segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Donald Trump e a hegemonia predatória dos Estados Unidos. Por Roberto Goulart Menezes

Correio Braziliense

Em um ano de governo, Trump tenta impor dominação sobre o mundo e abandona o difícil exercício da hegemonia que foi o que fez dos EUA uma potência mundial

Donald Trump completou um ano do seu mandato à frente da maior potência mundial. E, desde o início da sua presidência, em janeiro de 2025, as políticas externa e comercial dos Estados Unidos têm sido marcadas pela agressividade e pelo unilateralismo. Em seu discurso de mais de uma hora proferido no Fórum Econômico Mundial (Davos, Suíça), em 21 de janeiro, o presidente Trump fez um balanço do seu primeiro ano e discorreu sobre a sua política externa. A plateia, em sua maioria composta por magnatas das finanças, da indústria, das big-techs entre outros, juntamente com a presença de alguns chefes de Estado e de governo de diferentes países, ouviu um discurso sem rodeios, no qual Trump tocou em questões geopolíticas bem delicadas, a começar pela relação com os seus aliados europeus.

Ele começou descrevendo parte de uma conversa telefônica que teria tido recentemente com o presidente francês, Emmanuel Macron, acerca do preço de medicamentos fabricados e vendidos por corporações dos EUA. Segundo Trump, após poucos minutos de conversa, Macron teria acatado a sua ordem de elevar os preços dos remédios e, assim, aumentar os lucros das empresas farmacêuticas. O presidente dos EUA arrematou dizendo, com certa ironia, que suas conversas com os principais líderes europeus não duram mais que três minutos. E que eles sempre cedem aos seus pedidos (ou ultimatos). Trump é megalomaníaco e nunca perde a oportunidade de se vangloriar de seus feitos, seja lá o que for.

Sabemos que a Europa Ocidental é aliada dos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e essa relação foi selada com a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em 1949. Ao discorrer sobre os elevados custos anuais da Otan, Trump instou os europeus a pagarem mais pela segurança e defesa do continente. De certa forma, parece considerar a Otan um fardo para os EUA, pois alega que o país sustenta quase sozinho todo o orçamento anual da organização. Eles pagam 66% do total.

Mas, ao abordar a sua obsessão pela Groenlândia, Trump explicitou ainda mais a hegemonia predatória estadunidense. Por mais de uma vez, referiu-se ao território controlado pela Dinamarca como um "pedaço de gelo", embora lá vivam cerca de 57 mil pessoas. Disse que não pretende usar a força para tomar a Groenlândia da Dinamarca, um dos membros da Otan, e espera contar com a benevolência tanto do governo dinamarquês quanto dos demais aliados da Europa Ocidental para que não criem dificuldades para o seu apetite territorial. Faltou ele explicar que EUA e Dinamarca possuem um acordo que assegura amplo acesso das forças estadunidenses ao território.

Ao tentar justificar que se trata de uma questão de segurança nacional para os EUA, Trump securitiza o "pedaço de gelo". Para isso, lança mão da suposta "ameaça chinesa" ao mundo ocidental. Até o momento, a resposta dos principais líderes da Europa tem sido tímida. Vale lembrar que a França se retirou do comando militar integrado da Otan em 1965 e só retornou em 2009.

Trump deixou claro que, na sua política externa, a Europa já não ocupa o lugar reservado a ela desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Agora, o que os EUA buscam é tutelá-la. E não é só a soberania da Dinamarca sobre a Groenlândia que ele atacou. Ao afirmar que os "nossos aliados destruíram nossa economia", ele parece indicar que a fatura será cobrada e que os aliados europeus não devem esperar mais pela suposta benevolência dos EUA. E que a Guerra da Ucrânia é um problema dos europeus. Ou seja, eles devem pagar os custos dela.

O estilo de Trump, desde o seu primeiro mandato, é marcado pela chantagem. O unilateralismo e a lógica do interesse nacional seletivo são os fios condutores de suas relações internacionais. Em apenas um ano, Trump elevou a instabilidade mundial. E as armas utilizadas em suas investidas contra diferentes países vão desde instrumentos comerciais, passando pelas ameaças (nem sempre veladas) até o uso do poderio militar.

Tudo isso só em apenas um ano de mandato. Resta sabermos se ele levará adiante todas as suas ameaças e como se dará o enfrentamento à hegemonia predatória exercida pelos EUA. Os perigos representados por sua política externa agressiva já estão aí. Sua atuação internacional evoca o dilema hobbesiano da guerra de todos contra todos. Assim, Trump tenta impor dominação sobre o mundo e abandona o difícil exercício da hegemonia que foi o que fez dos EUA uma potência mundial. As tensões com a Europa deixam todo o mundo em alerta, pois, como expressou Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, um dia antes no mesmo púlpito, estamos diante de uma ruptura da ordem mundial.

*Professor-associado do Instituto de Relações Internacionais da UnB

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