CartaCapital
Diante do fracasso das intervenções no
Iraque, no Afeganistão e na Líbia, Trump optou por manter o governo venezuelano
Não há dúvida de que a agressão militar à Venezuela, o sequestro de Nicolás Maduro e sua transferência para os Estados Unidos para ser julgado representou uma clara violação do Direito Internacional. O que Donald Trump fez está longe de ser novidade, nem foi a mais drástica das intervenções externas norte-americanas. A guerra do Iraque, a invasão do Afeganistão e a derrubada de Muammar Kadafi na Líbia, com bombardeios da Otan, foram operações muito mais violentas e extensas do que a recente incursão na Venezuela. O singular, nesta ação, é que ela ocorreu em um país da América do Sul.
Nas Américas, os norte-americanos já
realizaram intervenções de tipos variados. A mais notória foi a invasão do
Panamá, em 20 de dezembro de 1989, que resultou na derrubada e captura do
ditador Manuel Noriega, em 3 de abril de 1990. Ele foi julgado e condenado nos
EUA. Na ocasião, foram usados 27 mil soldados e cerca de 300 aeronaves
militares. No caso venezuelano, em que pese o deslocamento de uma poderosa
força naval para o Mar do Caribe, a operação contou com 150 aeronaves e 200
soldados. No Panamá, foi uma ação de tropas militares com ocupação territorial.
Na Venezuela, foi uma operação de comandos, com imediata retirada após a
captura de Maduro.
Consignando as informações da CIA e possíveis
traições de setores do governo venezuelano, o que se impõe agora é lidar com a
nova realidade que foi criada. Trump, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio,
e os líderes que comandam a Venezuela sinalizaram que haverá uma transição
coordenada pelo governo norte-americano, em parceria com o regime chavista.
Caberá ao governo de Delcy Rodriguez, recém-empossada, operacionalizar isso.
Ela terá de negociar com as elites locais, com as petroleiras norte-americanas,
com os militares, com líderes da oposição e outros setores interessados. Num
momento futuro, não se sabe quando, deverão ocorrer eleições.
É preciso entender as razões da escolha desse
modelo de transição. Do lado do governo venezuelano, a questão é simples: ele
ficou sem alternativas. Ou aceita fazer a transição ou sofre novas ações
militares, com sua possível derrubada. Do lado do governo Trump, as motivações
são mais complexas. Os EUA foram malsucedidos nas intervenções e transições em
diversos países. No Iraque, ocorreu uma guerra sangrenta e custosa. No
processo, surgiram vários conflitos entre grupos rivais. A invasão ocorreu em
2003 e os americanos só conseguiram retirar suas tropas em 2021. O Afeganistão
foi invadido em 2001, com a derrubada do Talebã, e se sucedeu uma longa guerra.
Em 2021, os americanos se retiraram de forma desastrosa e o Talebã voltou ao
poder. Na Líbia, depois da morte de Kadafi, explodiu uma guerra intertribal
que ainda não chegou ao fim.
Com sua liderança na região erodida, o Brasil
não tem muito o que fazer. Os norte-americanos não precisam de mediadores por
lá
Diante de todos esses fracassos, a conclusão
é a de que o modelo de invasão, deposição do governo de plantão, ocupação
territorial e morte das lideranças resultou em altos custos, desordem, caos e
desgoverno. Em sua campanha eleitoral, Trump criticou todos esses processos e
se comprometeu em não os repetir. Setores da opinião pública e eleitores
trumpistas temeram que ele quebrasse essa promessa na Venezuela.
O comando trumpista percebeu que não haveria
como remover todo o governo chavista sem uma extensa intervenção militar e
possível guerra civil. Colocar a oposição no lugar do governo chavista
resultaria em anos de conflitos, desorganização do país e ingovernabilidade. A
solução menos custosa consistia em manter o atual governo para garantir a ordem
interna e promover uma transição mais prolongada e controlada.
Juan Linz e Alfred Stepan, estudiosos das
transições de regimes autoritários para regimes democráticos, indicam três
modelos principais: transição pactuada, ruptura com a derrubada do regime e
ruptura pactuada. Na transição pactuada, o processo é liderado por setores
reformistas de dentro do próprio regime. Na ruptura, a oposição derruba o
regime sem negociação. E na ruptura pactuada, a transição parece uma ruptura
completa, mas mantém continuidades institucionais e legais importantes do
regime.
No caso da Venezuela, foi escolhido o modelo
de transição pactuada. Em circunstâncias diferentes, foi o mesmo modelo adotado
no Brasil durante a redemocratização do País. Raymundo Faoro, em Os Donos do
Poder, crítico desse processo, chamou tal modelo de “transição transada”. Ela
se caracteriza por um pacto entre as elites com exclusão do povo, mudança
passiva sem transformação e maquiagem da fachada institucional. Parte
importante do regime se manterá no poder e abrirá as portas para novos atores,
que estavam excluídos. É o “vamos mudar para que tudo fique como está”, na
famosa adaptação da frase de Giuseppe Lampedusa.
Com os acontecimentos da Venezuela,
especula-se sobre uma possível interferência de Trump no processo eleitoral do
Brasil. Não é o mais provável: Trump move-se mais por interesses do que por
ideologia. Se o pragmatismo do governo Lula não contrariar os interesses do
governo dos EUA, nada de muito significativo deve acontecer. Que setores
organizados da extrema-direita norte-americana procurem interferir, é factível.
É improvável, contudo, um envolvimento direto da administração trumpista.
Em relação ao conflito na Venezuela, o Brasil
não tem muito o que fazer. Os norte-americanos não precisam de mediadores. Têm
relações diretas com Delcy Rodriguez e com militares venezuelanos. O Brasil
sofre uma erosão de sua liderança na região. Adotou posições equivocadas e
demorou para agir.
Publicado na edição n° 1395 de CartaCapital, em 14 de janeiro de 2026.

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