz verde, uma justificativa
e uma desculpa para todos os fins, para ignorar a lei internacional e a opinião
pública mundial, para invadir outros países e impor governos”.
Esse excepcionalismo é constantemente
reafirmado. Desde o século XIX, a política externa dos EUA segue os cânones da
Doutrina Monroe, resumida na célebre frase do presidente James Monroe, em 2 de
dezembro de 1823, durante um discurso no Capitólio: “A América para os
americanos”.
As incursões imperiais dos EUA têm vida
longa. Vamos relembrar a tragédia brasileira deflagrada pelos esgares desse
excepcionalismo. A imprensa brasileira noticiou, em 2014, a “descoberta” de uma
gravação reveladora. Nos idos dos anos 60 do século XX, o presidente John
Kennedy gravou a conversa com o embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln
Gordon. Kennedy perguntou a Gordon se os EUA poderiam “intervir militarmente”
no Brasil para depor João Goulart. Às vésperas do famigerado golpe de Estado de
1964, surgiu um slogan premonitório: “Basta de intermediários, Lincoln Gordon
para presidente”.
No livro Brazil and the Quiet Intervention:
1964 (University of Texas Press, 1979), o historiador Phillys Parker aponta as
manobras golpistas patrocinadas pelo diplomata norte-americano: “O embaixador
Lincoln Gordon e outros oficiais dos EUA sugeriram que a destituição de Goulart
salvou a democracia no Brasil ao confrontar elementos subversivos crescentes no
governo e na sociedade e ao impedir que Goulart executasse seu próprio golpe de
esquerda para obter poderes ditatoriais… Mesmo após revelações recentes sobre a
CIA, ainda é difícil para as pessoas entenderem o quão grande e sinistra é a
organização”.
Os latino-americanos conhecem bem os golpes
“democráticos” promovidos pelos EUA
Em seu livro A Segunda Chance do Brasil: A
Caminho do Primeiro Mundo (Senac São Paulo, 2002), Gordon relata um encontro
com Kennedy em Washington: “Durante a reunião na Casa Branca, eu alertei o
presidente sobre a possibilidade de algum tipo de ação pelos militares
brasileiros e ele perguntou qual deveria ser nossa atitude”. Depois de
tergiversar, enrolar com considerações a respeito da admiração de Goulart pelo
líder norte-americano, Gordon foi ao que interessava e concluiu: “O mais
importante é ao mesmo tempo organizar as forças tanto políticas quanto
militares para reduzir o poder de Goulart (…) ou, em uma situação extrema,
destituí-lo, se as coisas chegarem a esse ponto, o que dependeria de uma ação
explícita de sua parte”.
Gordon conspirava abertamente com as “forças
democráticas” nativas, aquelas que estão permanentemente arquitetando a
supressão da democracia. Da conspirata participavam naturalmente os homens de
bem: ricos de todos os gêneros, parte da classe média ilustrada, semi-ilustrada
e desilustrada. Até mesmo os habitantes de outras galáxias sabiam que senhores
da mídia tupiniquim estavam metidos até a raiz dos cabelos nas conversações e
maquinações conspiratórias articuladas por Gordon.
Segue o enterro: a situação política,
continua Gordon, “me levou a endossar a sugestão da CIA de que fornecesse
dinheiro a candidatos amigáveis”. Para tanto, a agência norte-americana de
espionagem e informação valeu-se do Instituto Brasileiro de Ação Democrática
(Ibad), criado em 1959 por um certo Ivan Hasslocher com o propósito de combater
o governo Juscelino Kubitschek, apresentado como “um perigoso aliado do
comunismo internacional”.
Vou recorrer ao testemunho de Philip Agee,
um ex-agente secreto: “Quando entrei na CIA, acreditava na necessidade de sua
existência. Depois de 12 anos na agência, finalmente entendi o quanto ela
promovia o sofrimento: milhões de pessoas em todo o mundo haviam sido mortas ou
tiveram suas vidas destruídas pela CIA. Mesmo após revelações recentes sobre a
CIA, ainda é difícil para as pessoas entenderem o quão grande e sinistra é a
organização”.
Os EUA já haviam patrocinado a deposição de
Jacobo Árbenz na Guatemala, em 1954, e haviam instigado a queda de Juan Domingo
Perón, em 1955, na Argentina. O resto da história os brasileiros maiores de 70
anos sabem: duas décadas de ditadura, cevada e sustentada pelo Departamento de
Estado dos EUA. Está mais do que provado, há tempos, que a participação da CIA
e de outras agências norte-americanas no golpe foi decisiva.
Por mais de 80 anos, a autoridade moral dos
EUA baseou-se na alegação de que estavam do lado da democracia. Essa alegação
foi frequentemente desmentida pela agressão norte-americana, que fortaleceu
ditadores na América Latina na década de 1970. A Operação Condor instalou
Augusto Pinochet no Chile e Jorge Rafael Videla na Argentina. No início do
século XXI, a “democracia” de Washington vergastou a soberania do Afeganistão e
do Iraque, simulando aparência de legitimidade. •
Publicado na edição n° 1395 de CartaCapital, em 14 de janeiro de 2026.

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